quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Alvura.



E foi como descobrir mais uma parte do outro, se é que é de partes que o outro é feito.
Ela adentrara aquele local precioso. O templo do outro.
E era leve. Era calmo. Era belo.
Nesse local, de repente uma parede. Uma parede colorida.
E que por não ter nada a ela pendurado, parecia grande. Vasta. Ainda que limitada.
E ela disse a ele: poderia ter algo aqui nesta parede...
Ela disse ao mesmo tempo que se recordava de parede similar em seu próprio quarto.
De parede também vasta. E também vazia.
E via em seu conselho algo de incoerente, visto que em sua parede preciosa, ainda não tivera posto coisa alguma também.
Foi também um comentário desses como: “Neste café poderia ter mais açúcar.”
Algo que soa banal. Que não merece necessariamente uma resposta.
Que não nasce para ser lembrado.
Mas nela, a informação ficara guardada.
Ali dormia um silêncio.
E ela chegara em casa, deixara passar alguns dias e decidira, de maneira distinta, arrumar seu velho e aconchegante quarto.
Nas estantes, apenas o que era harmonioso aos olhos.
Na cama, apenas as almofadas que verdadeiramente lhe agradavam. E naquela parede...
Ah... naquela parede o nada. Que se fez tudo.
Pois aquela parede era o seu local de descanso.
De calmo descanso dos olhos.
E o nada dizia tanto, como o céu, que em si, só agrega o passageiro: o pássaro, as nuvens, os aviões...
E por mais eterno e fixo que o sol nos pareça...que a lua nos convença, que as estrelas nos confirmem...
Lá no céu... Não há coisa alguma que seja mais céu que o próprio céu.
E ela pensou no silêncio. Em tudo aquilo que o silêncio nos diz.
E ela pensou no branco. Na suposta ausência de cor.
Pois, o branco...
E o silêncio...

...toda e qualquer poesia.
Ainda mais vasta. Ainda mais nua.
...inda mais minha.

E aquela parede... 

...todo e qualquer retrato.
Toda e qualquer pintura.
Todo e qualquer fato.


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Duma breve brecha, recordação.



E que movida por um impulso que a fazia desejar impulsionar o outro, lançada fora a pergunta: este ano foi bom pra você?
O que aconteceu de diferente dos outros anos?
Ah! Foi um ano igual aos outros...
Mas o que descobriu de diferente neste ano?
Ah, sei lá! Foi um ano bem parecido com os outros! Por que essa pergunta?
E ela, sem desejar a acidez do julgamento, tivera a triste certeza da existência de mais um vício no mundo, tal era a repetição viciada da rotina do outro...
Sem espaços para o novo, ainda que diante.
Sem espaços para quaisquer espaços.
E os horários sempre os mesmos. E as palavras também.
E as mesmas respostas. Mesmas reações.
Foi quando, horrorizada, viu-se diante da sua própria mesma repetição: seu espanto sobrevivia. 
Sempre o impulso da emoção!
Sem espaços pro "já visto", "já sabido", "já passado". 
…tal corrente era a surpresa dos seus velhos novos fatos...

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Fotografias.


