quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vamos falar de Felicidade?


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Se estamos em busca da felicidade, por que nos vemos, por vezes, em relacionamentos falidos ou mesmo ilusórios, criando desculpas para o indesculpável?

Se estamos em busca da felicidade, por que temos nos tornado viciados em ver defeitos em nossos corpos a fim de termos uma aparência que nunca será para nós adequada o suficiente?

Se estamos em busca da felicidade, por que lutamos tanto contra a velhice, sendo essa uma das únicas certezas da vida, caso a gente tenha a benesse de chegar até lá?

Se estamos em busca da felicidade, por que seguimos como cordeiros domesticados apertando nossas personalidades para caber nos padrões que não nos comportam?

Se estamos em busca da felicidade, por que seguimos caminhando nos círculos viciosos que tanto nos machucam?

Se estamos em busca da felicidade, por que seguimos alimentando toda sorte de coisas que faz com que nos sintamos sempre inadequados?

Antes de desejarmos o que quer que seja, questionemos: O que isso que desejo tem a ver com a minha sensação de ainda não ser adequado o suficiente?

Talvez percebamos que estamos desejando nos manter prisioneiros.

Talvez percebamos, logo depois, já termos o suficiente.

Um feliz e generoso 2018 a todos nós!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vamos falar de família?


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  Recentemente tive a honra de assistir o IV Seminário Internacional  sobre a Qualidade dos Serviços de Acolhimento: o direito à convivência familiar e comunitária. 

  O primeiro dia de seminário oferecia um workshop. Lá fui eu fazer. 
Chamava-se "Desafios e caminhos para o trabalho com crianças e adolescentes acolhidos: a experiência internacional." 

  Não sei para o leitor, mas para mim, tudo um tanto abstrato até então.
Logo ao chegar na turma, o professor Hermann Radler (Presidente do FICE Internacional) fez com que a turma se dividisse ao propor o seguinte: quem considera que já sofreu um trauma vá para o lado esquerdo da sala. 
Por óbvio, o contrário, lado direito.

  Lá fui eu integrar a nuvem carregada prestes a desmoronar. 
Eis que o professor passou à segunda orientação: formem duplas. 
Pois bem, o meu trabalho foi apenas o de olhar para a esquerda. O trabalho da minha colega apenas o de virar os olhos para a direita e tcharam: dupla feita.

  O professor pediu que falássemos há quanto tempo a situação traumática havia ocorrido e o que nos levou a superar.

  No que tange à segunda questão, bingo! Família foi carro chefe das formas de superação dos traumas. Mas, vamos lá: O que seria família?

  Para mim, família significa uma pessoa (ou mais) que sinto de forma profunda que me ama a um ponto indescritível. 
Melhorando, alguém que só de pensar em contar um problema, já torna o problema por si só um tanto menor, não o problema em si, porque por vezes a família pode ser exagerada e fazer de uma gota, uma tempestade, mas o peso do carregar, seja o problema maior ou menor na visão de quem contamos. 
Família, ao meu sentir, é a pessoa (ou mais) que representa esse alívio mental só em saber da sua existência. 

  Perceberam que poderia escrever uma série de conceituações e mesmo assim ainda faltaria algo? 
E eu só posso escrever sobre o meu significado. Imaginem! 

  Eu estava num seminário sobre crianças em serviços de acolhimento e o primeiro pacote que tive em mãos foi o de memória de traumas e a conclusão de que a minha família era tudo de mais precioso na minha construção/ reconstrução. 

  Por uns instantes, imaginar-me sem a minha família em determinados contextos que fui posta a lembrar era como me ver perdida em pequeno pedaço de terra rodeado por precipícios. 

  Pensei nas crianças/ adolescentes "semfamília. Silêncio sepulcral. Mais do que dor: precipício. Preta e branca foi essa fotografia que me invadiu. Meu Deus! Eu não conseguia imaginar a minha vida sem a minha família e estava lá para aprender sobre as crianças/ adolescentes "semfamília. Vislumbrei que eu era muito pequena, mas que meu papel poderia ir além.

