
Sorvete de flocos. Nunca me foram tão interessantes. Porque não há motivo de maior felicidade do que receber um cartão postal da infância alheia e concomitantemente um convite para percorrê-la com os pés descalços. Simplesmente mergulhar nos misteriosos sorvetes de flocos. Simplesmente o mistério de sua composição. Simplesmente o mistério da infância ressuscitada.
Mais incrível do que lembrar dos gostos dos biscoitos que não voltam mais...dos aromas que marcaram as ansiedades...das brincadeiras, e mais ainda, das sensações que elas geravam... é conseguir lembrar das sensações da infância alheia sem tê-las vivido naquele corpo, e no respectivo ambiente e segundo em que foram retratadas.
Por mais censuradas que as crianças sejam, há sempre uma compreensão maior para que se joguem na grama molhada de chuva a fim de rolar imitando um peixe e para que deslizem com as mãos sujas de sorvete de flocos pelas paredes de casa. Ah! Antes o rótulo de mal educada do que o de louca!
Tornar-se adulta requer a habilidade de deixar impulsos inocentes de lado, com a chamada precaução de não constranger alguém.
E quando deixar de inventar coreografias no meio de uma rua cheia e com barulhos ensurdecedores de buzinas, começar a fazer com que esse adulto constranja a si próprio? Porque não há nada de mais constrangedor do que ter que esconder impulsos infantis e o respectivo brilho nos olhos que esses geram...
Pobres os adultos que pensam ser loucura ou bebida os mergulhos infantis do seu “semelhante”...
Ah! Mas as crianças merecem ainda mais os esforços da advocacia...
Afinal, dificilmente lhes é concedido o direito a defesa...
Qual o problema da criança não gostar da outra e de não querer que a outra estrague o seu brinquedo? Por que a criança não tem o direito de ficar triste com algo que ouve? Por que é acusada de fazer manha sempre que uma lágrima visita seus olhos? Por que censurá-la se o desejo de comer o bombom naquele momento inunda a sua vida inteira? Crianças não se tornarão os homens e mulheres do futuro. Já o são.
Eu não posso deixar de compartilhar a delícia que foi ler Quando eu voltar a ser criança de Janusz Korczak. Um livro convidativo, comprado num sebo, com uma dedicatória de um sujeito chamado Lula para outro chamado Jorge. O Lula pede ao Jorge que depois lhe empreste o livro. Se esse foi emprestado, não sei. Só sei que gostaria que todos que conheço o lessem. Uns mais. Outros com menor intensidade.
O que importa é que para mim esse livro não é apenas um livro que emociona.
Trata-se de um divisor de águas.
Janusz foi um homem que teve a oportunidade de fugir do gueto de Varsóvia onde ficou em confinamento com as duzentas crianças do seu orfanato, mas não conseguiu abandoná-las e acabou sendo arrastado ao campo de concentração de Treblinka.
Janusz traduz com delicadeza sensações que descobri guardadas num lugar muito especial dentro de mim. Sensações que me fazem sentir ainda mais amor e compaixão pelas crianças, responsáveis mor do pouco de espontaneidade que ainda paira por aí...
É de suma importância relatar as dedicatórias do autor...
“ Ao leitor adulto
Vocês dizem:
- Cansa-nos ter de privar com crianças.
Tem razão.
Vocês dizem ainda:
- Cansa-nos, porque precisamos descer ao seu nível de compreensão.
Descer, rebaixar-se, inclinar-se, ficar curvado.
Estão equivocados.
Não é isso o que nos cansa, e sim, o fato de termos de elevar-nos até alcançar o nível dos sentidos das crianças.
Elevar-nos, subir, ficar na ponta dos pés, estender a mão.
Para não machucá-las. “
“ Ao leitor jovem
Vocês não encontrarão neste romance aventuras palpitantes. É uma tentativa de romance psicológico.
Em grego, “psyche” quer dizer “alma”.
O assunto deste relato é aquilo que acontece na alma do homem: o que ele sente, o que pensa.”
Janusz, se pudesse encontrá-lo um dia, na dimensão que fosse, teria imenso prazer e necessidade de dizer que não há aventura mais palpitante do que aquilo que acontece na alma do homem. Obrigada pelo que fez acontecer na minha.
Que saudade de visitar esse blog, gente! Saudade de ler você aqui, Nathy, de cada vez conhecer mais você por aqui! As crianças me encantam, e me encanta mais ainda quem consegue carregar a vivacidade da infancia em si, e é isso que acontece com vc, amiga! Muitas saudades! Beijos muitoo saudadosos!
ResponderExcluirsauDAdosos mesmo! hahahaha
ResponderExcluirEii Nathália, nossa quanto tempo neh. Bom, vou falar a verdade, não li nada dessa sua postagem, mas fique tranquila que quando estiver um tempo mais livre eu vou ler. Tenho certeza que certamente são palavras sábias de uma iniciante escritora, aliás, não sei bem se é tão iniciante assim. Só estou deixando um recadinho para dizer o quanto estou feliz pela sua vitória na UFRJ, pelo qual acompanhei uma pequena parte dessa luta e que sempre torci por vc. Bom que consegui falar com vc, e derrubar certos mals entendidos. Continue escrevendo suas palavras e sabedorias para o bem da cultura e dos leitores apaixonados. Mil Beijoss
ResponderExcluirQuerida e amada filha,
ResponderExcluirEstou extremamente emocionada. Lembro-me do livro “ Gertrude” de Hermann Hesse comprado no mesmo sebo , o qual veio com dedicatória , anotações nas margens e destaques de textos. Cada anotação e destaques feitos pelo Outro desconhecido, levava-me a refletir e divagar. Temos duas histórias entrelaçadas, a contada pelo escritor e a história que imaginamos sobre o Outro o qual o livro um dia pertenceu. . Percebo que é uma grande vantagem comprarmos livros em sebos, pois podemos ser agraciados com duas histórias!
