Fernanda Montenegro. Simone de Beauvoir. Sartre.
Sim, já fui esperando ver uma obra de arte. Só não imaginei qual seria a minha reação, espectadora nada passiva que sou.
Simone de Beauvoir, uma mulher que questionou valores em uma época tão distinta da minha. Alguns valores persistem intrínsecos no cerne social. Impressionante como suas palavras me deixaram um tanto desnorteada a respeito de alguns conceitos, considerando que não havia me limitado a nenhuma postura rígida. Falo a respeito do amor, do casamento, da afinidade.
Ou melhor, falo a respeito de algo muito maior e que parece abraçar ou se desvincular de qualquer outro pensamento e assunto: falo da liberdade.
“Viver sem tempos mortos” foi um dos slogans utilizados pelos estudantes franceses, em um contexto extremamente revelador e instigante, maio de 1968. Até para os mais conservadores deve ser difícil a tarefa de não se deixar envolver entre uma reflexão e outra.
Admito que meu conhecimento acerca da literatura de Simone de Beauvoir era um tanto escasso. Como poderia deixar para depois a atenção necessária a uma mulher que se fragmentou em mil estilhaços, para fazer do seu pensamento, algo íntegro o bastante para ir adiante?
Ela não acreditava no casamento. Não me cabe julgar. É certo que tenho algumas opiniões sobre o assunto, mas nada que me faça adotar a rígida postura contra ou a favor. Por mais genial que um argumento pareça, ele se torna um tanto restrito se for pautado única e exclusivamente na vida de terceiros. São muitas as histórias, tantas as implicações e subjetividades...
Eu também penso que seja restrita a posição de quem é contra ou a favor apenas a partir da análise da própria vida. Entretanto, as nossas experiências acabam nos fazendo crer no sucesso ou no fracasso de algo, muitas vezes, independentemente do conhecimento de relatos distintos. Perigosa é a verdade absoluta. Encanta-me a flexibilidade.
Tenho que admitir que um dos pensamentos de Simone de Beauvoir expostos nesse espetáculo que mais me levou a reflexão foi:
“Para mim, uma escolha nunca é final: está sempre sendo feita (...) O horror da escolha definitiva é que envolve não só o eu de hoje, mas também o de amanhã, razão pela qual fundamentalmente o casamento é imoral.”
A reflexão que faz acerca do casamento é muito mais subjetiva e rica do que a simples análise das experiências pessoais e de terceiros. Ela vai além e nos convida. É sedutora. Impressiona-me o efeito que causa. Difícil não se deixar levar. Mais difícil ainda a partir do momento que ela se faz entender pelos olhos e pela voz de Fernanda Montenegro. Mar de emoções.
Ela também considerava impressionante o fato de nunca poder ser o outro, de estar fadada a viver até o final, uma vida em um único corpo. Não contive a emoção no momento desse relato. Identifiquei-me tanto. Já havia tocado nesse assunto com algumas pessoas, mas ninguém partilhava da mesma angústia que eu. O que posso fazer se o que é normal e óbvio me angustia e surpreende?
“Não consigo me livrar dessa idéia de que sou sozinha, estou num mundo à parte, assistindo ao outro como a um espetáculo.” (Simone de Beauvoir)
Sinto como se naquele momento minhas reflexões fossem telas em constante envolvimento com cores distintas. Milhares de cores e de repente a emoção: um jato de tinta vermelha, ou um sangue talhado que pôs-se a escorrer.
Sartre era alguém que a fazia sentir que as razões pelas quais vivia eram admiráveis. Era alguém que partilhava da surpresa e angústia que nunca morrem, mesmo perante a vida superficial imposta pela sociedade. Como não se render a um amor que nasce do berço da afinidade crua?
“Percebi que mesmo se continuássemos falando até o dia do Juízo Final, eu ainda acharia que o tempo era curtíssimo.” (Simone de Beauvoir)
Só sei que meus olhos encheram de lágrimas, mas para mim eram jatos de sangue talhado na tela dos meus devaneios. Não houve como impedir que escorressem. Não houve como nem porquê.
“Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguém ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguém me conhece nem me ama completamente. Só tenho a mim.” (Simone de Beauvoir)
Amei.
Profundamente belo . Assim é o seu texto que eu esperava pacientemente. Vc não é e nem nunca será uma espectadora passiva da vida.
