quinta-feira, 31 de maio de 2012

Convite Solene! =D



Aproveitando o espaço desse blog, faço um convite a todos para que compareçam na Faculdade Nacional de Direito - UFRJ, onde está ocorrendo a nossa segunda semana cultural cujo tema é o Nordeste!!!

Abaixo segue a programação de hoje e de amanhã!!

Aproveito para divulgar também, O Itinerário da Fé, a exposição de telas de minha autoria disposta no Salão dos Passos Perdidos.



QUINTA (31/05)

11:00 CineCACO: 'Narradores de Javé'- 1h25min (Diretora: Eliane Caffé)

18:30 CineCACO: 'Cinema, aspirinas e urubus' - 1h44min (Diretor: Marcelo Gomes)



SEXTA (01/06)

11:00 CineCACO: 'Céu de Suely'- 1h28min (Diretor: Karim Aïnouz)

15:00-16:30 CineCACO Capitães de Areia - 1h38min (Diretora: Cecília Amado)

16:30-18:30 Palestra sobre o filme exibido no CineCACO [Diogo Lyra e Cecília Amado]

18:30 Órfãos temático - Festa junina [Largo do CACO]


Faculdade Nacional de Direito - Rua Moncorvo Filho, 8 Centro.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Complicar pra quê?



Um dia, ela ouviu de um homem: não estou escutando suas filosofias porque estou com sono.
Ela respondeu dizendo que não havia problemas. Que as pessoas vivem dormindo.
Ele, percebendo ou não a ironia, fez o que deveria ser feito: dormiu.

O homem frio. 




Será? 
Seria?
Sono. 
Há como lutar contra o sono?
Há como prestar atenção num assunto que o próprio corpo renega após um looongo dia cansativo?
Não é a moral dos bons modos falando. 
É o próprio corpo.
Ele quer que o homem repouse as pálpebras. Quer a trégua.


                                                Ah! Universo perdido o das palavras!!!... 
                                                Por que agora?...




E ela... que por uns instantes sentiu a frieza (não a do homem, mas a da realidade) gelar seus poros...
E ela?
Ela estava mesmo falando com o homem?
Depois de pensar por uns instantes, percebeu que ela estava falando ao mesmo tempo que pensava.
Por força das circunstâncias. Pensava e falava. Pensava e falava. 
Estava somente pensando em voz alta. Esclarecendo-se.
Egoísmo o dela se quisesse manter o homem acordado! 




Feliz com sua conclusão confortante, ela dormiu também.






E todo aquele monstro feroz da possível autopiedade calou-se num só tempo!




Shhhhhhhhhhh! Silêncio! Sou uma mulher que pensa! 
E estou com sono demais para monstros ferozes que me afastam de mim!







Pudera...


domingo, 27 de maio de 2012

Espelho, espelho nosso.





                                                        O Ovo ou Urutu. Tarsila do Amaral

O respeito não teria a ver com entender que a condição natural do outro é igual  a nossa e que esse tem o direito de decidir o que fazer com isso sem intervenções preconceituosas de quem, por se reprimir, entende que os outros também o devem fazer?

A cobrança social: seja normal, não seja natural.

Um grande torturador. Possivelmente um ser reprimido.
É como um ser que se descobre com Aids e passa a fazer sexo desprotegido com o máximo de pessoas possível por sede de vingança!
O ser reprimido não se limita a limitar-se. Ele quer acreditar que limitar-se vale a pena. Ele quer acreditar que não está jogando seus anos pela janela. Ele quer acreditar que os sacrifícios são por um bem maior. 
Por um bem extremo e lindo. Por um bem cândido, divino, virtuoso. 
Ele quer se ver anjo. Limpo. 
Ele quer acreditar, pois uma sombra de dúvida poria tudo em jogo, atiraria-o aos anti-depressivos e consultórios cada vez mais abarrotados de gente com problemas de gente. 
E ele não quer os problemas de gente. Ele quer se ver curado. 
Ele quer olhar seus enganos e teorizá-los como as melhores escolhas. 
Ele quer escrever um tratado do correto. 
Ele quer ter moral. Ele quer pendurar seu nome numa parede branca e dizer: eu estou aí.
Não sofre pelas molduras ressecadas que o cercam. Ele passa verniz. Verniz. Verniz. E acredita.

