terça-feira, 29 de março de 2011
Insubstituível.
As aulas de Teatro fazem parte de mim.
As sensações que sinto nas aulas de Teatro são insubstituíveis assim como as que sinto quando olho o mar, sinto o perfume de uma flor que me é dada, brinco com uma criança, escrevo...
Não saber explicá-la me angustia, mas tentarei.
As aulas de Teatro me fazem sentir que estou num mundo a parte por descobrir o que esse mundo que é o próprio corpo é capaz de me fazer sentir. Nunca girou em tanta harmonia!
Busco no fundo do ser as minhas manifestações corporais! Mergulho. Passo a ter consciência profunda do poder de sentir que tenho, inclusive pelas limitações. Sinto a existência.
Sinto a energia que emana do grupo e me sinto uma célula de um tecido poderoso!
Sou um feixe de luz! Sou um ser!
Sou um ser capaz de sentir e de fazer sentir as emoções que me inspiram!
Sou um ser voltado para a arte, que não é apenas uma forma de representar a vida, mas um meio de aprimorar as sensações que ela pode nos causar.
A arte nos faz sentir com toda a nossa capacidade de sentimento.
A arte não nos permite a entrega parcial. A arte faz de nós um corpo que vibra!
Que pulsa! Que vive!
Para fazer arte é necessário que se deixe do lado de fora da sala não só os preconceitos, como as hipocrisias, os comodismos, as inseguranças, o egocentrismo, os medos.
Não digo que os sentimentos negativos não inspirem também a arte. Inspiram e muito!
Afinal, fazem parte do que é o ser em sua totalidade.
Porém, para que permitamos que eles se transformem em arte é crucial que exista em nós o desejo e a atitude de deixá-los do lado de fora.
Só depois de deixá-los lá, podemos entrar, fechar a porta e fazer barulho.
Fazer barulho mesmo no silêncio, que nunca, em hipótese alguma, é para mim um silêncio vazio.
E quando saímos para voltar para casa, a energia é tão fascinante que acaba por se deixar do lado de fora mesmo tudo aquilo de negativo que por algum motivo deixamos um dia que entrasse em nós.
Deixamos do lado de fora da sala, do palco, do corpo, da alma o que nos atrapalha como célula de um tecido, de um órgão, de um corpo que visa o pleno funcionamento de suas funções!
Só eu sei o brilho que senti inundar meus olhos quando ouvi essa música e o que ele disse no início.
sábado, 26 de março de 2011
Escher
Amanhã é o último dia da exposição do Escher no CCBB!!!
Escher causa uma emoção diferente. Escher causa a emoção do espanto, da surpresa, da descoberta não só da obra e das diferentes formas de vê-la como da descoberta de nós próprios.
Por meio de suas obras fascinantes, ele nos leva a refletir acerca das perspectivas da vida e dos diferentes ângulos que estão a nosso alcance para que vejamos não só desenhos como situações de diversas maneiras.
Escher me levou a questionar o porquê de uma pessoa ver primeiro em um desenho uma imagem e outra pessoa ver outra em vez da mesma. O que nos faz ver primeiro o anjo ou o monstro? Haveria alguma ligação do nosso estado de espírito ou do nosso inconsciente com o que vemos primeiro? Seria a nossa primeira impressão uma pista para que nos compreendamos mais profundamente?
Em uma sala pequena e escura e de poucas cadeiras um filme sobre o artista. Um filme que dizia que suas obras não eram líricas nem poéticas, mas cerebrais. Não discordo. Porém, como Escher mesmo disse "A matemática e a poesia têm a mesma raiz."
Aquilo que é cerebral me levou a reflexões racionais, portanto, também consideradas cerebrais que me levaram por consequência a uma satisfação tamanha por notar a capacidade que reside em mim de olhar e ver. E ver de novo. E ver mais profundamente. E ver diferente!
O que é cerebral acabou por me levar ao emocional, mostrando-me que não só a raiz é a mesma como a ponta da folha residida no galho mais alto, naquele que por pouco não agarra o céu. Naquele que entende a independência do céu e que se restringe a beijá-lo de leve, mas que mesmo assim não deixa com que o beijo perca o sabor. Não agarrá-lo não torna essa folhinha infeliz. Ela beija o céu. Nós beijamos.
Não deixem de ir a essa exposição amanhã, que posso adjetivar de diversas maneiras, mas que jamais poderei explicar com a mesma intensidade a intensidade do fascínio ao qual ela transporta. Escher afirmou a incapacidade do homem de expressar a intensidade da mesma maneira sentida. Fazendo parte desse Universo, eu não haveria de ser diferente.