Volto à questão: O que é família?

  A menina que fez dupla comigo é uma das fundadoras de um abrigo. Com ela, estava o seu grupo de trabalho e duas adolescentes acolhidas. Conheci essas meninas. 

  Assisti as palestras que foram das mais diversas. Psicólogos, gestores de abrigos, promotores de justiça e o mais importante: a fala de alguns adolescentes que viviam em situação de acolhimento. 

  Ficou claro aos meus olhos que muitos adolescentes encontraram nos profissionais do serviço de acolhimento, uma família. Isso já é dado o suficiente para abrirmos os olhos um milhão de vezes no momento do assunto da adoção como na temática da reintegração familiar.

  Outra questão que levantaram: a importância da extensão do tratamento aos que até então eram os responsáveis por essas crianças e adolescentes. Afinal, como acolher apenas as crianças e adolescentes e negar apoio à sua família de origem?

  Há casos de pessoas que se recuperam da situação que as levou a serem afastadas de seus filhos/ netos, etc. 
Entretanto, não é da Disney que estamos falando. Não se trata de passo de mágica. 

  Percebo que estou a jogar questões como quem lança tecidos ao ar. É preciso costurar a colcha de retalhos.

  Caros leitores, não há verdade absoluta. Um tanto clichê essa afirmação, mas ainda assim é preciso reiterá-la. Há operadores do Direito que parecem não saber disso. Há integrantes do Legislativo que parecem não saber disso. Quem me pareceu saber disso?
Quem de fato lida com as crianças e adolescentes em serviços de acolhimento. 

  Há situações que a reintegração familiar é válida. Noutras não. Há situações que a adoção é válida. Noutras não. 
  Seja qual for a situação, uma verdade se mostrou muito clara: o serviço de acolhimento deve se prestar a formar um vínculo que possa representar o sentido de família ao acolhido. Ainda que esse vínculo seja restabelecido com a sua família de origem, ainda que venha a ser estabelecido com uma futura família caso ocorra a adoção, ou ainda quando não haja adoção, mas a prestação do serviço da família acolhedora.

  Família acolhedora é uma família que cuida da criança sem o intuito de adotá-la. Na primeira infância, os estudiosos afirmam ser de grande importância para o desenvolvimento do indivíduo, devido à maior possibilidade de vínculo criado ao comparar com o que ocorre, à grosso modo, nos abrigos na primeira infância.

  Foi nos ensinado que a primeira infância é a fase mais importante do nosso desenvolvimento e que os vínculos nessa fase, principalmente, são fundamentais. Também aprendemos que os vínculos não precisam ser eternos para o saudável desenvolvimento da psiquê e que o afastamento da família acolhedora deve ser feito de forma delicada a fim de não causar traumas.

  Ainda assim parece assustadora essa ideia: uma criança é posta em abrigo, logo depois é acolhida por uma família que em algum momento não poderá adotá-la, representando mais um afastamento familiar para essa criança. 

  Sim. Parece. Entretanto, se o serviço de acolhimento familiar não existisse, o desenvolvimento de muitas crianças ficaria prejudicado. Não sou eu que estou dizendo (são os estudiosos do desenvolvimento).

  Alguns pensam que o ideal é colocar essas crianças de forma mais rápida possível em uma família adotiva, mas questiono: e quanto ao trabalho de possível reintegração familiar?  Mais ainda, e quanto ao trabalho de estudo dessa possível família adotiva? 
Enquanto esses trabalhos são feitos, a família acolhedora é necessária.
É a mais perfeita das situações? Não me parece. 
Entretanto, em terreno de riscos, os estudiosos dizem ser o melhor a se fazer.

  Devemos confiar no trabalho de quem estuda o desenvolvimento infantil e juvenil. Devemos confiar na visão de quem trabalha nos abrigos. Devemos ouvir as crianças e adolescentes.

