terça-feira, 6 de abril de 2010

flocos e mais flocos de psyche




Sorvete de flocos. Nunca me foram tão interessantes. Porque não há motivo de maior felicidade do que receber um cartão postal da infância alheia e concomitantemente um convite para percorrê-la com os pés descalços. Simplesmente mergulhar nos misteriosos sorvetes de flocos. Simplesmente o mistério de sua composição. Simplesmente o mistério da infância ressuscitada.

Mais incrível do que lembrar dos gostos dos biscoitos que não voltam mais...dos aromas que marcaram as ansiedades...das brincadeiras, e mais ainda, das sensações que elas geravam... é conseguir lembrar das sensações da infância alheia sem tê-las vivido naquele corpo, e no respectivo ambiente e segundo em que foram retratadas.

Por mais censuradas que as crianças sejam, há sempre uma compreensão maior para que se joguem na grama molhada de chuva a fim de rolar imitando um peixe e para que deslizem com as mãos sujas de sorvete de flocos pelas paredes de casa. Ah! Antes o rótulo de mal educada do que o de louca!

Tornar-se adulta requer a habilidade de deixar impulsos inocentes de lado, com a chamada precaução de não constranger alguém.
E quando deixar de inventar coreografias no meio de uma rua cheia e com barulhos ensurdecedores de buzinas, começar a fazer com que esse adulto constranja a si próprio? Porque não há nada de mais constrangedor do que ter que esconder impulsos infantis e o respectivo brilho nos olhos que esses geram...
Pobres os adultos que pensam ser loucura ou bebida os mergulhos infantis do seu “semelhante”...

Ah! Mas as crianças merecem ainda mais os esforços da advocacia...
Afinal, dificilmente lhes é concedido o direito a defesa...

Qual o problema da criança não gostar da outra e de não querer que a outra estrague o seu brinquedo? Por que a criança não tem o direito de ficar triste com algo que ouve? Por que é acusada de fazer manha sempre que uma lágrima visita seus olhos? Por que censurá-la se o desejo de comer o bombom naquele momento inunda a sua vida inteira? Crianças não se tornarão os homens e mulheres do futuro. Já o são.

Eu não posso deixar de compartilhar a delícia que foi ler Quando eu voltar a ser criança de Janusz Korczak. Um livro convidativo, comprado num sebo, com uma dedicatória de um sujeito chamado Lula para outro chamado Jorge. O Lula pede ao Jorge que depois lhe empreste o livro. Se esse foi emprestado, não sei. Só sei que gostaria que todos que conheço o lessem. Uns mais. Outros com menor intensidade.
O que importa é que para mim esse livro não é apenas um livro que emociona.
Trata-se de um divisor de águas.

Janusz foi um homem que teve a oportunidade de fugir do gueto de Varsóvia onde ficou em confinamento com as duzentas crianças do seu orfanato, mas não conseguiu abandoná-las e acabou sendo arrastado ao campo de concentração de Treblinka.
Janusz traduz com delicadeza sensações que descobri guardadas num lugar muito especial dentro de mim. Sensações que me fazem sentir ainda mais amor e compaixão pelas crianças, responsáveis mor do pouco de espontaneidade que ainda paira por aí...


É de suma importância relatar as dedicatórias do autor...

“ Ao leitor adulto

Vocês dizem:
- Cansa-nos ter de privar com crianças.
Tem razão.
Vocês dizem ainda:
- Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão.
Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.
Estão equivocados.
Não é isso o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentidos das crianças.
Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las. “

“ Ao leitor jovem

Vocês não encontrarão neste romance aventuras palpitantes. É uma tentativa de romance psicológico.
Em grego, “psyche” quer dizer “alma”.
O assunto deste relato é aquilo que acontece na alma do homem: o que ele sente, o que pensa.”

Janusz, se pudesse encontrá-lo um dia, na dimensão que fosse, teria imenso prazer e necessidade de dizer que não há aventura mais palpitante do que aquilo que acontece na alma do homem. Obrigada pelo que fez acontecer na minha.

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

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