terça-feira, 15 de maio de 2012

Liberdade ou Morte!






Sou livre para escrever o quiser. Com quantos pontos quiser.
Com a vírgula ou a falta dela. 
Com maiúsculas POR TODA A EXTENSÃO DA FRASE SE ME FOR NECESSÁRIO.  
A escrita do que não pode ser dito. Libertar-se.
Num livro (me foi advertido por quem o leu) está escrito que menininhas usam muitas exclamações, sugerindo que um texto amadurecido não as traga com veemência.
Ah! Como é bom dar às facetas de cada instante suas ferramentas!!!!
Minhas exclamações são as sapatilhas da bailarina em seus momentos de descanso, dançando livremente!!!!!!!!! Livremente!!!!!!!!!!!
Minhas letrinhas, os passarinhos.
Alguns momentos mais tarde, os elefantes pesados e afetuosos.
Em outros o tigre! Em uns sou reticência...
Em outros exclamações incessantes!!!!!!!
Em outros, em muitos outros, a plena e simples interrogação.
Há o ponto final. Que logo se descobre vírgula. Há vírgulas, vírgulas,,,,,,,,,,,
Há Parênteses em que dormem minhas lembranças, que vezes se revoltam e invadem o terreno do meu texto corrido.
 Há os dois pontos: meus olhos enunciando o portal de um novo dia.
Há o ponto e vírgula para os momentos que a vígula não é exatamente aquilo que se é: Separação breve; Pausa que não demora.
Há aspas e mais aspas. Tudo em eterna modificação! Toda a palavra é senão a própria palavra inserida em suas aspas, que respeitam e seguem o fluxo das circunstâncias.
Digo àqueles que me dizem que não sabem escrever: Por que não dão asas às mãos?
A receita não está nos manuais.
A receita é simples e por isso difícil, como quase tudo que é simples.
Para dar asas às mãos é preciso que dêem asas ao peito, a essa voz que existe e que merece ser ouvida, sem logo ser pega com crueldade e colocada nos pueris cantos da moral que tolhe.
Saber escrever é pura e simplesmente saber escutar.
Para saber escutar é necessário que se esteja disposto a despir-se.
Despir-se para si próprio, antes de tudo.
É possível que leve a êxtases ou mesmo a depressões profundas!
Há quem cometa suicídio! Há quem venda tudo! Há quem pare de se vender.
É um caminho sem volta.
Uma vez descobertas as partes encobertas, não há mais poeira para cobri-las novamente. 
Olha-se para o lado e a poeira já foi.
Sumiu no vento. Foi passear nos náufragos dos que se afogam.
Resta você e você. Sem nada. Sem ornamentos. Sem vagas ilusões invencíveis.
Resta você e você. Sem mentiras criadas do resultado de tentar ser aquilo que não se é.
Restam todas as sensações!!! Restam os sentimentos. Resta a nudez.
E na nudez não se toca.  Não a princípio.
Primeiro, a nudez impressionará. O ser nu diante da própria nudez está atônito.
Não queira se dispersar. Não tenha pressa para fugir daí.
Não busque pensar em palavras. Não pense. Olhe. Veja. Enxergue.
É você mesmo. É você mesma. Nu. Completamente nua.
As formas são suas. São o que permitiu que se instalasse. 
É tudo aquilo que se instalou sem pedir licença, ou pedindo de maneira tão sutil que deixou ao inconsciente a culpa.
Atinge-se um estado de glória! Um estado de extrema compreensão!
Da compreensão sem palavras! Descobre-se finalmente o que é a compreensão sem palavras! Descobre-se, pois por cima da infância tantos e tantos cobertores ali estavam...
Olha-se para o som. Tão profundamente o silêncio passa a evocar imagens!
Olha-se para o lado e o vaso de planta não é mais o vaso de planta.
Não é mais a história do vaso de planta. Não é quem o deu. Não é onde estava.
Não é sua aparência. Não é informação concreta. Transpõe-se.
O vaso de planta não é mais o enfeite da planta.
Percebe-se que a planta, ao contrário, e bem caridosa, enfeita o vaso, que é bonito por sua funcionalidade, por sua utilidade. E a arte, não é vaso, mas planta, que embora também desempenhe função, desempenha-a de maneira tão magnífica que chega a alfinetar o conceito atribuído à funcionalidade por si só.

Planta não nasce das teorias . Não germina dos manuais. Planta se adequa ao sol. 
Arte é girassol retorcido. Não há manual que revele o sol de cada qual.
Nunca haverá.
Há, porém, sóis incontáveis...
 Raios que acalentam. Raios que rasgam.
É preciso que se dê o direito de ser. 
De ser menininha quando se sente necessidade de. 
De ser mulher quando se sente necessidade de.
De ser homem forte e brutal, quando se sente necessidade de.
De ser criança a todo o tempo para que assim se possa ser o que se sente necessidade de. 

Passa-se a ser poeta. O poeta sem palavras. Mas, o poeta, o indiscutível poeta!
Pois a palavra nada mais é que a mera consequência do estado atingido.
Um poeta num quarto sem giz, sem tinta, ainda é poeta.
Não é condição que se abandone. É caminho sem volta.
De repente uma sensação que invade! 
Uma sensação que desconhece etiquetas! 
Que desconhece a educação de pedir licença, por favor, muito obrigada.
De repente é necessária a tinta. É necessário o papel. É necessário!
Há um jorro de sangue que precisa sair.  Um jorro de sangue talhado.
Para que as veias sigam seus fluxos é preciso que esse jorro saia.
Naquele instante. Sem pensamentos. Sem manuais.
Não se aprende como vomitar. Vomita-se.

Nos instantes posteriores, todo o vômito ao redor.
O cheiro é o cheiro de tudo o que carrega. Dos seus mortos em putrefação.
Das suas flores brancas. Das suas flores brancas regadas.
E das abandonadas também.
De repente. Você olha e vê. Olha, vê e enxerga. 
De repente, você foi você.
Deu-se a chance. 
Agarrou-se ao último fio que liga o abismo à superfície, permitindo que as estrelas sejam vistas. 

Digo o último, pois nunca se sabe a extensão da vida. A vida é o agora.  
É esse oxigênio que acabou de inalar. É esse vômito ao seu redor. 
Fora do corpo e entregue aos leitores. 
O leitor pode ser você mesmo. Reparará que instantes mais tarde já não será mais o mesmo.
Do que vomitou, outro cheiro. Outra aparência. Outro tato.
Texturas diversas...

Ah...! Passará a se sentir livre quando ler os outros.
Não se limitará a buscar a verdade que o autor quis dizer.
Não se limitará a entrar em grupos de discussões que discutem tudo com exceção daquilo que deveria ser matéria-prima de discussão.
Não se limitará. 

Deflorará todos os sentidos possíveis e impossíveis daquilo que estiver diante dos olhos! 
Deflorará como deflora a virgem em sua descoberta do prazer, já descoberto dos pudores que não eram seus.

A falta da verdade absoluta. Sua aceitação é simples e difícil, como tudo aquilo que é simples.
Aceitar a falta da verdade absoluta é aceitar despir-se, dessa vez, das próprias vaidades.
As discussões acalentadas por argumentos estonteantemente belos se transformarão na paz que a brisa de um pôr do sol traz ao já poeta, iniciante ou iniciado.

Não se perderá tempo. Não se aceitará perdê-lo.
Pois um segundo que se perde, uma gota de orvalho que evapora.
Uma poesia que não nasce. Um vômito que não se aflora.
Uma entranha que se resguarda. Uma vida de demoras.

de demo demoras demoradas...


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