A sua sensibilidade sempre me comove. Como é delicada a felicidade que nos pega de surpresa. Suave como a brisa que nos envolve. Acaricia. . Sinto essa felicidade ao ler seu texto. Belo, sensível, tocante. Com certeza. lerei “Quando eu voltar a ser criança” .. Será o próximo livro da lista. Flocos de alma. Lindo!
Não posso deixar de dizer que sua aprovação para a Faculdade Nacional de Direito –UFRJ , que você tanto desejava foi uma grande vitória! Mérito totalmente seu. Recordo que acordei assustada com seus gritos ao ler o resultado.. Por que não podemos gritar de felicidade, amor, paixão? Gritemos! Aqueles que não suportam os gritos da vida pulsante que tampem os ouvidos. Regras, tratados e convenções para demonstrar sentimentos genuínos? Mas o Direito não dita regras? Aprenderá que o Direito é muito mais que um sistema de regras rígidas , teorias e doutrinas(muitas delas arcaicas e amareladas) e códigos empoeirados. O direito não ameniza a dor daquele que perde um ente amado .. Não diminui a dor da perda. Não tem esta pretensão. E nem poderia. . Mas o direito pode salvar a vida de alguém ao lhe conceder defesa. O direito pode trazer de volta o sorriso de um homem ao lhe devolver o sentimento de dignidade quando violado por outrem.. O direito pode ser o abraço que necessita a mãe que perde o filho. O direito deve ser o amparo das crianças e dos velhos abandonados.
O Direito deve ser um instrumento de resgate da humanidade perdida. .
Não podemos permitir que a humanidade seja esmagada pelo comodismo, passividade, orgulho e ausência de fé na vida. Lembre-se do que diz Ruy Barbosa na Oração dos Moços sobre a ira que humaniza, a indignidade que ilumina e quando a paciência, silêncio e omissão se tornam meros instrumentos que fomentam a injustiça social.
Flocos de alma, amor, compaixão. Elevarmo-nos até alcançar o nível dos sentidos das crianças. Estender a mão, sempre.
PARABÉNS!
Beijos,
TE AMO,
Mãe .
Que liiindo Nat!!!
ResponderExcluireu lembro muito bem do ano passado quando você ainda estava lendo este livro, e mais...
lembro de uma dia em que saíamos do curso e caminhávamos para a sua casa, não lembro da conversa, até porque durante aqueles dias conversávamos MUITO, mas lembro que você agiu como criança, fazendo palhaçada no meio da rua e eu te recriminei por isso. hoje, quer dizer, logo depois daquela sua ação "infantil" me arrependo do que fiz, porque, realmente, concordei com você... "Por que recriminar uma pessoa por uma atitude que teoricamente não lhe pertence? por que somente as crianças tem esse direito?"
Realmente amiga... qual o problema disso? todos já fomos criança um dia e todos AINDA temos uma criança dentro de nós!
Deixemos transparecer cada pensamento infantil, cada ação de criança... para demonstrarmos nosso verdadeiro eu! porque esse somos nós!!!
Beijos liinda!!
TE AMO
Correção:" "levavam-me" ;
ResponderExcluirbjs com muito amor , e leia a Oração dos Moços de Ruy Barbosa , é MUITO antiga, mas incendeia o coração. Vou procurar em meus diretórios o Discurso de Paraninfo proferido pelo constitucionalista Luiz Roberto Barroso na UERJ,pois é muito especial. São flocos de alma jurídicos ! .Acho que eu sou "suspeita" quando o tema é Direito rsrs
CR
Crescer é emburrecer. Pena que só nos damos conta disso quando crescidos, mas mesmo assim muitos e muitos ainda não perceberam isso.
ResponderExcluirAdorei o texto!
Nathália,
ResponderExcluirParabéns pelo sucesso obtido na UFRJ. Com certeza foi uma grande vitória. Fico muito feliz em saber que ganhamos mais uma defensora incansável dos Direitos Fundamentais, Humanos e Sociais.
A Cláudia possui todos os motivos do mundo para ser uma mãe coruja como ela mesmo diz.
Belo texto.
Um abraço,
B.
Gabriel,
ResponderExcluiralém do sorvete de flocos havia um chocolate com algo dentro que você também não sabe a procedência, e espero que não descubra.
porém, imagine se um dia, por acaso, você der um passeio, e por algum motivo comprar esse chocolate sem saber que é esse chocolate e ao sentir o gosto acabar se lembrando de domingo?
ah...todos os flocos do mundo se tornarão ainda mais saborosos...
mil beijos.
José Roberto
ResponderExcluirMuito obrigada.
Obrigada também por visitar o meu blog e refletir sobre o que escrevo.
Que não percamos nunca o idealismo que nos move. Sem ele não há vida.
Não há sentido.
Nathália,
ResponderExcluirO Roberto é de uma simplicidade imensa. O nosso grupo é que se sente honrado em poder convidá-lo para palestras, seminários, etc.
È uma dádiva quando a vida nos concede amigos tão éticos, dedicados, simples, humanos,conscientes, justos, grandes companheiros de jornada, autênticos e sinceros . Por isso, ele é tão querido por todos os amigos.
Bjs
CR