Entretanto, para o ser acreditar, é necessário que passe seu estilo de vida àqueles que o cercam. 
Ele quer afirmar para si próprio que está certo e para isso necessita da aprovação dos outros, da aprovação e dos aplausos, pois não fosse os outros e sua preocupação exacerbada, não teria sequer escolhido reprimir-se, ou melhor, escolhido continuar o que fora realizado.
Ele desenha sua vida nas telas que a sociedade o oferece sem se questionar se suas tintas estão ou não de acordo.
Sem se questionar, se uma vez secas, irão se retalhar como retalha a pintura a óleo deixada para secar ao sol.
Ele recebe as telas. É cômodo pintar ali. 
Onde existiriam outras diferentes?
Como dizer que nega o que recebe?
Como o fazer quando aqueles que as oferecem o sufocam?
Uma vez aceitas, ele passa a pintar ali. Todos os seus anos. 
E ele, sem querer ver quaisquer possíveis danos, enverniza-os.
Diante de suas frustrações, a certeza maestra: ele possui a certeza de que é um homem correto. Uma mulher correta. Uma pessoa de família. 
Que vive do lar para o trabalho, do trabalho para o lar.
Ele tem um nome que pode ser colocado na parede. Ele tem um nome que brilha, e ressecada ou não a moldura que o cerca, ele não se importa. 
Ele tem um nome. E passa verniz.

A descoberta de que seu método de pintura em nada expressa a verdade de si próprio passa a ser questão indiscutível, possibilidade inexistente, poeira por baixo do tapete.

Como lidar com as telas e mais telas que carrega dentro de si?
É menos difícil continuar reproduzindo o que já fez. 
A técnica confortável das pinceladas aprovadas! Imagina mudar agora! Nem mesmo a vaidade se manteria de pé! Quem o apoiaria? 
Quem o compreenderia ao menos? Talvez o terapeuta. 
Mas o terapeuta é coisa de gente que tem problema de gente. 
E ele não pode ter problema de gente. Ele é ser santificado. Divino. 
Que luta contra as tendências naturais. Ah e ele se orgulha!
Não fosse o doce da vaidade descendo-lhe a garganta, de que valeria o esforço? O que sobraria?


Ele quer ao menos que reconheçam! 
É o grito estridente em cada gesto:

Sociedade! Reconheça como sou correto! Sociedade! Reconheça! 
Eu fiz isso porque você me orientou! Você me deu essas telas! 
Você me disse que era a única possibilidade! 
Você me disse para eu ser normal! Você me convenceu de que ver meus desejos era como ver o inimigo dentro de mim. Mas eu também era meus desejos. Talvez ainda seja, o que não admito nem para mim mesmo. Sociedade! Você me fez ver que sou meu inimigo e que devo lutar contra ele. Meu tesão é repudiável. É sujo. É horrível. 
Mas o que seria eu sem meu tesão? Sem minhas perguntas? Sem meus oceanos?

