
A primeira recomendação feita é a de que nos envolvamos. Entretanto, é apenas o resultado de uma recomendação implícita.
É preciso que se esteja disposto a abrir o coração.
De peito aberto, o envolvimento trata-se da conseqüência gerada. Porém, não se pode seguir o caminho que simplesmente se deseja, pois é essencial a transmissão da mensagem àquele que nem sempre está de peito aberto, aquele que nos sustenta.
E se tudo o que se passa nas veias necessitar ser sussurrado, será preciso que se sussurre alto, e que se preste atenção na entonação.
É necessário estudar o espaço a ser explorado. Afinal, não se pode permitir que expressão alguma seja omitida daquele que se permite assistir e consequentemente ser assistido, em ambas as concepções da palavra.
E por mais que se sinta dificuldade em encontrar palavras suficientes para a manifestação do que se quer passar, é de suma importância dizer o estritamente necessário. Aprende-se a valorizar cada palavra. Aprende-se tão intensamente o quanto, o valor do silêncio no momento oportuno.
O peito não só palpita. O peito não só estremece. O peito se deixa guiar pelo que ainda não recebeu nome. É sensação distinta de qualquer outra. Só é possível senti-la ali, entre um raio ou outro de luz por trás das coxias. Não há segurança capaz de distanciar alguma sensação típica do improviso. Essa, palpita entremeada. Permanece lá, intacta, vezes maior, vezes menor, mas sempre lá.
Ou melhor, ali, aí. Aqui.
E momentos depois, O sentimento, a inundação de todas as poesias em sais de lágrimas, não fosse o sentimento tradutor da estranheza que nos invade quando refletimos acerca do Infinito. Ah sim! É ainda maior que a inundação. É o sentimento que gosto de chamar de Universo, mesmo não sendo, ainda, e-xa-ta-men-te aquilo que queira dizer.
O Universo é quando se está ali, naquele espaço limitado, com um número tão limitado o quanto de espectadores, não fossem as centenas de almas que permeiam um só espectador, não fossem as milhares de almas a me permear. E são elas que me assistem, dos ângulos mais diversos possíveis. E são elas que me decodificam, de ângulos até mesmo inimagináveis. Elas me assistem de dentro.
O proibido não é bem-vindo. O individualismo, repudiado. Não há maneira bela de se construir uma cena sem o interesse pelo outro. Não só pelo que o outro fala, como pela maneira que o faz. Não só pelo que o outro ouve, como pela maneira que ouve. Não só pelo que o outro sente, mas principalmente pela forma que o outro se dedica a esse sentimento.
Contracenar ensina a maneira ideal para gerar as reações desejadas no coração do espectador: a valorização, primeiramente, daquele que o observa do mesmo plano. Atuar requer, sobretudo, a habilidade de ouvir. Contracenar é uma dança que por mais que se saiba os passos, é necessário que se saiba dançar no ritmo apresentado, seja esse o ensaiado ou não.
Seguidas todas as recomendações, é imprescindível o retorno à primeira.
Primeiramente e finalmente o peito se abre.
Por favor, façam silêncio: as cortinas também se abriram.
Nathália,
ResponderExcluirPaixão . Arte. Entrelaçadas. É um bálsamo começar o meu dia de trabalho com a leitura do seu texto. Cortinas abertas para a emoção.
Em uma das cartas enviadas a Suvórin, Tchékhov escreveu “Meu cérebro alça vôo ,para onde ele irá, eu não sei” (Carta 25). Os seus pensamentos voam longe . Não se permita deixar de alçar voos. Muitos personagens das peças de teatro de Henrik Ibsen vivem do remorso da vida não vivida.
Você coloca que o proibido não é bem-vindo. Não existem temas proibidos na Arte. Dostoiévski no fenomenal romance "Os Demônios" coloca que não se pode fugir dos personagens mediocres, criminosos, vulgares, mesquinhos. Não se foge da vida.
E por falar em proibição na Arte, lembro com muita emoção quando vivenciamos “A Dança” de Matisse no museu Hermitage. Sim, uma obra de arte se vivencia . A pintura A Dança representa o movimento, o fogo, a dualidade, a fertilidade .Matisse foi considerado o pai do fauvismo (do francês-fera ) que à época fez explodir de indignação aqueles que não compreendiam seus quadros considerados desenfreados . Era preciso colocar um freio naqueles "animais selvagens", os fauvistas, que escandalizavam com suas cores berrantes. O termo desenfreado foi transcrito da obra que eu trouxe do Hermitage , pois assim eram consideradas as pinturas de Matisse: desenfreadas! Os verdadeiros artistas ou amantes da Arte, não são presas fáceis daqueles que não alçam voos. Seres que possuem mentes aprisionadas.
Você fala em recomendações. Na verdade, você fala do sentimento pela Arte. Do envolvimento do artista. Lembro que um desconhecido me disse que saber escrever era ter estilo e cortar palavras . Na verdade, ele ditou técnicas de escrita encontradas em manuais. . Como dizem Ernesto Sabato e Mario Vargas Llosa são técnicas, e técnicas se aprendem. No entanto, emoção, entusiasmo e paixão não se aprendem em manuais. O desconhecido, também me disse que era importante ter calma. È possível imaginar Van Gogh aprisionado na calmaria ? È possível imaginar os fauvistas calmos e regrados? È possível imaginar Proust “enxugando texto” sem parar? Os parágrafos e as descrições de Proust são enormes! È indiscutível o valor de " Em Busca do Tempo Perdido". Penso que não se deve esmagar a capacidade criativa do artista em favor das técnicas. Como disse Sabato e Llosa, as técnicas se aprendem. No entanto, a capacidade criativa é primordial. O desconhecido não estava certo ou errado. È apenas um ponto de vista baseado nas técnicas que eu respeito. Contudo, penso que não adiantam as técnicas se não estiverem acompanhadas da emoção e do entusiasmo. . Um peito seco não palpita. Não germina sementes .
Você tem paixão. Entusiasmo. Emoção.. Um peito que palpita. Um olhar que brilha.
Por favor, façam silêncio: as cortinas também se abriram!
Meus eternos e emocionados aplausos,
Cláudia.
PS: E por falar em técnicas, como estudante de Direito estudará Hermenêutica jurídica e Filosofia do Direito, o que levará ao estudo de alguns filósofos. Vale a pena a leitura de "A arte de ter razão” (mesmo sem ter razão), de Arthur Schopenhauer. O filósofo nos mostra as armadilhas utilizadas com intuito de afastar ou desestabilizar o Outro em uma discussão, diálogo, etc.. Muitas dessas técnicas já eram utilizadas pelos sofistas na Grécia antiga. Um livro precioso para as “ salas dos tribunais”. . Lembrei-me do livro, pois estou indo para a sala de audiências, e presencio tais "técnicas" diariamente! rs bj
ResponderExcluirnataaaalia, olha só estão procurando uma loira de olhos claros para a malhaçao.
ResponderExcluirprocure a produtora da malhaçao é soh ver no site , ou ligue para a ca da globo
Muito obrigado por essas palavras. Que possamos ser cada vez mais expectadores e atores de uma história de virtudes e evolução.
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