terça-feira, 30 de outubro de 2012

De repente! Não "Mais que de repente!"


E como num passe de mágicas... uma elucidação que aparentemente nada tinha a ver com com a tal situação complexa, séria e adulta que se vivia...

A tal elucidação repentina, incrível e salvadora que ocorria...

De repente: o amor às crianças. 

Como? O quê? De onde? Por quê?

Ah… A simples e tão bela descoberta de que todo o fascínio não advém da inocência das crianças,
(não dessa inocência que é desprovida de quaisquer sinais humanos, vulgo "maldades", ainda que pequeninas, ainda que inocentemente chamadas de implicâncias), pois essa não existe e caso disso meu fascínio se originasse, não seria coisa alguma além de mera idealização.

Meu fascínio também não reside na fofura com que falam, com que andam, com que gesticulam.

Tampouco na maneira como nos idolatram quando nos permitimos entrar um pouco que seja em seus mundos encantadores e por tantas vezes, impenetráveis!

Também não reside em ter, por meio delas, a chance de ser uma mentora.
Nem na possibilidade de esquecer os adultos.

O fascínio puro, realmente genuíno, magnífico…! E inundado de esplendor…
…Resplandece de outra nascente: a da suposta inconsequência!

Pois, como um rio que lava quaisquer poeiras grudadas aos olhos, veio-me a seguinte imagem:
a da criança que anda.

Uma criança que aprende a andar, cai.

Ela cai, chora. Logo, levanta. Cai. Chora. Levanta. Ri. Cai. Não chora. Ri. Levanta. Olha. Fala. Ri. Chora. Cai. Ri. Levanta. Anda. Anda. Anda...(cai) Levanta. Anda... Anda...Anda... (cai, chora, levanta) Corre! Corre... (cai, chora, levanta)
...Voa!

A criança cai, mas não espera cessar  por completo a sua dor para que enfim levante novamente a fim de tentar o passo seguinte.
Se espera, não anda. Fica pra trás.
Vira o futuro exímio teórico!
Pra tudo uma resposta, uma saída coerente, de acordo com os hábitos e costumes, de acordo com a terra firme que não machuca, que sequer coça!
Tudo no esquema da suposta sabedoria.

Se dotada de medo paralisador  (ou como preferem alguns adultos chamar: “sensato resguardo”)
de um próximo tombo, fica sentada.
Do seu cantinho, é capaz de ver as outras crianças caindo.
Ela vê o porquê caem e o porquê não caem.
Ela se lembra do seu tropeço e ali, sentada, já sabe o porquê tropeçou.
Olha as outras crianças. Vê o mesmo erro nelas, nessas que caem.


E respira... Aliviada! Toda repleta de teorias salvadoras!
Mas enquanto isso... ela está sentada... nutrida pela própria ilusão de que é sábia. 
Mas que espécie de alegria genuína resplandece dessa sabedoria, senão a própria chatice de alguém que só sabe?
E quanto mais teórica se torna... menos vida se explora!
Ah! O tal rascunho só aos textos colabora!

E pra não me tornar eu própria repleta de teorias, dou logo ao texto o fim que se enuncia!
De repente! Não "Mais que de repente…"

Pois se muita teoria invade, muita vida que se distancia...

E de repente, velha, amarga...

E fria...?

Cruzes!
Que vantagem nessa tal sabedoria?!



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Por entre os dedos.



E não importava a qual mágoa o seu peito se destinasse, logo o cantar de algum acontecimento incitava-lhe o riso.
A não ser que fosse mesmo tristeza profunda, dessas que pouco se sabe, 
que pouco se fala.
E ela deixava calar. Supria-se da paz da brisa.
Enchia-se duma verdadeira condição de ser. E era.
Em cada só detalhe, sua totalidade imensurável.

E por vezes falar demais, os que nada sabiam, pensavam tudo saber...
Conhecê-la por inteiro, adivinhar cada só sorriso...
E deixavam escapar os tais doces silêncios, esses tão embriagados duma arte de contemplar o mundo que se vive, que se cria, que se preenche.

E era ela ali em cada folha retorcida. Era ela ali nas folhas caídas. 
Nas que não caiam ao mais forte soprar do vento!
Era ela ali.
Era ela em cada onda que se destinava, que se regava, que se permitia o relance.
E em muito se encontrava, e em nada se resumia.