  Não há uma verdade absoluta. Não há um padrão a ser reproduzido. 
Essas crianças e adolescentes, como seres humanos que são precisam de AMOR. Vínculo. Confiança de que não estão num pequeno pedaço de terra rodeado por precipícios, mas de que mesmo que estejam, vejam nesses precipícios, pontes construídas por seres que se prestam a ir além das estatísticas, que se comprometem a trabalhar além das suas iniciais reduzidas visões de mundo.

  Todos temos iniciais reduzidas visões de mundo porque para todos nós o "mundo", inicialmente, é o que nos é apresentado.

  Entretanto, ao estarmos em sociedade e sabermos que mundos diversos são apresentados aos nossos conterrâneos, torna-se justo que conheçamos o melhor possível a terra em que pisam antes de tomarmos atitudes radicais quanto às vidas que não são nossas.

Como lutarmos para afastarmos famílias? 
Como lutarmos para unirmos famílias?
Qual a base dessas nossas lutas?

Não podemos nos prender ao que a nós parece ser melhor pelo que vivemos em nossa inicial reduzida visão de mundo
A base da vida alheia não pode ser mais uma vez afetada pela frágil e egoística base das nossas convicções. 

Se almejamos para o próximo o seu melhor é crucial a consciência de que se o próximo é outro, o seu melhor também pode ser outro. 

Estudemos. Pisemos nas mais diversas terras. Assim, começa a luta. 
Bem depois, opinemos sobre Lei da Adoção, etc.

Afinal, quem somos nós?




O seminário foi realizado pelo NECA (Associação de Pesquisadores sobre a Criança e o Adolescente/SP)  e pelo FICE BRASIL em parceria com o FICE Internacional (Internacional Federation os Educative Communities)  e o Movimento Nacional Pro Convivência Familiar e Comunitária (MNPCFC).

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Geração Y. Quem por nós?

Será que há em nós um mimo entranhado?

Li esses dias um texto que dizia que a geração y, a de 1990 a qual pertenço, é uma geração insatisfeita, sem determinação. É a geração que não tem sangue nos olhos para lutar pelos seus sonhos. O texto acaba por nos levar à ideia de que não queremos sofrer porque de certa maneira começamos a nos questionar sobre o que vale a pena, já que a nossa estabilidade também fica afetada por tantos retrocessos, pelo capitalismo selvagem.

Tarefa um tanto delicada a de analisar uma geração. A qual camada social se referem? Como tivera sido a criação de cada um? De quais escolas partiram?

Há uma série de fatores importantes a serem analisados antes de categorizar uma geração.

Não posso falar por uma geração. Posso falar pelo que observo ao meu redor, que por si só, já é um tanto limitado. Cometerei a audácia, portanto, de partir na 1ª pessoa do plural em alguns momentos do texto.

Insatisfeitos. Sim. Qual ser humano se diz plenamente satisfeito?
Independentemente da geração, tudo indica ser essa uma condição intrínseca.

Não fugirei ao propósito do texto. Foi apenas uma provocação que creio valer a reflexão.

Porque nós da geração y estamos insatisfeitos?

Antes de analisar essa questão, devemos nos atentar ao que encontramos, partindo de onde viemos.
Reitero que falarei pelo que observo ao meu redor.

Viemos de pais que viveram a ditadura militar. Não podiam abrir a boca.
Muitos, quietos permaneceram. Alguns escolheram o silêncio por puro instinto de sobrevivência.
Outros por serem afins ao sistema. Alguns optaram por se rebelar também por instinto de sobrevivência, uma sobrevivência mais profunda, arraigada ao sentido da vida.

Viemos com tudo "de mão beijada" pensam muitos dos anteriores a nós.
Assim como tende o anterior a pensar do posterior, tendo em vista só ser possível viver os problemas da própria época.

