domingo, 20 de novembro de 2011
Alivie.
A poeira que invade seus olhos é o que o seu corpo se tornará.
Antes de ontem vi um homem sem duas pernas engraxando sapatos.
Os óculos escuros nos protegem da areia que dança em direção aos olhos delicados.
Nosso corpo se tornará pó ainda mais fino que essa areia que machuca.
Talvez alguém tenha jogado um corpo cremado ao vento agora.
Talvez o pó que incomoda seus olhos seja o coração de alguém.
A luz confortante do banho de mar nasce do mesmo sol que derrete os órgãos.
Tornar-se pó é triste?
Sabê-lo é uma cachoeira que me invade nos momentos de sede.
Sabê-lo é um trem que leva à humildade.
Sabê-lo são as asas que já não servem apenas ao vôo...
Asas assopram brisas a faces já salgadas há muito...
A liberdade de um homem que se descobre pássaro assopra brisas que ele próprio desconhece.
Alivie. Gosto da palavra.
E se você tivesse apenas uma pergunta?
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
On the hill... Riu!
Corra! Corra! O tempo vai acabar! A vida passa rápido! As rugas aumentam! Qual o foco? Não perca. Cuidado com o canto da sereia! Seja racional! Previu? Siga adiante. Olhe a intuição!
Para que perder tempo? Corra! Corra! Corra! Busca! Procure! Ache logo! Não é o que pensou? Devolva! Procure. Procure. A feira vai acabar! Vai ficar com fome! Onde está a fruta que procura? Esta não serve porque logo fica azeda. Aquela não serve, pois vai demorar a ficar madura.
A outra também não serve porque já está madura demais. A outra já está podre... ressentimentos a azedaram demais! Pare de pensar! Pense melhor! Procure! Procure! O tempo vai acabar.
Tuuuuuuuuuuuu. Fim da feira. Mãos vazias.
Montanha adiante.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Ventando...
Fiz uma apresentação teatral há poucos dias. Escolhi ser a louca.
Eu poderia ser o que quisesse. Fiz uma louca.
Adorei a recepção das pessoas, que não foi a de estranhamento, mas a de empatia.
Impressionou-me muito a reação de uma criança!
Ela estava com a mãe e quando viu a porção de pessoas fantasiadas, disse de súbito: "Mãe! Eu vou ficar aqui."
A menina olhava para as pessoas e brincava de adivinhar o que cada um representava.
Olhei para ela e perguntei:
Eu sou o quê?
Você é uma árvore.
Eu sou o que não pareço ser.
Ah! Você é uma árvore. Está com planta na cabeça!
Que criança racional! Não tanto... pois eu gesticulava e falava de uma forma que não é considerada normal. Ela não via a louca. Ela via a árvore.
Os adultos percebiam que eu representa a falta do prego na cabeça ou o prego a mais. Não pensaram que eu era uma árvore.
Gostaria que a empatia com os loucos por parte dos adultos se desse não somente quando sabem que se trata de uma personagem teatral, mas com aqueles que realmente sofrem de algum problema considerado como loucura pela psiquiatria.
Se eu realmente fosse uma pessoa que sofre de loucura e estivesse com plantas na cabeça eu adoraria ser chamada de árvore!!
As crianças não são loucas e se sabem árvores, nuvens, fadas, príncipes, bruxas e o que quer que decidam ser!
O que é ser louco?
Eu sou uma árvore. Uma árvore que flutua.
A loucura não cabe a mim, mas ao padrão de comparação estreito que paira no turvo ar que plana pela sociedade.
Sou louca?
Sou uma árvore que flutua!
Não vejo o vento e sei que ele existe.
Sou capaz de senti-lo.
Vejo outras coisas e posso duvidar que elas existam.
Ver já é imaginar.
A mesma planta que enxergo não é a mesma para quem está ao meu lado.
A relatividade da realidade.
A verdade única que não existe.
A força de inúmeras imagens.
Olho a neve e vejo uma criança dormindo.
Ela existe.
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