Eu pintei todas essas telas e a vida não é como acreditei. 
Minha vida não é a da família Doriana. Minha vida não se passa nos filmes de comédia romântica. Eu não sou o Super Homem. 
Não encontrei a vida da Cinderela. E olha que eu pintei. Eu pintei. 
Eu pintei telas e mais telas. Todos os dias, as mesmas telas. 
As mesmas imagens em que eu tanto acreditei! Eu pintei. Pintei. 
Pintei mecanicamente. Fui o operário que mandou! 
E agora? O que me dá em troco? 
Agora me dá filhos que me questionam. Me dá filmes que me questionam. Me dá amigos que me questionam só pelo olhar diferente que têm! 
Você me dá gente e mais gente diferente!
Me joga na cara! Me joga na cara as pessoas felizes! 
Me joga na cara o quanto elas agem contra meus preconceitos! 
Me joga na cara o quanto elas riem! O quanto elas riem! 
O quanto elas riem e gozam!
Me joga na cara os orgasmos delas! 
As danças intermináveis até as seis da manhã! Até as sete!
Até as oito! Até quando quiserem! 
Me joga na cara que essas pessoas ainda conseguem passar em provas difíceis! Ainda conseguem ganhar dinheiro! Ainda conseguem ser ouvidas e respeitadas!
Me joga na cara que essas pessoas estão sendo ouvidas agora!
Me joga na cara que preconceito é a tela que baseei minhas pinceladas, enquanto prazer foi a tela que elas usaram!
Me joga na cara que vou ter que me manter agarrado aos meus preconceitos até morrer, porque como poderia mudar meu discurso a esse ponto do campeonato?
Como ficaria a minha imagem? Como acordar e olhar na cara dos outros?
Preciso acreditar que meus preconceitos que dizem que o natural não é normal é o normal!
Preciso acreditar que meus preconceitos são mais do que corretos. 
São a única saída! Preciso! Preciso! 
E por tanto precisar, eu preciso fazer os outros acreditarem também! 
Eu preciso reprovar quem faz diferente! Eu preciso rezar minha cartilha. 
Ser profeta dos meus males. Eu preciso ver a reprodução de mim. 
É questão de orgulho. De vida ou morte. 
Não poderia jogar tudo o que já fiz no lixo. 
Como assumir que estou no zero? Que nada valeu de nada? 
Que a juventude foi queimada? 
Que já cremei minha vida? Que já enterrei meus devaneios e desvarios? Que sou bege e sem graça? Que sou um ser reproduzido? Mera cópia não pensada? É preciso reproduzir. 
É preciso fazer reproduzir. É cult ler autores da revolta. 
É cult ser fã de filosofia. 
É cult o que foge a regra. É cult o questionamento. Então eu digo que leio. E leio. Eu digo que sou fã. E tento ser. Eu admiro. 
Eu admiro esses poetas consagrados. 
Mas e os poetas do dia a dia? Esses convivem ao meu lado. 
Esses são insuportáveis para mim. 
Estão perto demais denunciando minha pequenez. 
Esses, eu condeno.

Na sala de discussões eu endeuso nossos artistas endeusados! 
Nossos revoltados pagãos! 
Eu me sinto gente por saber o que estou falando! 
Mas no final de tudo... eu volto pra casa  e penso: 
ah...mas muitos deles se suicidaram...muitos deles não foram felizes... e volto a pintar minhas telas.


Volto a pintar minhas telas, como se a infelicidade desses muitos revoltados fosse a regra indiscutível para todos os que se revoltam! 
E se fosse?
... é como se eu, agindo diferente, fosse feliz, ou ao menos, leve.


Eu e minha visão retilínea! Não quero ver o outro ângulo. Não posso.
Finjo não perceber que infelicidade é fator óbvio em certos momentos da vida para todos, o que independe do estilo de vida que pintam suas escolhas.
Finjo não perceber que não se trata de uma questão de ser ou não feliz, mas de reconhecer-se ou não ao olhar no espelho.


Minhas pobres telas...
Volto a rasgar as telas dos que condeno! 
Volto a tentar rasgá-las, ao menos.
Eu volto a querer ser reproduzido. Volto a ter a necessidade inebriante!
Volto a beber na fonte da hipocrisia vazia. E acredito.
Acredito que o belo é o ideal. E me sinto todo! E me sinto ideal!
E me sinto alguém.
É questão de honra. Acontece até mesmo nas melhores famílias.


Queridos jovens... 
Esses dias, lendo O Diabo de Tolstói, deparei-me com  a frase:
"As pessoas geralmente pensam que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores; mas isso não é inteiramente verdade. Os conservadores são comumente os jovens , porque estes querem aproveitar a vida e não têm tempo de pensar em como devem viver, e, assim, tomam como exemplo a seguir o modo de vida antigo."