Viemos pós Constituição de 1988. Como reclamar?
Viemos gozar o que tanto lutaram para conquistar. Somos os filhinhos de papais em berço esplêndido. Somos a geração que não luta, que apenas pede, exige, reclama, chora. Somos os mimados, ingratos, rebeldes sem causa. Afinal, já nascemos em causa resolvida.

Será?

Viemos em capitalismo selvagem. A nós foi prometido que qualquer caminho seria de puras benesses. Que podíamos, enfim, livres, viver nossos sonhos. A nós foram vendidos sonhos.
Diversos. Diversas profissões novas e interessantes. Todas promissoras, ao contrário do que diziam nossos pais e avós (muitos deles).

O que fazer? O que escolher? Em quem acreditar?

Cada um com suas escolhas. Alguns por caminho mais conservador. Outros por caminhos mais criativos. Outros, ainda, tentando aliar os dois caminhos, em corda bamba.
Todos, porém, acreditando no tal baú em algum lugar do caminho da felicidade.

Para nós não era suficiente a promessa do baú. De que valeria um baú na velhice ou aos quarenta anos?

A nós foi vendida a ideia de que a vida vale pela juventude. A nós foi/ é dito o tempo todo que devemos postergar nossa tenra idade o máximo que pudermos.
Não é mais só pintar o cabelo quando surgir um branco. Passou a ser a imposição do botox, do preenchimento, disso e daquilo, disso e daquilo...
Nos consultórios que vamos, as dermatologistas dizem: o mais indicado é começar antes dos trinta, por isso e aquilo, isso e aquilo...

Promessas e ideias até então: baú garantido em novas carreiras (pelo capitalismo). Baú garantido em carreiras conservadoras (pelos nossos pais). Juventude é o que tem valor.

Chegamos, muitos de nós, aos quase trinta anos sem o tão prometido baú. A juventude também começa a se distanciar.  Como nos sentimos?

Também vivemos em tempos de antidepressivos, de anti isso e aquilo, isso e aquilo...
Em tempos de diagnósticos para toda e qualquer sensação.
A nós é garantido que temos alguma coisa, mas que há um remédio para isso.
A melhor promessa?  De efeito à curto prazo.

Em termos de relacionamento, mundos opostos também nos são vendidos.
De um lado, o da alma gêmea, da família perfeita, etc e tal.
De outro, o da pluralidade de pessoas interessantes, da liberdade, da intolerância a tudo que não for agradável no outro, afinal, merecemos o melhor e há bilhões de pessoas por aí.

Muitos de nós temos pais separados. Muitos de nós temos pais casados por pura conveniência. Muitos de nós temos pais sumidos. Nenhum de nós tem a família perfeita porque perfeição não existe.

Em meio a tantas promessas e tantas histórias, como nos sentimos?

Se somos mimados, ingratos, adolescentes tardios, não sei.
O que sei é que somos bombardeados. Por todos os lados. O tempo todo.

É tarefa difícil conhecer o que diz a voz interior, porque mesmo quando a escutamos, nós, que estamos em busca das respostas certas, questionamos: será que a nossa tão verdadeira voz interior não está contaminada?

É difícil termos oportunidade para ouvir a própria voz. Em meio a tantas vozes, é difícil identificá-la.
É como se estivéssemos em plena avenida em que há bandas, buzinas, gente gritando, faróis, chuva, outdoor, etc.
É como se nessa avenida todos os nossos sentidos estivessem hiperestimulados.
Precisamos filtrar todos os bombardeios e encontrar essa tão sonhada voz.

Encontramos!
A equação evolui: podemos confiar nela?
Desejamos uma voz genuína, intrinsecamente nossa, elemento puro da natureza.
Existe?

Vivemos nossa juventude bombardeados por infinitas promessas de felicidade.
Vivemos nossa juventude em tempos em que a tolerância não nos parece um valor, pois nos são prometidas fórmulas à curto prazo. Como resistir a essa tentação?
Há em nossos cérebros áreas que nos estimulam ao prazer instantâneo.
Isso não é novidade, independentemente da geração.
Só que nós vivemos na geração em que isso é hiperestimulado.

