terça-feira, 31 de agosto de 2010

Liberdade no século XXI? Hipocrisia.



Julgar. Por que julgamos? Por que julgamos o tempo todo? Por que nos julgamos por tantas vezes? Por que julgamos os outros?

A vida é o palco dos erros e acertos onde estamos para descobrir que uma fantasia nos veste melhor do que outra e que um cenário tem uma iluminação que nos faz sentir mais a vontade do que outra... A vida é o palco dos erros e acertos e nos julgamos a todo o tempo. Julgamos a nós próprios e os outros. E a maior síndrome de todas é a forma como julgamos os outros e sentimos extrema necessidade de não sermos julgados.

Eu vi uma moça que dançava de um jeito que achei engraçado. Ela dançava sozinha no meio de todos e num ritmo totalmente diferente da música que tocava, como se estivesse drogada. Eu achei engraçado porque eu a julguei. E a sua droga poderia ser simplesmente um estado de espírito invejável. A sua droga poderia ser simplesmente a despreocupação com a regra que dita a forma de dançar para cada ambiente e situação.
Ela estava de olhos fechados e se soltava no ar como um pássaro. Ela atraía a atenção para si. E eu me pergunto: Por quê?

Por que as pessoas estavam de algum modo perplexas com ela se o que mais necessitavam na vida era da despreocupação? Será que os olhares perplexos e as risadas maldosas eram uma expressão inconsciente da inveja delas? Quantos erros dignos de vergonha elas acabaram cometendo na vida sem que se sentissem envergonhadas? E por que a moça deveria sentir vergonha dos seus passos de dança?
(de inocentes passos de dança...)


Se a moça fosse uma criança ela não seria julgada...mas como já tinha altura e corpo de mulher ela o era.
Por que crescer faz com que diminuamos tanto a nossa liberdade?
Que crescimento é esse? Por que uma criança pode e nós não podemos?
Que tipo de convenção estabelece o que é ridículo para cada faixa etária?.


Outra coisa que julgamos muito são as pessoas que se bastam. Se uma mulher vai a um bar sozinha para beber é julgada. Uma pessoa indo a uma boate sozinha é digna de estranhamento. "No mínimo ela está buscando companhia" pensa a maioria. E eu me pergunto: Por quê? Por que a pessoa não tem o direito de sentir vontade de dançar em um lugar sozinha? Por que as pessoas acham esquisito quem se diverte sozinho? Por que é esquisito quem se basta?
Por que uma pessoa que está com muita vontade de sair para dançar tem que ficar em casa quando seus amigos tem outros compromissos?


Por que ela não pode simplesmente se satisfazer com a própria companhia sem ser julgada? A pessoa deveria ser vista com admiração não com estranhamento.
A pessoa deve ser a sua melhor companhia e não deve se sentir mal justamente por ser bem resolvida e se sentir bem-vinda por si mesma.


Meu Deus! Ela não está com um criminoso, com um pervertido...ela está em companhia de si mesma...daquela que a conhece melhor...daquela que está sempre ali quando ela está triste e feliz...daquela que sabe de todas as suas decepções...de todas as suas falhas...de todas as suas surpresas e alegrias...de todas as suas impressões e lembranças...de todas as suas maluquices e peripécias...de todos os seus hábitos e segredos...de todas as suas peculiaridades...
ela está na companhia daquela que é de fato a sua maior companheira...
que não a deixa um segundo sozinha... e ela ainda sente vergonha dessa companhia? A que ponto chegamos?
Sentir vergonha por ter como única companhia a própria companhia?.
Vergonha de nós próprios? Essa é a maior contradição de todas.
A pessoa pode conquistar diversos objetivos na vida mas não serve a si mesma para sair para dançar.


Que pessoa é essa? Uma pessoa que não se sente a vontade consigo própria é uma estranha para si mesma.
Deixemos de julgar as pessoas e passemos a amá-las.
É disso que o mundo precisa.


Por julgarmos as religiões alheias que ocorreram e ocorrem as guerras. Por julgarmos as etnias alheias que ocorreram e ocorrem guerras. Por julgarmos os gostos alheios que ocorreram e ocorrem guerras.

Por julgarmos uma pessoa que sai sozinha para dançar que continuamos tão dependentes dos outros e cada vez mais mergulhados em uma superficialidade que não nos permite nos conhecermos de fato e nos curarmos de traumas e decepções. Ninguém nesse mundo pode ser a companhia mais agradável do que a nossa própria. E se ter apenas a própria companhia é motivo de constragimento deve-se perguntar o porquê. Será que precisamos de pelo menos mais uma pessoa ao nosso lado para nos permitirmos dançar do jeito que queremos... para que não nos achemos estranhos? E por que essa necessidade de se sentir aceito?
Por que a necessidade de ter mais alguém para se fazer aquilo que já se está com vontade de fazer?


Somos mesmo estranhos uns aos outros. Somos mesmo diferentes. Cada um com sua voz, sua gestualidade, sua forma de andar, sua forma de falar, seus olhos, suas deficiências, seu cheiro, sua beleza, sua cor, sua religião, sua inclinação sexual, política, filosófica...

Não queiramos ser iguais. O fato de ter uma pessoa fazendo o mesmo que nós não nos torna menos ridículos.
O fato de nos sentirmos ridículos por estarmos sozinhos nos torna ridículos.
E devemos pensar: o que é ridículo de fato? O que é digno de se sentir vergonha? O que deveríamos apontar no mundo ao invés de pessoas que saem para dançar sozinhas e dão um show que nem ao menos percebem já que estão em uma sintonia tão profunda consigo mesmas?

