Querida Anita Malfatti,
Espero que esteja conseguindo se expressar nessa dimensão que está. Lembro de um trecho que escreveu em uma carta dirigida a Mário de Andrade que dizia: "(...) até se fosse perfeita só acharia sossego no Céu e para lá não quero ir por enquanto...está tão bom aqui." Penso portanto, que esteja bem. Desejo que esteja e te digo que há razões para que esteja. As suas obras inspiram sensações, desejos e pensamentos antes ocultos...que dão a chance a pessoas como eu, que estão por aqui por enquanto, de fazerem da existência algo especial o bastante para buscar promover mudanças positivas dentro de si e pelo mundo.
Anita, penso que não devemos olhar uma obra de arte. Devemos senti-la. Não pura e simplesmente pelo respeito ao seu autor, mas também pelo respeito a nós próprios. Respeitar o nosso eu interior significa nos permitirmos sentir até as últimas consequências, até as últimas gotas de sangue que bombeiam as mais puras emoções.
Não fique triste querida, com aqueles que só possuem a capacidade de olhar as suas obras. Isso é só um exemplo de que essas pessoas só conseguem olhar para diversas fontes de graça e redenção sem sentir. A forma que olham as suas obras e que julgam as suas pinceladas é um mero exemplo do estilo de vida que levam. As obras de arte não têm a obrigação de nos gerar emoções, como o mar não tem a obrigação de nos fazer senti-lo. Acontece que necessitamos mergulhar em ambos para que possamos sentir. E o mergulho é uma decisão. É o permitir-se.
Anita, penso também que deva achar graça de pessoas que te vangloriam sem ao menos ter sensibilidade. Pessoas que te vangloriam para mostrar aos outros que conhecem bem a sua arte e o seu talento, sem que ao menos tenham permitido a si próprios conhecê-los de fato. Pessoas que defendem seu talento por pensarem que dá status social defender argumentos ao seu favor. Como se o seu talento fosse discutível...Como se fosse discutível a inspiração...Como se o desejo latente de pintar de uma determinada forma fosse discutível... Há pessoas que pensam que conhecer um artista signifca sê-lo. Quantas questões não reveladas havia nos olhos que pintou?
Duas moças passaram por mim na sua exposição e escutei uma delas dizendo a outra: "Ela não era bem resolvida." Quem pode dizer se uma pessoa é bem resolvida ou não? Muitas vezes nem a própria pessoa tem a capacidade de dizê-lo. Como o fazer não é a questão. Por que o fazer?
Os seres mais bem resolvidos são aqueles que não olham como deveriam os fatos sociais que o mundo coleciona. Aqueles que veêm sempre encontram questões a resolver. Pobres moças ingênuas com uma pretensão que chega a ser engraçada.
Querida, o que mais me tocou foram os olhos que pintou ao longo da sua vida. Olhos que guardam mistérios profundos. Olhos que passam uma sensação de que não há palavras que os descrevam. Olhos que são espelhos da alma...
Com espanto e admiração,
Nathália
Exposição das obras de Anita Malfatti no CCBB. Não percam!
Nathi, ao ver essa exposição também me senti profundamente tocada. Em alguns momentos nós conversamos e percebi que o motivo de maior espanto e admiração de ambas foi a capacidade com a qual Anita Malfatti retratou os olhares. Refletindo melhor sobre todo aquele mar de emoção que ela expressa em cada olhar penso que em todos, inconscientemente, esta o pouco do seu próprio olhar, como em cada personagem representado, algo do ator esta na essência de sua criação. Creio que Anita usou os olhos de suas obras para de alguma forma gritar ao mundo o seu estado de espírito, a sua alma.
ResponderExcluirAmei a ousadia e a naturalidade com a qual escreveu essa carta, cada vez admiro mais seu estilo de abordar assuntos interessantíssimos.
Te amo, beijos