A escolha de pensar.
Ela não é a poltrona confortável da sala. 
Ela tende, inclusive, a transformar essa poltrona que tanto gosta numa coroa de espinhos. 
Mas eu garanto que sara. Sararia?
E que sarando ou não, a dor é inevitável. Sempre será. 
É condição humana.
Não há como fugir. 
É o ovo e a cobra. Mas sem cobra... 
Que ovos nasceriam?

Lutem para reconhecerem-se no espelho. 
Tudo mata.
Mas há sangue que não se estanca.


sexta-feira, 25 de maio de 2012

De um pseudônimo ainda sem nome.








De um pseudônimo ainda sem nome.

As reflexões, habitantes da cidade racional, divididas por um muro de Berlim (que por necessidade traça as fontes desse córrego misturado e enraizado que é a vida) desenvolvem-se naquilo de mais impulsivo. 
Naquilo ou Daquilo. Ainda é preciso que se pense sobre. 
E que se chegue a conclusão nenhuma, terrível e incrível o dilema. O ovo ou a galinha: que síntese!
A racionalidade que se segue faz brotar um sentimento que transborda e por instantes, a sensação de que a compreensão vai além das fronteiras! Atinge céus! ...horizontes imaginados... Planetas que sequer existem! ...tamanha é a sensação sem tamanho e a estupefata emoção de contemplar o que não se explica diante das vagas explicações, dessas que fazem todo o sentido.
Vislumbro o sentido rasgando as entranhas com um punhal que acaricia, num movimento certeiro e fugaz. 
Por vezes, lento e paranoico.
É um prazer medonho e louco. 
Razão, punhal de diamantes. Lindo. Leve. 
Cravado com as minhas iniciais.
De tão reluzente, a inveja às águas mais claras de que podemos ter notícias.
A vaidade confessada: o não abandono.
Por vezes, imensamente feliz por carregá-lo comigo...
Ah! Quantas batalhas vencidas! Umas gotas de sangue escorridas... mas gotas que escorrem ao passo dos ritmos...
Gotas não empoçam os pés!
Numa onda fatal e traiçoeira, gélida a emoção fervente:
Onde foi parar meu punhal?
Estava aqui diante dos olhos.
Reposei-o na areia.
Não poderá ter sido levado pelas ondas! 
Água não haveria de levar tal punhal pesado, leve apenas à arte embalada, que teimo em chamar de minha.
Não há sereia nem cantos.
É onda mesmo. Gelada e Louca.
É  a espuma da vida lavando a espuma que resta.
É o multiplicar de espumas!
Bolhinhas de sabão da infância.
Que lindas as gotas pelo ar! 

No balançar dos fios bem claros, as gotinhas que não o pertencem mais...
Olhos que denunciam: menina, menina, roubei teu navio... 
Sem licenças, sem pedidos, sem avisos. Desvarios...

Ah...num bilhete roubado de garrafa viajante, escrito sem palavras, o sonoro incessante!
Não era tinta que o pronunciava.

Nas cores rajadas dos mares...
Nas letras rasgadas, punhais.
Nas pedras amolecidas...
Na rolha, em seus bravos sinais:

Há uma saudade que não se rouba.
Não há chegada que conforte nem abraço flutuante.
Ela chega de mansinho, do abandono mais errante.
Não há ser mais invejável. Nem o rei mais poderoso! 
A saudade é de um ser que há muito já foi morto!
Não há como revivê-lo.
É o irressuscitável.
É o ser já adormecido de um eu imensurável.
Numa carta de garrafa, um conselho tão solene: dias tristes, dias claros: não se perca. Não se ausente.

Há inúmeras facetas, todas elas bem vistosas!
Não há como separá-las das suas cordas valiosas.
Não há rótulo pomposo, na surdina dos seus passos: 
há o cinza da mistura, a visão do nosso olfato.

Não sejamos os emotivos.
Não sejamos idiotas.
Num só canto surge o som
Ao voar das gaivotas.
Todas elas, passageiras. 
Livres! 
Entoando notas...

Sem tratados formulados.
Sem orquestras já remotas, todas elas num só coro, numa tão sonora volta:
Não sejamos racionais.
Não sejamos os idiotas.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Liberdade ou Morte!