Está triste? Remédio. Empréstimo. Festas, etc. (Para essa questão, uma série interminável de promessas...)
Não aguenta mais o outro? Há outro logo ali adiante. Não encontra? Olhe seu celular bem à sua frente. Baixe um aplicativo!
Não aguenta mais o trabalho? Há milhões de opções de felicidade garantida. Você pode/ merece ser o felizardo.
Etc.
Etc.
Etc.
Poderia ficar o dia todo listando as promessas.

E, aí?

Não há resposta milagrosa, "fast-answer".
Se é isso que o leitor espera de mim, uma mera bombardeada da geração y, sinto informar que o leitor ficará frustrado. Cuidado! Talvez seja sintoma do bombardeio! Tudo bem. Vamos dar as mãos.

Posso, ao menos, fazer algumas sugestões.

Buscar a voz interior é importante. Ela existe. Não sei se nos moldes da pureza química de um elemento da natureza, mas ela existe. Melhor ainda, ela resiste.
Atenção! Há tanta, mas tanta poeira por cima dela, que a rinite pode atacar. Trata-se, porém, de uma alergia que não pode ser resolvida com anti-histamínico.
Sim, nós iremos espirrar, os olhos ficarão coçando e temeremos o edema de glote. Não será agradável.

Como começar a busca?

Parece que o processo de filtragem do que for começa com uma série de materiais diversos e um filtro. Em alguns processos, esses materiais não param de surgir. Tal parece a vida.
Não há como calarmos a boca das pessoas à nossa volta. Tudo bem, caro leitor, eu sei que o senhor pode ir em direção a uma ilha deserta ou até mesmo acampar em Paraty, mas vamos além, afinal, trata-se de um processo de vozes entranhadas ao longo de todos esses anos que acabam por nos acompanhar aonde quer que formos.

Como filtrá-las, afinal?

Filtrar significa separar, não é mesmo?
Há uma palavra-chave aí: prioridade.

Podemos começar com um papel e uma caneta.
De um lado tudo que é importante para nós.
De outro, o que é insuportável.
Também podemos fazer a terceira fileira: as opções que temos em mente.

Perceberemos que o desagradável irá aparecer em qualquer equação. Realmente, não há como nos livrarmos dele.
Do insuportável, podemos criar formas de nos livrarmos.
Então será importante aprender a distinguir o desagradável, até mesmo desagradabilíssimo do insuportável.

Talvez, percebamos a necessidade de trabalhar a nossa tolerância, afinal se tudo que for desagradável for insuportável, não nos restará opção.

Olhamos nossas opções e tentamos identificar ali o que carregam de importante/ desagradável/ insuportável.

As que de fato carregam fardo insuportável serão eliminadas.
 Que não nos arrastemos pelas lamentações eternas: "Ah, mas se não fosse logo isso, poderia escolher essa opção." Há opções que contêm fatores insuportáveis e pronto. Não temos como controlar tudo, por mais que essa promessa também nos tenha sido vendida.

Ficaremos, pois, diante das opções que carregam fatores importantes e desagradáveis.
Ali começará nosso processo mais refinado de filtragem.

 Voltemos a atenção para a forma como nos sentimos.
Acabaremos por filtrar o que é mais importante daquilo que é muito bom, mas não fundamental.

Nessa altura do processo já teremos eliminado as opções com fatores insuportáveis e também diferenciado as que contêm fatores muito bons das que têm em si elementos fundamentais.

O restante do processo caminhará praticamente por conta própria.
Não precisamos nos preocupar em como a água passará pela tela de uma peneira.

Parece interessante confiar no processo, pois as milhares de promessas continuarão nos bombardeando. Essas vozes nos farão duvidar da filtragem.
Aí, teremos o trabalho de identificar nessas vozes o insuportável e o fundamental que oferecem.
Uma vez tendo feito a filtragem, o trabalho será o de colocarmos essas opções promissoras ao lado de nossa escolha já feita e usarmos a balança.

