segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Por entre os dedos.



E não importava a qual mágoa o seu peito se destinasse, logo o cantar de algum acontecimento incitava-lhe o riso.
A não ser que fosse mesmo tristeza profunda, dessas que pouco se sabe, 
que pouco se fala.
E ela deixava calar. Supria-se da paz da brisa.
Enchia-se duma verdadeira condição de ser. E era.
Em cada só detalhe, sua totalidade imensurável.

E por vezes falar demais, os que nada sabiam, pensavam tudo saber...
Conhecê-la por inteiro, adivinhar cada só sorriso...
E deixavam escapar os tais doces silêncios, esses tão embriagados duma arte de contemplar o mundo que se vive, que se cria, que se preenche.

E era ela ali em cada folha retorcida. Era ela ali nas folhas caídas. 
Nas que não caiam ao mais forte soprar do vento!
Era ela ali.
Era ela em cada onda que se destinava, que se regava, que se permitia o relance.
E em muito se encontrava, e em nada se resumia.

Conjunto inesgotável de fatores. De sensações das mais novatas. 
De pensamentos sem palavras. 

E no mesmo porto que guardava as tristezas do saber o mundo, 
encontrava-se também o barco de suas ilusões certeiras. 
Nunca adulta por demais. Na alma, a criança inteira. 

Via-se no suor dos músicos embriagados.
No olhar certeiro dos concentrados.
Na sombra dos loucos poetas doces, líricos mundos calejados...

Sentia-se na carne dos oprimidos.
No olhar dos não vencidos. Na fome da sentinela. 

E era sempre dum querer mais que não se cessava.
Como onda que não se alcança.
Como vento a despir-se nela...

E por mais ardor que se sentisse, era tão somente dela...
Não havendo o que furtasse suas tais vastas janelas...

E sabia acreditar nas flores que riam!
Nos bosques que estavam.
No cais dos que se sabiam...

E sabia brincar de contos. De ilustres pontos! 
De sons sem mais.

E pescava o que não se via, duma sombra viva, duns doces sais...

E por saber tanto, tanto...  E amiúde!
...tão pouco do saber se valia.
Era antes onda que inunda.
Paz que se sente.
Alma que espia.

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