Sou livre para escrever o quiser. Com quantos pontos quiser.
Com a vírgula ou a falta dela. 
Com maiúsculas POR TODA A EXTENSÃO DA FRASE SE ME FOR NECESSÁRIO.  
A escrita do que não pode ser dito. Libertar-se.
Num livro (me foi advertido por quem o leu) está escrito que menininhas usam muitas exclamações, sugerindo que um texto amadurecido não as traga com veemência.
Ah! Como é bom dar às facetas de cada instante suas ferramentas!!!!
Minhas exclamações são as sapatilhas da bailarina em seus momentos de descanso, dançando livremente!!!!!!!!! Livremente!!!!!!!!!!!
Minhas letrinhas, os passarinhos.
Alguns momentos mais tarde, os elefantes pesados e afetuosos.
Em outros o tigre! Em uns sou reticência...
Em outros exclamações incessantes!!!!!!!
Em outros, em muitos outros, a plena e simples interrogação.
Há o ponto final. Que logo se descobre vírgula. Há vírgulas, vírgulas,,,,,,,,,,,
Há Parênteses em que dormem minhas lembranças, que vezes se revoltam e invadem o terreno do meu texto corrido.
 Há os dois pontos: meus olhos enunciando o portal de um novo dia.
Há o ponto e vírgula para os momentos que a vígula não é exatamente aquilo que se é: Separação breve; Pausa que não demora.
Há aspas e mais aspas. Tudo em eterna modificação! Toda a palavra é senão a própria palavra inserida em suas aspas, que respeitam e seguem o fluxo das circunstâncias.
Digo àqueles que me dizem que não sabem escrever: Por que não dão asas às mãos?
A receita não está nos manuais.
A receita é simples e por isso difícil, como quase tudo que é simples.
Para dar asas às mãos é preciso que dêem asas ao peito, a essa voz que existe e que merece ser ouvida, sem logo ser pega com crueldade e colocada nos pueris cantos da moral que tolhe.
Saber escrever é pura e simplesmente saber escutar.
Para saber escutar é necessário que se esteja disposto a despir-se.
Despir-se para si próprio, antes de tudo.
É possível que leve a êxtases ou mesmo a depressões profundas!
Há quem cometa suicídio! Há quem venda tudo! Há quem pare de se vender.
É um caminho sem volta.
Uma vez descobertas as partes encobertas, não há mais poeira para cobri-las novamente. 
Olha-se para o lado e a poeira já foi.
Sumiu no vento. Foi passear nos náufragos dos que se afogam.
Resta você e você. Sem nada. Sem ornamentos. Sem vagas ilusões invencíveis.
Resta você e você. Sem mentiras criadas do resultado de tentar ser aquilo que não se é.
Restam todas as sensações!!! Restam os sentimentos. Resta a nudez.
E na nudez não se toca.  Não a princípio.
Primeiro, a nudez impressionará. O ser nu diante da própria nudez está atônito.
Não queira se dispersar. Não tenha pressa para fugir daí.
Não busque pensar em palavras. Não pense. Olhe. Veja. Enxergue.
É você mesmo. É você mesma. Nu. Completamente nua.
As formas são suas. São o que permitiu que se instalasse. 
É tudo aquilo que se instalou sem pedir licença, ou pedindo de maneira tão sutil que deixou ao inconsciente a culpa.
Atinge-se um estado de glória! Um estado de extrema compreensão!
Da compreensão sem palavras! Descobre-se finalmente o que é a compreensão sem palavras! Descobre-se, pois por cima da infância tantos e tantos cobertores ali estavam...
Olha-se para o som. Tão profundamente o silêncio passa a evocar imagens!
Olha-se para o lado e o vaso de planta não é mais o vaso de planta.
Não é mais a história do vaso de planta. Não é quem o deu. Não é onde estava.
Não é sua aparência. Não é informação concreta. Transpõe-se.
O vaso de planta não é mais o enfeite da planta.
Percebe-se que a planta, ao contrário, e bem caridosa, enfeita o vaso, que é bonito por sua funcionalidade, por sua utilidade. E a arte, não é vaso, mas planta, que embora também desempenhe função, desempenha-a de maneira tão magnífica que chega a alfinetar o conceito atribuído à funcionalidade por si só.