Filtro e Balança.

Lembremos sempre que o desagradável sempre existirá.
Lembremos sempre que nossas escolhas depois do processo foram fruto de filtragem refinada, portanto, são confiáveis.
Lembremos de novo que o desagradável sempre existirá.

Confiando nas decisões tomadas, as promessas perderão a força.
Entretanto, é natural que ao longo da vida percebamos que o que não era insuportável passou a ser, o que era fundamental deixou de ser. 
Nossa filtragem não acaba.

O que parece fundamental é que saibamos HOJE o que é insuportável e o que é fundamental.
Não precisamos saber por todos os anos vindouros. Temos o direito do hoje.
De um hoje que acaba por perdurar por certo tempo, afinal, não foi à toa o hoje construído, foi produto de anos.
Não será à toa o amanhã percebido, também resultado de anos.
Mas, respiremos, o amanhã não nos pertence. Não ainda.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Adiante!


Muitas vezes, a gente sofre.
Sofremos por nos sentirmos "desencaixados", um peixe fora d'água ou até mesmo invisíveis. Sofremos por sermos sociais. Esperamos do outro a validação. Só se enxerga os próprios olhos por meio do espelho. Fazemos do outro esse eu a ser refletido. 

Os anos se passam, percebemos que com ele, os outros passam. Sempre há alguém a passar. Diz-se que a vida é a eterna arte do encontro. 
De repente, encontramos: conosco próprios. Assim, de frente para o horizonte. 
Sentimos o ar. Notamos nossas marcas pelo chão. Evitamos arrancar uma flor. 
Desconfiamos não ser invisíveis. 

Notamos que cegos são os outros, alguns outros que passaram. 
Tal como fomos/ somos algumas vezes. 
Percebemos também que não há peixe fora d'água. Há peixe que questiona o seu lugar por não enxergar outros peixes por ali. Há sempre peixes por ali. Talvez escondidos atrás de uma pedra. 
Afinal, há sempre do que se proteger. Também conhecemos algumas cavernas. Talvez justamente nos momentos que outros peixes estivessem mais próximos do que imaginássemos, sentindo-se sós, invisíveis, peixes fora d'água ou numa água gelada demais para suportar. 
A vida também é a arte dos desencontros. 

Tal como as pedras que ladeiam o mar, em nós, nossas erosões. 
O que parece crucial é aceitar que elas serão eternas. 
Limitam-se à eternidade da nossa existência, longa ou curta. 
Não há vida sem dor. 
A dor surge repentinamente, de qualquer sorte de motivo. 
Afinal, mesmo o escudo impõe seus fardos: atrás da pedra pode acabar virando cenário limitado demais para quem em oceano vive. 
Eis que se descobre que a força é tal como o horizonte .
 Quando se pensa chegar no limite, além ela se mostra. Nós nunca esgotaremos a nossa força, porque ela não é só nossa. Gratidão. 🙏🏻 

http://nathaliareina.blogspot.com

Manual de Inversões

“Uau! Fulano passou a festa casado com ciclano. Perdeu metade dos contatinhos.”

Me parece que as pessoas estão tentando evitar os olhos.As tais janelas da alma abrem portas demais, aprofundam demais.Tudo indica que as profundezas apavoram.A lógica do mercado é acumular demanda, deixar todas disponíveis para algum momento e... 

E o que? Sabe-se lá.

Há na porta do mercado um manual de instruções:


Não se perca no olhar, não use as mãos para fazer carinho. 