-Isso. É isso mesmo. Você nunca terá.
-Como você pode ter tanta certeza? Nunca viu quem manipule?
-Isso não é ter.
-E é o que, então?
-É manipular.
-Para ter, oras!
-Para ter a ilusão de ter.
-Como ilusão?
-Tudo é ilusão. Você nunca terá o controle.
-E o que eu terei então?
-Você.
-E o que eu faço com isso?
-Com você?
-É!
-Faça-se.
-Ah! Você e sua subjetividade soberba! Como se você fosse feliz assim...
-Sou livre.
-E o que é ser livre?
-Querida, é saber dos limites.
-Ah! Então você está querendo dizer que ter limites é ser livre?
-Não. Ter limites é inerente à sua condição. Saber dos limites que é o passo pra libertação.
-Então você acha mesmo que saber dos limites liberta?
-Ah! Claro! Você sabe que as pessoas podem fazer o que der na telha queira você ou não.
-UAU! O Sábio do Século! E como você vive tranquilo com isso?
-Não querendo ser dono do mundo, sou dono de mim. Um pouco que seja. E isso me dá paz.
-Ah. Ok. Eu finjo que entendo. E Você sempre foi assim? Nasceu assim?
-Não me interprete mal. Eu descobri o que te conto.
-Como?
-De repente.
-Ah! De repente você se viu desprendido de tudo? De todos? Com uma incrível sensação de liberdade?
-Isso mesmo.
-Ah. Eu acho que eu vou indo...Você está demais pra mim.
-Ei! Você já experimentou olhar o mar?
-Ahn? O mar? Mas é claro!
-Já experimentou olhar e ver? Sem ter que pensar em alguma coisa...
-Ah não! Quando vou pra frente do mar, vou pra pensar em alguma coisa mesmo.
-Então contemple.
-Ah! Lá vem você com aquela ideia de meditação! De não pensar em nada, e ainda assim ter que pensar na respiração! Que é totalmente diferente do jeito que respirei a vida toda e tudo o mais!
-Não. Não é assim tão complicado. A ideia é você olhar o mar e ver a sua imensidão. Daí você olha você. E se vê pequena. Mas também grande. E sua força vem disso.
-De que? Me desculpe...
-Sua força vem de ser pequena e grande ao mesmo tempo, no mesmo corpo, na mesma vida, no mesmo conto.

sábado, 8 de dezembro de 2012

...


E de repente o desmanche em nuvens, 
Doces espumas salgando sombras...
Impenetráveis manhãs transversas.


E de repente o suar dos olhos.
O côncavo olhar da escuta.
Doses já tão diversas...

E de repente, um mar que se faz alto.
Que se faz leve.
Tais palmas das mãos...

Num repentino girar de passos...
Levado a plumas...
Ventilação.

Pois, de repente, o ventar das horas...
Eternas sonoras.
E essa tal fotografia...

Das imagens minhas tuas que se soltam...
Das ideias tuas minhas que se criam.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Duma poesia escorrida...


Duma poesia escorrida...

Fluidez do rio...
Beira de mar que não se delineia.
Horizonte de águas que se movimentam no ir e vir de uma natureza que faz amor.
Pés dessa bailarina que rodopia e que tão leve repousa ao chão.
Num passo exato, delicado e seu.
Ah! Pois se na infância que até hoje perdura... ter cada zebra listras só suas era só fascinação...
Hoje, cada passo, cada nota, cada esfera...
Tal qual exclusividade. Verso novo. Emoção.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

De repente! Não "Mais que de repente!"


E como num passe de mágicas... uma elucidação que aparentemente nada tinha a ver com com a tal situação complexa, séria e adulta que se vivia...

A tal elucidação repentina, incrível e salvadora que ocorria...

De repente: o amor às crianças. 

Como? O quê? De onde? Por quê?

Ah… A simples e tão bela descoberta de que todo o fascínio não advém da inocência das crianças,
(não dessa inocência que é desprovida de quaisquer sinais humanos, vulgo "maldades", ainda que pequeninas, ainda que inocentemente chamadas de implicâncias), pois essa não existe e caso disso meu fascínio se originasse, não seria coisa alguma além de mera idealização.

Meu fascínio também não reside na fofura com que falam, com que andam, com que gesticulam.

Tampouco na maneira como nos idolatram quando nos permitimos entrar um pouco que seja em seus mundos encantadores e por tantas vezes, impenetráveis!

Também não reside em ter, por meio delas, a chance de ser uma mentora.
Nem na possibilidade de esquecer os adultos.

O fascínio puro, realmente genuíno, magnífico…! E inundado de esplendor…
…Resplandece de outra nascente: a da suposta inconsequência!

Pois, como um rio que lava quaisquer poeiras grudadas aos olhos, veio-me a seguinte imagem:
a da criança que anda.

Uma criança que aprende a andar, cai.