Planta não nasce das teorias . Não germina dos manuais. Planta se adequa ao sol. 
Arte é girassol retorcido. Não há manual que revele o sol de cada qual.
Nunca haverá.
Há, porém, sóis incontáveis...
 Raios que acalentam. Raios que rasgam.
É preciso que se dê o direito de ser. 
De ser menininha quando se sente necessidade de. 
De ser mulher quando se sente necessidade de.
De ser homem forte e brutal, quando se sente necessidade de.
De ser criança a todo o tempo para que assim se possa ser o que se sente necessidade de. 

Passa-se a ser poeta. O poeta sem palavras. Mas, o poeta, o indiscutível poeta!
Pois a palavra nada mais é que a mera consequência do estado atingido.
Um poeta num quarto sem giz, sem tinta, ainda é poeta.
Não é condição que se abandone. É caminho sem volta.
De repente uma sensação que invade! 
Uma sensação que desconhece etiquetas! 
Que desconhece a educação de pedir licença, por favor, muito obrigada.
De repente é necessária a tinta. É necessário o papel. É necessário!
Há um jorro de sangue que precisa sair.  Um jorro de sangue talhado.
Para que as veias sigam seus fluxos é preciso que esse jorro saia.
Naquele instante. Sem pensamentos. Sem manuais.
Não se aprende como vomitar. Vomita-se.

Nos instantes posteriores, todo o vômito ao redor.
O cheiro é o cheiro de tudo o que carrega. Dos seus mortos em putrefação.
Das suas flores brancas. Das suas flores brancas regadas.
E das abandonadas também.
De repente. Você olha e vê. Olha, vê e enxerga. 
De repente, você foi você.
Deu-se a chance. 
Agarrou-se ao último fio que liga o abismo à superfície, permitindo que as estrelas sejam vistas. 

Digo o último, pois nunca se sabe a extensão da vida. A vida é o agora.  
É esse oxigênio que acabou de inalar. É esse vômito ao seu redor. 
Fora do corpo e entregue aos leitores. 
O leitor pode ser você mesmo. Reparará que instantes mais tarde já não será mais o mesmo.
Do que vomitou, outro cheiro. Outra aparência. Outro tato.
Texturas diversas...

Ah...! Passará a se sentir livre quando ler os outros.
Não se limitará a buscar a verdade que o autor quis dizer.
Não se limitará a entrar em grupos de discussões que discutem tudo com exceção daquilo que deveria ser matéria-prima de discussão.
Não se limitará. 

Deflorará todos os sentidos possíveis e impossíveis daquilo que estiver diante dos olhos! 
Deflorará como deflora a virgem em sua descoberta do prazer, já descoberto dos pudores que não eram seus.

A falta da verdade absoluta. Sua aceitação é simples e difícil, como tudo aquilo que é simples.
Aceitar a falta da verdade absoluta é aceitar despir-se, dessa vez, das próprias vaidades.
As discussões acalentadas por argumentos estonteantemente belos se transformarão na paz que a brisa de um pôr do sol traz ao já poeta, iniciante ou iniciado.

Não se perderá tempo. Não se aceitará perdê-lo.
Pois um segundo que se perde, uma gota de orvalho que evapora.
Uma poesia que não nasce. Um vômito que não se aflora.
Uma entranha que se resguarda. Uma vida de demoras.

de demo demoras demoradas...


Do óbvio silencioso.



