Epicuro, como já disse, filosofava. Beck faz ciência. Ora. Ora. E no que eles conversam?
Antes de revelar essa associação, deixo o leitor ciente de que como todo e qualquer gênio, ambos são mal interpretados por muitos que não se dispõem a mergulhar com profundidade nas suas obras. Epicuro é mal interpretado como um hedonista inconsequente. Beck, como um superficial. Ah! Eles defendiam exatamente o oposto do que sussurram essas vozes equivocadas.
No livro "Carta sobre a Felicidade", é possível ter acesso aos pensamentos que Epicuro compartilhou com Meneceu. Como qualquer leitura, é imprescindível levar o contexto em consideração. Além disso, é preciso fortalecer a nossa habilidade de filtrar o conteúdo, não desvalorizando por inteiro um livro de reflexões por conta de nos depararmos com determinados pensamentos com os quais discordamos. Discordar é tão humano quanto pensar, pois é inerente ao pensar ter ideias das mais diversas possíveis.
Por que digo isso em vez de começar logo a fazer a associação entre os ditos epicuristas e beckianos?
Ora! Porque me ocorre a importância de desarmar o leitor. Quem se arma antes de uma leitura, coloca vendas em cenários cujas paisagens são ricas e complexas, limitando-se.
Desarmados, sigamos...
Epicuro diz "é necessário cuidar das coisas que trazem felicidade, já que, estando esta presente, tudo temos, e, sem ela, tudo fazemos para alcançá-la." Segue esclarecendo o seguinte: "Consideremos também que dentre os desejos, há os que são naturais e os que são inúteis; dentre os naturais, há uns que são necessários e outros, apenas naturais; dentre os necessários, há uns que são fundamentais para a felicidade, outros, para o bem-estar corporal, outros, ainda, para a própria vida. E o conhecimento seguro dos desejos leva a direcionar toda escolha e toda a recusa para a saúde do corpo e para a serenidade do espírito, visto que essa é a finalidade da vida feliz: em razão desse fim praticamos todas as nossas ações, para nos afastarmos da dor e do medo."
Além disso, Epicuro nos elucida sobre a função das emoções, inclusive das desagradáveis. É preciso ler o livro para ter maior acesso a essa parte. Aqui, irei me ater a alguns trechos, apenas.
Considerando as partes grifadas por mim, vejamos: Epicuro já alertava para a importância de se conhecer os próprios desejos, afim de se ter uma vida feliz.
Beck, por sua vez, cria a TCC num contexto em que se dá conta que os seus pacientes com transtornos depressivos relatavam frequentemente pensamentos derrotistas, tendo nesses pensamentos altas doses de distorções cognitivas como de catastrofização, supergeneralização, abstração seletiva e pensamento "tudo ou nada".
Beck se dá conta do peso desses pensamentos distorcidos na equação dos estados de humor de seus pacientes. Resolve testar esse peso e "Tcharam!", a Ciência comprova o modelo cognitivo, ou seja, o que pensamos influencia o que sentimos e como agimos. Ora. Ora...
Epicuro nos diz sobre a importância de conhecermos de forma segura os nossos desejos. Como conhecer de forma segura os nossos desejos? Ademais, o que conhecer os desejos de forma segura tem em comum com o trabalho com os pensamentos, emoções, estados de humor e comportamentos? Onde nisso tudo entra a tão almejada felicidade?
Primeiramente, é preciso observar e refletir sobre esses desejos. Há situações que pensamos desejar determinadas coisas, quando na verdade, estamos apenas nos esquivando de contextos dos quais tememos. Há outras situações, que pensamos desejar algo, quando, estamos apenas reproduzindo automaticamente os desejos impostos pela sociedade da qual fazemos parte. Um exemplo: será que toda mulher que se submete a dietas realmente deseja ser magra, considerando todas as limitações que um peso almejado pode significar?
Enfim, a TCC trabalha aí: no conhecer de forma segura. Não apenas desejos, mas toda a sorte de pensamentos que vier. Por meio da observação e diversas técnicas, o cliente tem a oportunidade de, junto ao seu terapeuta, conhecer de forma segura quais são/não são os seus desejos, quais são/ não são os seus valores, quais são os seus pensamentos, quais deles são realistas, quais apontam para crenças limitantes há muito estabelecidas. Isso é conhecer pensamentos e crenças.
Além disso, o cliente aprende a identificar as suas emoções, a diferenciá-las, além de aprender sobre a função de cada emoção trabalhada. Isso é conhecer emoções.
O cliente também aprende a observar os seus comportamentos. Nota que comportamentos seguem, na maior parte das vezes, padrões previsíveis e passa, então, a conhecer os seus padrões. Isso é conhecer seus comportamentos.
Conhecendo melhor seus pensamentos, crenças, emoções e comportamentos, a pessoa passa, portanto, a conhecer melhor a si mesma, o que possibilita que construa uma vida mais significativa, de acordo com os seus próprios valores, e portanto, mais livre de sofrimentos "extras", além de desenvolver maior habilidade no que tange à sua regulação emocional.

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