ResponderExcluirPara entender um pouco de Simone de Beauvoir e Sartre é preciso também compreender a época em que eles viveram. O mundo assistiu atônito a primeira e segunda guerra mundial, o holocausto, a Europa destruída. A Bomba atômica . Hiroshima e Nagasaki. O homem esmagado pela sua própria História . Muitos acontecimentos trágicos e situações-limites em pouco espaço de tempo. Neste contexto, Sartre, Beauvoir, Camus, e outros filósofos começaram focar temas como o absurdo , a existência, o humanismo corajoso, o engajamento, a responsabilidade do escritor diante da tirania. Escrever é um ato de resistência. Escrever é ação. É revolução. É mudança. É movimento. A literatura engajada, não romanceada, foi para Sartre , Camus , Beauvoir e outros uma prioridade no pós-guerra. O existencialismo ultrapassou fronteiras. O homem é totalmente responsável por aquilo que ele se torna. Sartre criava personagens repulsivos que chocava os conservadores e até mesmo os “moderados” .
Toda espécie de cinismo, hipocrisia social, opressão, subjugação, impostos pela sociedade e Instituições deviam ser combatidos. Neste contexto o casamento e a religião estão inseridos. Para eles a religião é limitativa e repleta de dogmas que aprisionam.
Independente de concordarmos ou não com os pensamentos de Sartre e Beauvoir , eles deixaram contribuições valiosas para a filosofia, principalmente em uma sociedade que atualmente é tão carente de grandes pensadores.
Eu me pergunto, o motivo pelo qual o pós-modernismo não nos tem oferecido grandes pensadores, literatos e filósofos. Volto ao século XIX e chego ao Século XX, ambos recentes em termos históricos, e encontro Einstein, Freud, Darwin, John Lewis, Bérgson, Marx, Engels, Dostoiévsky, Tolstói , Victor Hugo, Flaubert, Sthendal, Kafka, Brecht , Nietzsche, Kierkegaard, Beauvoir, Sartre, Camus, Foucalt, entrre outros. Tivemos no século XXI grandes perdas como Baudrillard e Taylor. Mas e agora? Onde estão os grandes pensadores capazes de mudar as estruturas sociais tão degeneradas e corrompidas?
Hoje podemos ter uma “vida” conectada e “on line”, onde as informações podem ganhar o mundo em questões de segundo. Mas esta tecnologia se por um lado ajuda denunciar atos de violência em qualquer parte do planeta em poucos segundos, também fragiliza as relações pessoais.
O conceito de amizade de Aristóteles (Ética a Nicômaco) tão estudado , aprofundado e seguido pelo grandes filósofos e professores de filosofia dos mestrados e doutorados se banalizou. Quase todos que ficam atrás de uma tela de computador se tornam amigos mesmo sem saberem quem são. O sucesso pessoal medido pelas realizações, agora é medido pelo número de “seguidores em twitter, blogs, Orkut , sites , etc”. O desejo e erotismo que integravam o mistério da paixão , hoje é devassado em Blogs e sites , e nem assim o século XXI, com seus avanços tecnológicos e com suas "pseudos –liberdades" , eis que o conceito de liberdade é tão superficial que sequer chega perto do que Sartre, Beauvoir ou Camus sustentavam, conseguem nos dar grandes pensadores.
Como diz uma amiga minha, vivemos a era do “pensamento suspenso” ou como diz Boaventura de Souza Santos delegamos para poucos a tarefa de pensar em nosso lugar. Portanto, viva Beauvoir que em estilhaços manteve integro seu pensamento que ultrapassou fronteiras.
Com profunda admiração,orgulho e amor,
Beijos,
Cláudia
Nathália,
ResponderExcluirSartre, Camus, Beauvoir gostavam muito de se reunir em dois locais que você conhece : Café Du Flore e Café Des Deux Magots . Talvez agora você possa compreender o motivo pelo qual eu gosto tanto de ficar no pequeno hotel em que nos hospedamos localizado em frente aos dois cafés. Eu consigo sentir nostalgia e saudade de um tempo em que eu não vivi. è incrivel como podemos sentir uma espécie nostalgia de algo que não vivenciamos. Abro a janela do quarto e posso ver onde Sartre, Beauvoir e Camus passavam horas e horas discutindo, escrevendo, trocando idéias. Antes de Sartre e Camus romperem um amizade de quase 10 anos freqüentemente eles se encontravam para tomar café da manhã no Des Deuxs Magots. Lembra? Foi aquele café em que nós duas fomos procurar Crème brûlée quase meia-noite . Essas maravilhas só mesmo em Paris! bjs Cláudia
Corrigindo o primeiro texto "são devassados em blogs e sites" bj
ResponderExcluirPS. Mande o texto para sua avó , pois ela é uma conservadora que durante décadas estudou profundamente as obras de Sartre, Camus e Beauvoir. Basta olhar a última prateleira da estante dos livros dela. Será que a paixão literária é genética??????