De forma alguma se apaixone.Você, amigo (a), como todos os seres humanos, tem uma ferida exposta, um calo, um ponto fraco, o nome que você quiser dar. Isso. Você tem.Esconda. Uma hora vai ficar anestesiado. O ciclo servirá como colírio para os seus olhos, que fracos, sucumbirão.A sua história mais emocionante fica na lembrança. Não conte para essa pessoa. Ela pode vir a contar a dela e vocês podem se sentir conectados.Aquele abraço que você adora dar e receber fica na lembrança, nessa que você deve sufocar. Deixe qualquer abraço pra lá. Vocês podem se sentir conectados.As suas dores, qualquer dificuldade, esconda. O contatinho pode se mostrar um forte ombro amigo. Vocês podem se redescobrir humanos.

De forma alguma passe tempo demais com essa pessoa, o tempo constrói pontes e histórias fascinantes. O fascínio é perigoso. Abra seus olhos! Pingue colírio.
Se essa pessoa demonstrar que se sentiu conectada com a sua presença, pense imediatamente: que pessoa maluca! Afinal, é isso que são os não pingadores de colírio de plantão.Siga o baile.
Esse manual de instruções pode causar efeitos nocivos à saúde, como depressão, transtorno de ansiedade e outras doenças psiquiátricas.
Seu uso à risca não garante a inexistência de alguns lapsos de consciência e solidão. O colírio resiste, mas não mata a sua natureza.

Seu uso à risca torna o seu usuário apenas mais um integrante da rede, um descartador e consequentemente um descartado, um substituidor e consequentemente um substituído.Há reclamações de usuários no sentido de se sentirem vítimas.
O mercado é claro. O colírio que vai, volta.Não tema efeitos diversos do pretendido se você tiver bastante dinheiro.
Primeiro, para todas as festas.Depois, para as terapias.
Excelente feriado a todos! Vamos programar o carnaval. Depois o próximo e o próximo e o próximo...


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Do ofício.

Reverbera, voz. 
Reverte a água parada. 
Há tanta espera além da encruzilhada. 

Vivencia. Sente. 
Há quem rogue pelo teu repente. 

Poesia-te! Segue a ode exclamativa. 
Há tanta surpresa a desabrochar a vida. 

Sobe.
Chega ao Monte Sinai.
Há brisa perene no mais alto dos cais.

Teça, antes que emudeças.
De nada valem linhas tenras na gaveta. 

Certeira, lança.
Acredita no embevecido. 
Teu paciente, por vezes, o enrijecido. 

Alça-te, além das divisas. 

Mata, ou tenta: 
a nossa fome. 
Colheradas repletas buscam tantos homens.


-


Ressuscita, som. 
Colcha de retalhos vastos. 
Segue o teu ofício, caro funcionário.  

Pulsos expostos. Olhares feridos. 
Verte o soro de orações. 
Líquen enternecido.

Torna a criar.  
Parar não é o caminho.

Há vida a cantar dos mais longínquos ninhos.

Atenta-te. Recupera os teus sentidos. 
Nada escreve o poeta de ouvidos já solvidos. 

Deixa absorver o Universo
a bendita da folha. 

Socorre as paisagens. 
Embrenha-te nas miudezas.
Trabalha os escombros das profundezas. 

Recolhe em ti todas as famílias. 
Resguarda o mero detalhe. 
A fisionomia, esmero do tênue entalhe.

-

Sorrisos descamados. 
Pólen espargido. 
Matéria-prima até nestes teus vazios. 

Silêncios sepulcrais. 
Desses, as entrelinhas. 
É tempo de fervilhar.
Evapora-te, o autor. 

Condensa-te. Precipita. 
Infiltra. Transpira. 
Cai sobre ti mesmo. 
Respingar é inexorável.




Uma poesia ao ofício. Uma poesia a todos aqueles que me fizeram crer que em mim há além de um dom de expressão. Em mim e em todos os poetas há uma função. 
A experiência de ver alguém emocionado com um texto que por nós foi escrito é prova viva de que precisamos continuar. Rememos. 




Vamos falar de Felicidade?

                                        Se estamos em busca da felicidade, por que nos vemos, por vezes, em relacionamentos falidos ou mes...