Conjunto inesgotável de fatores. De sensações das mais novatas. 
De pensamentos sem palavras. 

E no mesmo porto que guardava as tristezas do saber o mundo, 
encontrava-se também o barco de suas ilusões certeiras. 
Nunca adulta por demais. Na alma, a criança inteira. 

Via-se no suor dos músicos embriagados.
No olhar certeiro dos concentrados.
Na sombra dos loucos poetas doces, líricos mundos calejados...

Sentia-se na carne dos oprimidos.
No olhar dos não vencidos. Na fome da sentinela. 

E era sempre dum querer mais que não se cessava.
Como onda que não se alcança.
Como vento a despir-se nela...

E por mais ardor que se sentisse, era tão somente dela...
Não havendo o que furtasse suas tais vastas janelas...

E sabia acreditar nas flores que riam!
Nos bosques que estavam.
No cais dos que se sabiam...

E sabia brincar de contos. De ilustres pontos! 
De sons sem mais.

E pescava o que não se via, duma sombra viva, duns doces sais...

E por saber tanto, tanto...  E amiúde!
...tão pouco do saber se valia.
Era antes onda que inunda.
Paz que se sente.
Alma que espia.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Um conto.


Sentia-se sufocado. Era mesmo de atormentar a escassez de ar no local puído.
Seus olhos pinicavam, como se areia ali repousasse.
Entretanto, à areia era suficiente o mar que a recebia.
Nem mesmo a areia desejava os sais dos seus olhos.
Eram olhos ressecados, de quem muito já chorou lágrimas de outrora.
Olhos cansados, descrentes. Talvez dotados de auto-piedade alimentada.
O homem empenhava tamanho esforço para inspirar o pouco ar que restava.
E lembrava-se claramente de seu paciente.
Sabia de sua doença, dos sintomas, das consequências.
Mas saber não era suficiente. Não mais.
O homem que ali repousava suas memórias tristes, necessitava se certificar de que sua dor era ou não a mesma daquele que há tantos anos prestava socorro.
A falta de ar atingia seus órgãos como talvez atingisse a alma do enfermo, que de câncer na garganta retorcia os olhos.
Ah! Não poderia ser mesma dor...
O Doutor, tão safo, tão bom, tão exato, agora chorava dores de alma.
Em si, a dor fugia das estatísticas.
Não fosse trágico, cômico seria...
Aquele Doutor imponente, cheio de certezas e probabilidades...
Cheio de números, de quantidades...
Aquele Doutor poderia jurar por todos os dias que ainda restassem: ele poderia jurar que tamanha dor só por ele era sentida.
Aos seus pacientes, ainda menos compaixão. Sentia agora a inveja doentia.
Ah... Porque o homem poderia jurar que dor física era melhor de se suportar...
O homem já adulto, mas adolescente eterno.
Não pensava que uma dor levava a outra. Não queria pensar.
Era desses egoístas.
E ao não se compadecer da dor do outro, a sua, maior ainda ia ficando...
Lá fora, o vento dançava nas folhas, nessas folhas das árvores que ninguém mais vê, que ninguém mais nota...
Lá fora, crianças passavam sorrindo... de sininhos, de abelhinhas, de heroínas...
Lá fora, um velho dormia na rua. Um velho que já teve casa. Que já soube da dignidade de pagar suas contas.
Lá fora, uma mulher passava...
Aquela mulher que ele jurava só existir em sonhos.
Ela passava lá fora. Num passo leve, certeiro e radiante!
Mas o homem insistia em ficar lá dentro.
Lá no seu casulo escolhido. Escondido. Esfumaçado.
E a mulher se ia toda...
E as crianças cresciam...
E o velho adoecia...E morria, pois faltava médicos que o atendessem.
E outros e outros viravam os seguidores do Doutor...
Outros que nem o conheciam. Que nunca o viram.
Outros e outros numa tristeza cuja manutenção nasce e floresce de um egoísmo doente.
Mas não se tratavam de seguidores que davam as mãos...
Cada um no seu casulo.
Na sua falta de ar.
Cada um na sua poltrona, de costas pro mar...

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...