Nathy, adorei o texto...conheço pouco dessas obras literárias e pelo que li, vi q estou perdendo muito. Concordo com sua mãe quanto à compreender que a epoca das obras nos ajuda a entender a mentalidade desses escritores.Uma epoca muito diferente da que vivemos hoje! Beijos amiga
ResponderExcluirRealmente amiga, a cada dia me surpreendo mais com a sua sensibilidade para a arte... sinto uma admiração sem igual! talvez pelo fato de conseguirmos compartilhar o encanto que é a arte.
ResponderExcluirPor tudo isso, é que você merece pertencê-la!!!
Beijos
Gostaria tanto de ver os seus olhos durante essa peça. (mais do que a própria peça!)
ResponderExcluirRealmente profunda tanto a peça em si, quanto sua reflexão. Essa sempre muito bem apoiada em todo seu conhecimento, e em sua ímpar sensibilidade. Eu que tive o prazer de estar nesse momento, apreciei e contemplei sua emoção frente a essa mulher, que num primeiro momento nos parece já tão distante, mas que aos poucos revela-se tão viva e latente,quando em suas análises colide brilhantemente com nosso cotidiano. Realmente instigante e singular, a verdade nua e crua, factual, e ainda assim passível de ser questionada. Somado a isso, a atuação da Fernanda, um deleite à parte. Sendo assim, só tenho a te agradecer por me permitir compartilhar esse momento, agora coroado com esse pensamento. Bravo!
ResponderExcluirBeijos, Nícollas.
Acredito que a epoca que ela viveu nao foi das melhores por isso esse julgamento um tanto egoista por parte dela.
ResponderExcluirPenso que ela deve ter passado por experiencias bem traumaticas. Acredito no casamento e ponto.
Gostei muito desse pensamento “Para mim, uma escolha nunca é final: está sempre sendo feita (...) O horror da escolha definitiva é que envolve não só o eu de hoje, mas também o de amanhã.
Claro que sem estar associado ao casamento. A palavra Final é um tanto desnecessaria em certas ocasioes é obvio,pois a certas coisas que nao merecem Fim. Como um casamento cheio de amor e paixão, uma amizade verdadeira.
Com esse pensamento: Sou muito inteligente, muito exigente e muito engenhosa para alguém ser capaz de se encarregar completamente de mim. Ninguém me conhece nem me ama completamente. Só tenho a mim.” . Ela define a sua personalidade forte e pouco maleável, deixando evidente o seu medo de confiar nas pessoas e de se arriscar.
Bom, essa é minha opinião nao conseguiria viver sem poder confiar , arriscar, e depender exclusivamente de min, pois acredito que todos precisam de uma ajuda , suporte para viver e construir um futuro onde não existe FIM e sim novos começos.
Beijosss NaT !!!! Gostei muito...=)))
Nathália,
ResponderExcluirÉ impressionante como me sinto boba e distraída diante da sua percepçao tao apurada e sensivel das ideias passadas na peça.
"Perigosa é a verdade absoluta. Encanta-me a flexibilidade."
Amiga, embora soe paradoxal eu dizer que vc foi absolutamente genial ao escrever esse trecho, ja que vc ao escrevê-lo deprecia as verdades impulsivas e absolutas, ouso dizer sim isso. voce foi muito feliz ao escreve-lo por que é maravilhoso enxergar opnioes diversas das nossas sempre, compreender o outro, desvincularmos do nosso pensamento muitas vezes rigido em alguns assuntos e temas para ter a paciencia , flexibilidade e inteligencia para entender os motivos do outro ou até seu erro(mas tentar ver como ele).