Sejamos livres! Evitemos a pobreza de espírito! Evitemos as guerras!
Evitemos também a solidão...já que o caminho mais adequado para a solidão é a capacidade que temos para julgar as pessoas ao invés de as deixarmos em paz com o seu direito de expressão e individualidade...

A atitude mais digna que se pode ter com o próximo é o respeito à sua individualidade.
Só assim existe o amor verdadeiro...a amizade verdadeira...só quando paramos de querer encaixar as pessoas num molde e passamos a aceitá-las da forma que elas são...dançando de forma calma ou dando rodopios por aí...

Amemos as pessoas e admiremos as pessoas que são livres!
As pessoas que são livres ao ponto de se bastarem na própria companhia são as pessoas que mais valorizam a companhia das outras...já que realmente saem com aquelas que elas gostam de verdade, considerando que se relacionam por prazer e não por necessidade.


Se são muito felizes sozinhas e resolvem sair com uma pessoa e dividir com ela momentos de sua vida significa que realmente gostam daquela pessoa, já que ela não é necessária para que se sintam a vontade...ela é necessária porque as fazem sentir uma emoção diferente, porque as inspiram pela sua forma de ser. Ela é necessária de verdade. Ela é amada de verdade.

As pessoas livres amam de verdade e a todo o tempo se tenta retirar a liberdade dessas pessoas com comentários infelizes e olhares de reprovação...
Palavras e olhares de reprovação muitas vezes aprisionam mais do que jaulas e armamentos.


Sejamos a mudança que queremos no mundo. Se queremos a paz devemos respeitar a pessoa e tudo aquilo que a pessoa se sente a vontade. Por que querer que a pessoa deixe de se sentir a vontade com algo? Por que querer moldá-la à nossa visão? Somos os causadores das guerras.

A cada momento que tentamos moldar uma pessoa que é livre estamos construindo a guerra, porque a guerra nada mais é do que isso: uma tentativa de fazer determinadas pessoas abandonarem ideologias e atitudes próprias que são boas para elas em suas concepções.


Lutemos pela paz!
Comecemos pelas nossas relações!.




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

"A boba".

Querida Anita Malfatti,

Espero que esteja conseguindo se expressar nessa dimensão que está. Lembro de um trecho que escreveu em uma carta dirigida a Mário de Andrade que dizia: "(...) até se fosse perfeita só acharia sossego no Céu e para lá não quero ir por enquanto...está tão bom aqui." Penso portanto, que esteja bem. Desejo que esteja e te digo que há razões para que esteja. As suas obras inspiram sensações, desejos e pensamentos antes ocultos...que dão a chance a pessoas como eu, que estão por aqui por enquanto, de fazerem da existência algo especial o bastante para buscar promover mudanças positivas dentro de si e pelo mundo.

Anita, penso que não devemos olhar uma obra de arte. Devemos senti-la. Não pura e simplesmente pelo respeito ao seu autor, mas também pelo respeito a nós próprios. Respeitar o nosso eu interior significa nos permitirmos sentir até as últimas consequências, até as últimas gotas de sangue que bombeiam as mais puras emoções.
Não fique triste querida, com aqueles que só possuem a capacidade de olhar as suas obras. Isso é só um exemplo de que essas pessoas só conseguem olhar para diversas fontes de graça e redenção sem sentir. A forma que olham as suas obras e que julgam as suas pinceladas é um mero exemplo do estilo de vida que levam. As obras de arte não têm a obrigação de nos gerar emoções, como o mar não tem a obrigação de nos fazer senti-lo. Acontece que necessitamos mergulhar em ambos para que possamos sentir. E o mergulho é uma decisão. É o permitir-se.

Anita, penso também que deva achar graça de pessoas que te vangloriam sem ao menos ter sensibilidade. Pessoas que te vangloriam para mostrar aos outros que conhecem bem a sua arte e o seu talento, sem que ao menos tenham permitido a si próprios conhecê-los de fato. Pessoas que defendem seu talento por pensarem que dá status social defender argumentos ao seu favor. Como se o seu talento fosse discutível...Como se fosse discutível a inspiração...Como se o desejo latente de pintar de uma determinada forma fosse discutível... Há pessoas que pensam que conhecer um artista signifca sê-lo. Quantas questões não reveladas havia nos olhos que pintou?

Duas moças passaram por mim na sua exposição e escutei uma delas dizendo a outra: "Ela não era bem resolvida." Quem pode dizer se uma pessoa é bem resolvida ou não? Muitas vezes nem a própria pessoa tem a capacidade de dizê-lo. Como o fazer não é a questão. Por que o fazer?
Os seres mais bem resolvidos são aqueles que não olham como deveriam os fatos sociais que o mundo coleciona. Aqueles que veêm sempre encontram questões a resolver. Pobres moças ingênuas com uma pretensão que chega a ser engraçada.

Querida, o que mais me tocou foram os olhos que pintou ao longo da sua vida. Olhos que guardam mistérios profundos. Olhos que passam uma sensação de que não há palavras que os descrevam. Olhos que são espelhos da alma...

Com espanto e admiração,

Nathália


Exposição das obras de Anita Malfatti no CCBB. Não percam!

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...