Há vezes que cometo o simplório erro de dizer “meu gato”quando me refiro ao bichinho que habita o mesmo lar que eu.
Esse que tudo vê e em tudo mexe. Esse que tudo cheira. Esse com olhos a que nada escapa.
Rousseau simplesmente existe.
Sente em suas dimensões, representando as minhas próprias limitações. 
Metamorfoseando-as numa metamorfose quase sutil, mas que chega a ser brutal.
Ora deita ora caminha. Ora sobe ora desce. Ora cheira. Ora come.
Ora fica a olhar. Enxerga o que vê. Tão fascinante é a maneira que retém os olhos ao que o interessa.
Pensar seria ater-se pura e simplesmente ao universo das palavras?
A esse universo que não é senão uma grande tabela que tenta arduamente cumprir sua função rotineira e errante de conferir ao inexprimível, categorias.
Viver sem catalogar em prosa. Verdade sugerida de um prisma nunca compreensível.
Observar um animal. Tão fascinante a condição humana me transborda nesses instantes!
No auge da reflexão mais profunda, que me adentra aos mais inóspitos terrenos da alma, ele surge. Surge sendo.
Sua mensagem em nada categórica transmite a ilustre verdade de que às reflexões não cabe auge, não cabe ápice nem maestria. 
Cabe a tão bela condição de busca, que não busca um fim senão o fim em si mesma.
O silêncio de quando nos olhamos. A paz de não compreendê-lo. 
O basta às interrogações que rodeiam. 
Ser simplesmente é o silêncio sem propósitos de quando meu olhar fica retido ao seu. 
Sem porquês. Sem beiras de abismos.
Sem insinuações verticais.
Ele é.
Eu, por alguns instantes, cometo a audácia de ser e a isso há quem dê o nome de meditação.


terça-feira, 8 de maio de 2012

Gratidão.


Ele é entusiasmo!
A energia renovadora de um Universo em constante evolução.
É o incentivo. A emoção!
Ele é a poesia. A rima despropositada. 
Ele é a paz inquietante.
O olhar que revela. É a nudez de alma.
É o pai. A alma que auxilia.
Ele é o abraço sincero. Fonte do saber!
É o doce, salgado, picante e azedo. O amargo ele nos explica. Mas amargo ele?
Ah... Ele é doce como a sensação de plenitude de quando nos sentimos espirituais.
De quando nos sentimos ouvidos pelo ser superior!
Ele é a, e, i, o, u!
É o ai! É o oi! É o ui! É ué!
Ele é o novo. É o velho. É a criança! O ancião.
É a orquestra do maestro. 
A vela do bolo que a criança tanto quer assoprar!
É o pé que invade.
A nuvem da chuva torrencial!
É o banho inocente e navegante.
É o viver.
Ele, uma grande fonte de inspiração!
Admiro-o.
Escuto "Se quiser falar com Deus" e por algum motivo inexplicável, ele vem a minha mente.
Obrigada, meu mestre.
Obrigada Fernando Bohrer.





quarta-feira, 2 de maio de 2012

A Ilusão Cômica.



Repleta de gracejos inteligentes, A Ilusão Cômica nos transfere para um ambiente no qual o misticismo garante que a moral por detrás da criativa tática seja comunicada com as sutis alfinetadas de Corneille, que transitando pelo drama, comédia e tragédia, fere sem perder a elegância.

Um pai deseja saber o paradeiro de seu filho e desorientado acaba por se deparar com um mago, que assegura que o deixará a par de tudo o que se passa!
A partir de então, a peça se desenrola e é possível que o pai assista o que ocorre com seu filho, como se diante de si houvesse uma bola de cristal!
O pai passa, portanto, à condição de espectador, assim como nós, o que torna a metalinguagem ao qual o espetáculo se destina, extremamente eficaz e digna de reflexões enriquecedoras!

No que o filho se tornou? Quais as reações do pai diante dos acontecimentos?
Até que ponto a surpresa ocorre devido à equiparação das transformações?

O final é surpreendente! Aqueles que estudam teatro haverão de se surpreender ainda mais!

O tempo passa, mas há estigmas que resistem...

Lutemos!

A Ilusão Cômica em cartaz de quarta a domingo no Centro Cultural do Banco do Brasil até 27 de maio! Não percam! Não é qualquer dia que temos a chance de assistir uma obra de Corneille!


Elenco: Paulo Marcello, Joca Andreazza, Lavínia Pannunzio, Clóvis Gonçalves, Maria Stella Tobar, Gonzaga Pedrosa, Julio Machado
Texto: Pierre Corneille
Direção: Marcio Aurelio

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...