Mas isso não me restringe. Isso me faz ainda mais intensa.
quarta-feira, 23 de março de 2011
Feliz por Saber! =)
Essa postagem é para expressar o quanto fiquei feliz por ter tido conhecimento de que Arlindo Lopes achou em site de pesquisa a crítica que fiz a Ensina-me a Viver nesse blog e por ter recebido dele um comentário tão lindo acerca do que sentiu lendo o que escrevi sobre o seu trabalho.
http://nathaliareina.blogspot.com/2008/09/uma-lio-aqui-ali-e-acol.html
Hoje revivi essa satisfação, pois recebi um novo recado dele que me avisava que a minha crítica foi considerada relevante dentro de um Universo de muitas que já foram feitas e foi uma das escolhidas para ser colocada no site que divulga o espetáculo.
http://www.primeirapaginaproducoes.com.br/espetaculos/ensina_me/clipping.htm
Espero que as críticas que faço nunca deixem de transmitir a emoção que sinto! São feitas tanto para que eu compreenda as emoções que me invadem quanto para que transmita o que corre dentro das veias, que por vezes parecem trascender o limite do corpo!
http://nathaliareina.blogspot.com/2008/09/uma-lio-aqui-ali-e-acol.html
Hoje revivi essa satisfação, pois recebi um novo recado dele que me avisava que a minha crítica foi considerada relevante dentro de um Universo de muitas que já foram feitas e foi uma das escolhidas para ser colocada no site que divulga o espetáculo.
http://www.primeirapaginaproducoes.com.br/espetaculos/ensina_me/clipping.htm
Espero que as críticas que faço nunca deixem de transmitir a emoção que sinto! São feitas tanto para que eu compreenda as emoções que me invadem quanto para que transmita o que corre dentro das veias, que por vezes parecem trascender o limite do corpo!
terça-feira, 22 de março de 2011
Há meia hora. Agora. Amanhã.
Sem Demagogias.
Há um tempo atrás estava andando na rua quando um jovem me pediu para que comprasse balas para ele vender. Ele me falou que era de outro lugar do Brasil do qual não me recordo e que queria juntar dinheiro para voltar para lá. Ele também me disse que furtaram as suas coisas enquanto ele dormia. Fui comprar as balas, mas quando voltei ele não estava mais lá.
Provavelmente ele deve ter pensado que eu era mais uma que falava:"vou ali comprar e já volto..." e não voltava nunca.
Talvez por esse motivo, por essa descrença, por esse cansaço tenha resolvido sair daquele local que o remetia a espera angustiante, por mais rápida que possa soar no bater dos relógios.
Pois, por mais estranho que se possa parecer para alguns, todos nós temos uma área de nossa mente que é responsável por nos remeter a algum lugar e por consequência à sensação gerada, tenhamos casa ou não. Tenhamos ponto de referência ou não, ainda teremos ponto de referência.
Aquele rapaz ficou na minha memória como poucos, porque eu realmente acreditei nele e foi frustrante não poder ajudá-lo, mesmo que essa ajuda não fosse significativa para que ele de fato alçasse vôo para a sua cidade da memória.
Hoje, há cerca de meia hora, estava voltando para o aconchego do lar quando escutei um mendigo tossir de maneira angustiante. Eu olhei para ele, pois era preciso olhar. Sempre é.
Era ele. Eu quase não acreditei nos olhos. Era ele que por decisão resolvi olhar, por mais pesar que aquele olhar fosse me causar e "atrapalhar" o curso da minha programação diária.
Era preciso olhar. Sempre é.
Ele me pediu para que comprasse algo para ele comer e quando me prontifiquei a isso, ele, que viu que teria a minha ajuda disse que preferiria que eu comprasse dois sacos de bala para ele vender. Eu disse que iria comprar e ele insistiu para ir comigo. Eu lembrava dele.
Eu sabia que era o mesmo. E eu não senti medo.
Fui embora, mas quando cheguei em casa resolvi voltar para levar algo para ele comer.
A idéia de ele ter preferido os sacos de bala para vender à comida era impressionante, pois vendendo cada balinha ao preço normal de cada balinha e contando com a benevolência das pessoas, que não olhavam para ele, ele demoraria para juntar dinheiro para comprar algo para comer. Mas mesmo assim, ele o preferiu.
Voltei. Dei a ele algo para comer. E fiquei pensando. Pensando...pensando...pensando...
Lembrei da grande quantidade de pessoas que se nega a ajudar. Lembrei dos argumentos dessas pessoas. Lembrei que essas pessoas dizem que pagam um lanche, mas não dão dinheiro vivo na mão dos pedintes. Como pagam um lanche se não olham sequer para o lado? Se a mesma tosse fosse num banco ou num mercado ou numa sala de espera do dentista, essas pessoas olhariam. Mas não.