Ela cai, chora. Logo, levanta. Cai. Chora. Levanta. Ri. Cai. Não chora. Ri. Levanta. Olha. Fala. Ri. Chora. Cai. Ri. Levanta. Anda. Anda. Anda...(cai) Levanta. Anda... Anda...Anda... (cai, chora, levanta) Corre! Corre... (cai, chora, levanta)
...Voa!

A criança cai, mas não espera cessar  por completo a sua dor para que enfim levante novamente a fim de tentar o passo seguinte.
Se espera, não anda. Fica pra trás.
Vira o futuro exímio teórico!
Pra tudo uma resposta, uma saída coerente, de acordo com os hábitos e costumes, de acordo com a terra firme que não machuca, que sequer coça!
Tudo no esquema da suposta sabedoria.

Se dotada de medo paralisador  (ou como preferem alguns adultos chamar: “sensato resguardo”)
de um próximo tombo, fica sentada.
Do seu cantinho, é capaz de ver as outras crianças caindo.
Ela vê o porquê caem e o porquê não caem.
Ela se lembra do seu tropeço e ali, sentada, já sabe o porquê tropeçou.
Olha as outras crianças. Vê o mesmo erro nelas, nessas que caem.


E respira... Aliviada! Toda repleta de teorias salvadoras!
Mas enquanto isso... ela está sentada... nutrida pela própria ilusão de que é sábia. 
Mas que espécie de alegria genuína resplandece dessa sabedoria, senão a própria chatice de alguém que só sabe?
E quanto mais teórica se torna... menos vida se explora!
Ah! O tal rascunho só aos textos colabora!

E pra não me tornar eu própria repleta de teorias, dou logo ao texto o fim que se enuncia!
De repente! Não "Mais que de repente…"

Pois se muita teoria invade, muita vida que se distancia...

E de repente, velha, amarga...

E fria...?

Cruzes!
Que vantagem nessa tal sabedoria?!



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Por entre os dedos.



E não importava a qual mágoa o seu peito se destinasse, logo o cantar de algum acontecimento incitava-lhe o riso.
A não ser que fosse mesmo tristeza profunda, dessas que pouco se sabe, 
que pouco se fala.
E ela deixava calar. Supria-se da paz da brisa.
Enchia-se duma verdadeira condição de ser. E era.
Em cada só detalhe, sua totalidade imensurável.

E por vezes falar demais, os que nada sabiam, pensavam tudo saber...
Conhecê-la por inteiro, adivinhar cada só sorriso...
E deixavam escapar os tais doces silêncios, esses tão embriagados duma arte de contemplar o mundo que se vive, que se cria, que se preenche.

E era ela ali em cada folha retorcida. Era ela ali nas folhas caídas. 
Nas que não caiam ao mais forte soprar do vento!
Era ela ali.
Era ela em cada onda que se destinava, que se regava, que se permitia o relance.
E em muito se encontrava, e em nada se resumia.

Conjunto inesgotável de fatores. De sensações das mais novatas. 
De pensamentos sem palavras. 

E no mesmo porto que guardava as tristezas do saber o mundo, 
encontrava-se também o barco de suas ilusões certeiras. 
Nunca adulta por demais. Na alma, a criança inteira. 

Via-se no suor dos músicos embriagados.
No olhar certeiro dos concentrados.
Na sombra dos loucos poetas doces, líricos mundos calejados...

Sentia-se na carne dos oprimidos.
No olhar dos não vencidos. Na fome da sentinela. 

E era sempre dum querer mais que não se cessava.
Como onda que não se alcança.
Como vento a despir-se nela...

E por mais ardor que se sentisse, era tão somente dela...
Não havendo o que furtasse suas tais vastas janelas...

E sabia acreditar nas flores que riam!
Nos bosques que estavam.
No cais dos que se sabiam...

E sabia brincar de contos. De ilustres pontos! 
De sons sem mais.

E pescava o que não se via, duma sombra viva, duns doces sais...

E por saber tanto, tanto...  E amiúde!
...tão pouco do saber se valia.
Era antes onda que inunda.
Paz que se sente.
Alma que espia.

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...