"Tenho que admitir que um dos pensamentos de Simone de Beauvoir expostos nesse espetáculo que mais me levou a reflexão foi:
“Para mim, uma escolha nunca é final: está sempre sendo feita (...) O horror da escolha definitiva é que envolve não só o eu de hoje, mas também o de amanhã, razão pela qual fundamentalmente o casamento é imoral.”
Eu me lembro dessa parte da peça muito bem. me encantei ao ouví-la. Interessantíssima. Adorei passar a adotar esse pensamento instigante.
Admirei também sua reflexao sobre ser o outro . ja pensei nisso umas vezes. Acho que só nos resta procurarmos em nós aquilo que também tem nos outros, vermos o que temos em comum e ficarmos felizes em saber que em milhares de aspectos nao estamos sós, outros também sentem-se assim...
Adorei o comentário da sua mae.Uma excelente aula de historia e filosofia .
Enfim, parabéns por escrever tao bem, por ser tao interessada pela vida, por filosofia, arte e por tudo que te desafia e nos leva a raciocinar!
Você é tao rara amiga! Meu tesourinho ! ahhaha beijoss
Carol. (desculpa pelo comentario muito grande! me empolguei! hahaha)
Nossa! Escrevi correndo (como sempre) e o texto saiu todo errado, envio corigido:
ResponderExcluirCarol e Nathália,
Carol, obrigada!
Eu que fico muito emocionada (vcs não sabem quanto!)em ler as opiniões de vocês tão jovens e tão perceptivos, integros, éticos, reflexivos e humanos ...
Aproveito para dizer que hoje ao sair pela manhã , Nathália deixou-me uma revista (Filosofia, Ciência e Vida)que traz um artigo sobre as correntes de pensamento que modificam a realidade social de Marco Antônio Lopes, professor da USP e pesquisador do CNPq. Excelente. Ele cita pensadores e correntes influentes da História, bem como o atual silêncio dos intelectuais (ao mesnos os intelectuais brasileiros) que já gerou conferências e obras como , por exemplo, "O Silêncio dos Intelectuais"-Cia das Letras. È muito importante discutir o papel dos pensadores na atualidade, pois apesar de ainda termos bons escritores, juristas, etc, não somos capazes de formar um forte movimento intelectual que possa ´realmente modificar nossa atual realidade social tão corrompida ou mesmo abalar as estruturas . beijos Cláudia
23 de Outubro de 2009 11:59
Realmente, Simone de Beauvoir é uma das pessoa que são dificeis de serem comentadas. Ela é um belíssimo exemplo do que não podemos questionar ou criticar algo apenas tomando nossas vidas como base. Todos nós tivemos diferentes experiencias que nos tranformaram no que somos hoje. E o mais importante é que teremos inúmeras experiencias que podem vir a nos mudar completamente. Acho, a principio, que esse julgamento feito por ela em relação ao casamento um tanto... Cínico.
ResponderExcluir“Para mim, uma escolha nunca é final: está sempre sendo feita (...) O horror da escolha definitiva é que envolve não só o eu de hoje, mas também o de amanhã, razão pela qual fundamentalmente o casamento é imoral.”
E se essa sua "nova" pessoa for a favor do casamento? não precisamos experimentar para saber se gostamos ou não? Como podemos ter um pré-conceito de algo que nunca vivenciamos e negamos a nós mesmos sem nem mesmo termos experiemntado algo parecido? Claro que devemos levar em consideração a época em que viveu. Mas terá pensando ela que o mundo mudaria e com ele, os seus conceitos? Terá pensando que o casamento peria vir a mudar? ou ela estava presa a uma idéia fixa sobre casamento? Por isso acho dificil comenta-la. Ela viveu em uma sociedade muito diferente da nossa. Como mulher, ela estava presa a uma realidade, mas estava disposta a muda-la. Mas mudando essa realidade, não teriamos a previsão de que as coisas, tais como casamento, casa e familía, não mudariam juntas? Afinal, são três coisas que estão entrelassadas e presas a um conceito mulher-objeto. Quando Simone, que lutou pelos direitos femininos, questionou o casamento acho que ela estava certa, mas foi limitada. Não poderia ela, como uma mulher fora de seu tempo, propor um casamento digno de Simone de Beauvoir?
Nat, tentei me expressar na melhor maneira, acho que cheguei ao ponto que queria. Fico feliz que consiga tranpor essa sua sensibilidade para dentro do mundo das palavras.
Bjao!
Correção: "cafe de flore"
ResponderExcluir