Um dos argumentos mais fortes é de que esses pedintes têm tamanho e capacidade para trabalhar e que pedir dinheiro é um comodismo.
Agora eu pergunto a essas pessoas: você costuma empregar ou indicar pedintes para um determinado ofício?
Você conhece alguém que daria essa chance a um deles?
Você perde um minuto do seu tempo a fim de escutar uma história olhando nos olhos de quem pede a você apenas um prato de comida?
Se você estivesse com fome até quando você ainda pediria a comida?
Até quando você aguentaria ouvir "não" quando fosse tentar mudar de vida ou quando só pedisse algo para comer?
A bebida alcoólica atenua a sensação de frio. Até quando resistiria a ela dormindo nas ruas, sentindo o vento dançar como canivete nas suas costas?
Ele me disse: as pessoas não me dão atenção.
Ele me disse: Dormi e roubaram meu chinelo.
Ele é uma vítima do furto, do roubo, da violência, como nós.
Porém, Ele é uma vítima da pior violência.
Ele é vítima da violência dos olhos que não se viram, dos queixos que não se abaixam.
Ele é a vítima de um silêncio que insiste em ser silêncio enquanto ele geme de dor, de fome, de tristeza, de raiva, de SEDE.
Ele é vítima do silêncio que só se transforma em som quando é para ser repreendido. Pelo quê?
Pela simples atitude de existir, resistir, sobreviver.
Ele é uma vítima do suicídio não cometido. Vítima do assassinato de todos os dias.
Nós somos o quê?
segunda-feira, 21 de março de 2011
Cópia Fiel
Penso que valha a pena indicar o filme em cartaz "Cópia Fiel" dirigido pelo iraniano Abbas Kiarostami, mesmo que também tenha algumas críticas não tão positivas a fazer.
O filme se baseia na questão da originalidade versus cópia e no que isso implica, não somente no que diz respeito às obras de arte, mas também e sobretudo, no que tange às relações humanas.
James, o escritor de um livro que defende as cópias baseado no argumento de que as cópias só confirmam o valor do que é original e em outros argumentos conhece Elle, que busca conhecê-lo melhor em razão do seu interesse pelo lido em seu livro.
Eles têm um encontro que acaba por tomar um rumo original, seguido a partir do momento que eles estão em um café e que ele a deixa sozinha por um momento em razão de uma ligação telefônica. Sozinha, Elle trava uma conversa com a senhora do estabelecimento e não só deixa que essa senhora pense que ela é casada com James como acaba por criar uma história falsa, cópia da realidade de muitos casais.
James não hesita e assume o papel de marido de Elle, o que acaba por gerar discussões entre os dois como se eles realmente fossem companheiros e sofressem dos mesmos problemas que a maioria dos casais juntos há anos, como é o caso da história criada, reclamam sofrer.
A idéia de mostrar ao público que a obra original já é uma cópia da realidade e que a cópia da cópia, por essa razão, não era tão inferior a obra original em si é interessante, pois assim como James diz que a pintura original da Mona Lisa não é senão uma cópia da pessoa pintada e que inclusive seu sorriso pode ter sido dado em razão de um pedido de Leonardo da Vinci, o filme não deixa de trazer reflexões e indagações mesmo que seja uma encenação dentro de outra.
A "realidade" é a de que James e Elle não são casados. Porém, se essa fosse a "realidade" o filme não deixaria de ser uma cópia da realidade de tantos casais. Abordagem criativa de Abbas Kiarostami.
Entretanto, considero que uma vez posta em prática a idéia interessante, essa deveria ter sim se desenrolado em algumas questões que envolvem grande parte dos casais, mas não deveria ter tido a duração que teve, pois penso que o tempo dedicado às discussões do casal acabou por tornar o filme um pouco monótono, pois a película em questão tinha diante de si um grande desafio por conta dessa idéia original ter sido posta em prática: o desafio de não tornar o filme monótono para o espectador, uma vez que esse já sabia que James e Elle estavam encenando, razão pela qual torna-se difícil sentir emoção.
É por esse motivo, que acaba por tornar difícil a emoção, que considero que a "farsa" deveria ter durado menos tempo e que ao contrário do ocorrido, o desfecho dado deveria ser em relação a uma história de James e Elle, após pararem de "fingir" para que pudessem, enfim, construir uma história não tão real assim, mas capaz de assegurar maior catarse ao espectador.
