quarta-feira, 31 de maio de 2017

Do ofício.

Reverbera, voz. 
Reverte a água parada. 
Há tanta espera além da encruzilhada. 

Vivencia. Sente. 
Há quem rogue pelo teu repente. 

Poesia-te! Segue a ode exclamativa. 
Há tanta surpresa a desabrochar a vida. 

Sobe.
Chega ao Monte Sinai.
Há brisa perene no mais alto dos cais.

Teça, antes que emudeças.
De nada valem linhas tenras na gaveta. 

Certeira, lança.
Acredita no embevecido. 
Teu paciente, por vezes, o enrijecido. 

Alça-te, além das divisas. 

Mata, ou tenta: 
a nossa fome. 
Colheradas repletas buscam tantos homens.


-


Ressuscita, som. 
Colcha de retalhos vastos. 
Segue o teu ofício, caro funcionário.  

Pulsos expostos. Olhares feridos. 
Verte o soro de orações. 
Líquen enternecido.

Torna a criar.  
Parar não é o caminho.

Há vida a cantar dos mais longínquos ninhos.

Atenta-te. Recupera os teus sentidos. 
Nada escreve o poeta de ouvidos já solvidos. 

Deixa absorver o Universo
a bendita da folha. 

Socorre as paisagens. 
Embrenha-te nas miudezas.
Trabalha os escombros das profundezas. 

Recolhe em ti todas as famílias. 
Resguarda o mero detalhe. 
A fisionomia, esmero do tênue entalhe.

-

Sorrisos descamados. 
Pólen espargido. 
Matéria-prima até nestes teus vazios. 

Silêncios sepulcrais. 
Desses, as entrelinhas. 
É tempo de fervilhar.
Evapora-te, o autor. 

Condensa-te. Precipita. 
Infiltra. Transpira. 
Cai sobre ti mesmo. 
Respingar é inexorável.




Uma poesia ao ofício. Uma poesia a todos aqueles que me fizeram crer que em mim há além de um dom de expressão. Em mim e em todos os poetas há uma função. 
A experiência de ver alguém emocionado com um texto que por nós foi escrito é prova viva de que precisamos continuar. Rememos. 




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Brio brota


                                                                                    Foto: Nathália Reina 

Desabrocha botão.
Segue o caminho.
Desamarra caule.
Tu, há tanto tempo, emaranhado.

Desteme ainda que temas.
Tantas são as temáticas.
Persevera, pois fibra que rompe, prospera.

Vai.
O que seria de ti, planta sem sol?
Raios inspiram flores.
Flores, asas.
Bendito rouxinol.

Síntese solar, alimento.
O que seria de ti, pétala sem movimento?
Dança, sobe nos ares.
Correnteza faz parte dos mares.

Ruge, respira.
Há tanto som nas esquinas.
Dobra, olha longe.
Parada fica a presa que se esconde.

Sua, sente o salgar na ponta dos lábios.
Não é na sombra que se fazem os carvalhos.
Levanta, salta da cartola.
Passos que avançam, tijolos das escolas.

Aprende.
Torna-te sábio.
Botão que desabrocha é um sorriso nos lábios.
Pula.
Abre tuas asas.
Há mais fogo a nascer do que clamam as brasas.

Vence.
A ti mesmo.
Depois, para e olha o horizonte.
Recolhe o seu sentido.
Bebe o teu significado.
De plenitude, embriaga-se o botão enfim brotado.

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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dói

Dói, invariavelmente, todo peito sem anestesia
Diante da dor que silencia
Ou mesmo da dor anunciada

Dói toda empatia em demasia
Toda embarcação vazia
Toda vela retorcida

Dói cada passo no espinho
Sem retorno é o caminho
Das lições absorvidas

Dói cada palavra enrijecida
Quando a voz busca a escuta amiga
O tenro tom de um abraço

Dói a incompreensão, a fragilidade do laço.
Dói a solidão inesperada
A censura de um canto que transbordava
O risco em tela seca

Dói e a dor não é doença
Não é refúgio, desculpa ou sentença
Não é prisão da qual se fuja e se esqueça a estrada
Dói quando se pensa doer mais nada

Dói mesmo sem motivo aparente
Como pôr em palavras toda sorte de serpente?
Como explicar o inexprimível, toda lágrima inteligível?

Dói. Viver corrói.
Isso não é o fim do mundo
tampouco patologia, distúrbio das energias
Forças ocultas e diversas

Dói porque se tem um peito
E nesse peito um coração
Porque se tem ouvidos que escutam
Olhos que veem
Mente que reflete

Dói porque se está vivo.
Não doente.

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sábado, 11 de junho de 2016

CAVA, O POETA.

VERTIGINOSAS MÃOS AVERMELHADAS,
DURAS PASSAGENS ABERTAS
DEITA, O POETA MORTO DE FRIO
DA FOME QUE O DESERTA.

VERTIGINOSA FRONTE INDISCRETA,
SULCOS EM DESERÇÃO.
DEITA, O POETA VIVO DE PRESENTE
EM POEMAS PELO CHÃO.

VENTILADA ESCUTA,
BRAÇOS PERPÉTUOS.
DORME, O AMIGO VIOLENTADO
DE AUSÊNCIAS, TÃO REPLETO.

VERTIGINOSO OLHAR REPOUSADO
DO OUTRO LADO,
PÉTALA INEBRIADA.
DORME, O POETA DE OLHAR INSONE
E FÉ DILACERADA.

VISCERAL PASSAGEM.
ACORDES LEVAM O POETA.
E TODAS AS PALAVRAS POR DIZER
DESTA ALMA INQUIETA.

sábado, 4 de junho de 2016

Gentil, o pássaro que voa.

Gangorra, as horas.
Onde o ponto de equilíbrio?
Chegar perto ainda não é chegar.
Mas, é preciso ser gentil até consigo.

Punhado repleto de sementes.
Conta-se uma a uma.
São quinhentas.
Treze brotam.
Duas crescem.
Uma se transforma em árvore.
Recebe cinquenta ninhos.
Quinhentos pássaros.

Quantas sementes eram mesmo?

domingo, 1 de novembro de 2015

ArteSã



Constrói-se a palavra ou antes o sentimento? 
O verbo é arte: brisas e tormentos.

Luta-se contra a maré, para no oceano desbravar o profundo. 
Há sempre sombras. 

Mistério fecundo.

Constrói-se a alçada ou é a gestação do repente? 
Mesmo o improviso traz consigo a semente.

Nasce ao acaso ou seria esse o filho da esfinge? 
Basilar o dosar do que se guarda, do que se extingue.

Do ofício.

Reverbera, voz.  Reverte a água parada.  Há tanta espera além da encruzilhada.  Vivencia.  Sente.  Há quem rogue pelo teu repente.  P...