O filme também acaba por transmitir uma boa idéia: aquele que entra em uma farsa acaba por acreditar nela. Considerando que o conceito da realidade é extremamente difuso, é importante que vivamos de acordo com o que realmente, originalmente acreditamos, pois caso venhamos a nos confundir ou mesmo a sofrer, que seja por algo que fosse real para nós, espectadores e viventes.
O que me fez considerar que a partir de um certo momento a monotonia começava a se instalar na película não foi somente a extensão da "farsa", mas também a atuação de William Shimell, que ao contrário da atuação de Juliette Binoche, pareceu-me caricata.
Embora toda cópia seja um pouco caricata, só se pode crer no valor da cópia quando essa, que se propõe a ser fiel a realidade chega o mais próximo dela possível.
Há duas frases, clichês ou não, que instigaram o meu interesse pelo filme desde o início:
"Não é simples ser simples." "Esse é o ideal, mas o ideal não existe."
Considerando que o ideal não existe, posso dizer que vale a pena assistir "Cópia Fiel", pois apesar dos pesares, idéias interessantes acerca do que é estudado pela psicologia, filosofia e pelos estudantes de arte são oferecidas a nós como pipoquinhas tentadoras a qualquer cérebro faminto.
Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Angelo Barbagallo
País de Produção: França/Itália/Irã (2010)
domingo, 13 de março de 2011
Os Girassóis da Rússia.
Está cada vez mais difícil encontrar duplas que contracenem em tanta harmonia como Sophia Loren e Marcello Mastroianni, especialmente em Os Girassóis da Rússia, filme dirigido pelo italiano Vittorio de Sica.
Um filme que me fez pensar não somente sobre o amor, uma vez que narra a história de uma mulher recém casada que faz do seu amor a razão pela qual vive, indo em busca do seu marido, que convocado a se unir às tropas italianas, foi em direção ao calamitoso frio russo.
Ao contrário do que esperava Giovanna, seu marido desaparece. Não conformada, Giovanna resolve ir atrás do seu marido, enfrentando o frio russo. O seu lema é "Ele está vivo."
Porém, ela não supunha que ele poderia estar vivo nas condições que ele estava, que ela viria a descobrir. Ela não supunha que ele havia sido salvo por uma russa em uma situação que estava quase morrendo congelado e que desde o fato passara a viver dedicando-se a ela e a família que formaram.
Enquanto Giovanna entregou a sua felicidade ao objetivo de encontrá-lo, Antonio acaba por formar uma família com a mulher que simplesmente não o deixou morrer ao encontrá-lo.
Enquanto a mulher russa o salva literalmente, Giovanna abandona o seu país para tentar salvá-lo da distância dos dois, para tentar salvá-lo da morte presumida, pois salvá-lo é a sua salvação.
Um filme que não leva apenas a reflexão do que é o amor e do que esse sentimento implica.
Um filme que leva a reflexão acerca das expectativas que criamos e nutrimos, da implantação e superação dos limites invisíveis, mas completamente sentidos.
Um filme que mostra que por mais que as situações não se desenvolvam da forma como esperamos, ainda assim não é a melhor alternativa viver na dúvida do que poderia ter sido caso tivéssemos enfrentado o frio russo de cada qual. Há frios russos que precisam ser enfrentados.
Um filme belíssimo, não somente em relação a história e ao trabalho dos atores, como em relação a fotografia e a trilha sonora. Um filme delicado como as pétalas e forte como os Girassóis que vivem defendendo a vida, retorcendo suas estruturas em busca do sol.
Giovanna, o maior girassol de todos os que se espalham pelos campos...
Título: Os Girassóis da Rússia, de Vittorio De Sica
Título Original: I Girasoli
Direção: Vittorio De Sica
Elenco: Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Lyudmila Savelyeva, Galina Andreyeva, Anna Carena, Germano Longo, Nadya Serednichenko, Glauco Onorato
Fotografia: Giuseppe Rotunno
Ano de Produção: 1970
sexta-feira, 11 de março de 2011
O Estudante.
Acabei de assistir o filme mexicano O Estudante e posso garantir que meus níveis de seretonina ainda estão bastante altos, o que não me permite dormir sem que eu escreva sobre ele.
Um filme simples e belíssimo! Um filme que mostra que nunca se está velho para investir num sonho seja ele repentino ou de longa data. Um filme que mostra o quanto se ganha ao se deixar o preconceito de lado e o quanto se ganha ao se dedicar profundamente ao verdadeiro amor, que é generoso e companheiro em vez de possessivo e imediatista.
Um filme que mostra o quanto a vida ganha de leveza ao se aprender a amar sem julgar o outro, mas buscando compreendê-lo e apoiá-lo em seus momentos mais difíceis, que não se tratam apenas de momentos de dor, mas também de momentos em que é preciso força e determinação para que seja dado o passo adiante, o tão desejado passo adiante, pois a coragem para enfrentar os receios que todo sonho traz consigo não é fácil de ser conquistada.
Porém, quando se tem o apoio de um amor verdadeiro torna-se fácil subir e cavalgar o Rocinante como um exímio Dom Quixote de la Mancha!
O filme aborda as questões que envolvem a decisão de um homem de setenta anos, Chano, que resolve frequentar a faculdade a fim de estudar literatura e o que essa decisão acaba por gerar não somente a si próprio como aos outros.
Para quem deseja assistir um filme leve que faça os níveis de seretonina aumentarem, fazendo o coração se aquecer e os olhos umidecerem indico O Estudante.
Título Original: (El Estudiante)
Lançamento: 2009 (México)
Direção:Roberto Girault
Elenco:Jorge Lavat, Jeannine Derbez, Cuauhtémoc Duque, Pablo Cruz Guerrero.
duração: 95 min
sábado, 5 de março de 2011
O Escafandro e a Borboleta.
Esses dias surgiu, em uma conversa, "O Escafandro e a Borboleta", filme inesquecível que assisti a cerca de dois anos atrás.
O filme conta o que ocorreu com Jean-Dominique Bauby, que era redator chefe da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, casado e pai de dois filhos, no momento em que sofreu um acidente no dia 8 de dezembro de 1995, que o acometeu de uma doença rara responsável por toda a sua paralisia corporal, salvo a do olho esquerdo. Não bastasse esse sofrimento, ele continuou lúcido e em nada a sua capacidade de cognição foi afetada.
Jean não só aprendeu a se comunicar por meio da piscada do olho, como escreveu um livro com a ajuda da iluminada fonoaudióloga do hospital, só ditando com o olho as páginas que já havia decorado e feito as devidas correções mentalmente ao longo da noite.
É incrível o método que a fonoaudióloga trabalha, que consiste em começar a dizer as letras do alfabeto por seu maior uso na língua francesa, não por sua ordem correta. Incrível a maneira pela qual ela o trata, com paciência e determinação. Incrível a criatividade para tornar possível a comunicação, cuja falta ferve feito sangue nas veias de quem possui as palavras, os sentimentos, os desejos, mas não consegue expressá-los.
Um filme que não é simplesmente triste.
Basta dizer que é uma história real.
Um filme que não fala simplesmente de determinação e força.
Basta dizer que é uma história real.
Um filme que não nos permite o marasmo, não nos permite as desculpas que criamos para nos abstermos de grandes lutas, do passo a passo, do processo de conquista que implica seus obstáculos, nem sempre tão fáceis de se vencer.
Um filme que nos deixa diante do paradoxo da nossa fragilidade versus a nossa força, pois nas circunstâncias de maior impotência de Jean, nasceu a maior resistência à sua incapacidade repentina, tornando-o capaz escrever um livro como era de seu desejo.
Quantos planejam um livro e nunca o escrevem?
Não é simplesmente uma história de exemplo. É uma história a ser lembrada sempre que o fantasma do medo, das desculpas convincentes pautadas nos mais sólidos argumentos vier sussurar em nossos ouvidos, tocar nossos objetivos, assoprar os nossos sonhos.
Jean faleceu dez dias após a publicação do seu livro "O Escafandro e a Borboleta", no dia 9 de março de 1997.
O que estávamos fazendo no dia 8 de dezembro de 1995? O que cada um adia hoje que não permite publicar o livro de cada qual ou o que o simbolize em menos de dois anos? Não que o tempo seja crucial, mas impressiona-me como Jean conseguiu escrever e publicar um livro nessas condições em menos de dois anos.
Olhar para os filhos e não conseguir movimentar os dedos para fazer um carinho sequer. Olhar para a mulher e não conseguir abraçá-la. Não conseguir abrir a boca para dizer "eu te amo", não conseguir movimentá-la, sabendo que a voz existe. E sobretudo, os sentimentos.
Trecho por Jean-Dominique Bauby:
"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.
Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.
Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.
É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.
O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.
Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.
Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"
Direção: Julian Schnabel
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny e Max von Sydow
Roteiro: Ronald Harwood
Fotografia: Janusz Kaminski
Edição: Julliete Welfling
Música: Paul Cantelon
Gênero: Drama
Duração: 112 min.
Distribuidora: Europa Filmes
Vejam esse trailer e deixem-se mergulhar na última imagem.
Uma música que amo e que amo sobretudo a letra, que me permite associá-la ao filme.
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