terça-feira, 8 de junho de 2010

Perdoe-me Lev Tolstói.






1910: ano de sua morte
1911: ano da publicação e encenação de O cadáver vivo.

A obra foi escrita dez anos antes da sua morte.
Ele simplesmente não havia permitido que a obra tivesse repercussão.
Por quê?
Porque, segundo ele, era baseada em fatos.

Depois de lê-la, compreendi. Não eram simplesmente fatos. Eram relatos.

Um livro em mãos. Não um livro qualquer. A curiosidade no peito. Não uma qualquer.
Não aquela curiosidade que permitisse que o seu objeto fosse desvendado momentos mais tarde. Foi curiosidade honrada.
Um livro que não era para estar em minhas mãos.
Um livro que só estava diante dos meus olhos, por desrespeito à vontade do seu autor.
Eu me sentia inundada de curiosidade honrada.
E concomitantemente, um pouco criminosa.
Estava prestes a mergulhar em relatos que não desejavam ser relatados.
Estava eu e o livro, a intrusa e o baú de mistérios. Antes fosse um baú qualquer.
Não era. Ao abri-lo luzes e mais luzes adentrando meus devaneios. Eram jóias a enfeitar minhas reflexões.
Não pude evitar.
Não pude me desvencilhar da tentação.
Crime cometido sem maiores dores na consciência.
Abri-o e devorei-o.


Fatos tão surpreendentes que seria mais fácil acreditar que foram grandes feitos da criatividade tolstoiana.
Características marcantes. Extremamente marcantes. Porém, não há polarização clichê.



Fiódor Vassílievitch Protássov, meu querido Fiédia,

haveria tantas formas de descrevê-lo, mas somente uma a fim de honrar o que havia de melhor no senhor. Tenha certeza, essa foi a escolhida.
E posso dizer que embora reconheça as suas falhas, elas realmente não se deixam ser concretizadas como maiores em relação às suas boas intenções.
Não é simplesmente pelo fato de a morte reconciliar, como Anna Dmítrievna diz. Também não é de meu desejo, inferiorizar o seu ato. Ato esse, necessário para que se tornasse notório que a sua decisão de rompimento com Lizavieta não se tratou da fuga mais fácil. Não se tratou da fuga covarde, tragada com o gosto e odor da paixão de Macha, como o senhor mesmo diz: um amor puro, abnegado: dá tudo sem exigir nada.
Foi um ato de bondade, por mais que o tenha feito por enxergar em Liza e em Víktor a qualidade de bondade que não enxergava em si próprio. Foi um ato de coragem.
Mas foi, sobretudo, um ato de quem leva o bom senso às últimas consequências.
Lembrarei do senhor.




Querida Liza,

por mais difícil que a vida tenha se tornado para você, por conta das irresponsabilidades cometidas por Fiédia, ficou claro que a maior batalha travada foi consigo própria.
A decisão de lutar contra o amor sentido por Víktor e a dedicação ao amor à Fiédia a ponto de pedir ao próprio Víktor que fosse atrás do seu marido...
Tenha certeza Liza, que se Fiédia cometeu ato tão impactante, foi por notar que era o grande obstáculo na luta travada entre duas Lizas, ambas nutridas por amor, embora fossem almas conflitantes. Fiédia percebeu que era necessário o adeus para que as suas duas almas fizessem as pazes, pois seriam almas que não poderiam continuar vivendo em conflito até que uma vida jovem como a sua, acabasse em mera poeira triste sobre um ponto frio da Rússia.
A sua decisão de permanecer ao lado de Fiédia não foi um ato menor do que aquele cometido por ele. Não se sinta culpada. Digo isso porque penso que haja a possibilidade de se sentir assim algum dia, não por considerar que deva se sentir assim, mas simplesmente por ser suscetível a isso, sendo quem é.
Não há que se ter pena de Fiédia.
A sua missão que chega a beira da obrigação, digo já pedindo desculpas pela intromissão, é manter a convivência amigável entre as suas almas e se permitir ser feliz, já que a sua felicidade, foi a grande dama dessa história, presa em uma torre inatingível.
Enquanto sacrificou a sua felicidade, lutaram por ela ao ponto de escorrer sangue e discórdia.
Portanto, minha querida Liza, não coloque barreiras à sua felicidade.


Querida Anna Pávlovna,

a senhora me surpreendeu muito. Em um contexto que o comum seria que adotasse a postura de Sacha e talvez, que ela adotasse, portanto, a sua, não foi isso que ocorreu.
A senhora se permitiu sentir o amor que vai além dos preconceitos e convenções sociais. A senhora me deixou com vontade de passar uns tempos nesse frio russo mais uma vez. Embora, dessa vez com mais desejo, já que quando estive aí, não havia conhecido seus pensamentos.
Como disse: "qualquer coisa é melhor do que destruir uma vida jovem."
Eu a admiro.


Querido Víktor,

imagino o quão triste deve ter sido passar por isso. Imagino o quão triste deve ter sido amar Liza calado... a um ponto que expressar o seu amor por ela passou a ser deixá-la ser feliz da maneira que ela construia a vida ao lado de outro.
A atitude que teve ao procurar Fiédia...os anos a fio sentindo um amor sufocado...

Se há algo a aconselhar, se é que tenha permissão para isso, é que não deixe a chama do amor se apagar por ter sido permitido, finalmente, que queimasse.
Somente agora, ao contrário do que muitos pensam, o senhor verá se o seu amor é verdadeiro. Há pessoas que não conseguem amar as outras diante da falta de empecilhos. Essas, nunca amam as outras. Amam vencer as barreiras.
Não sabem elas nada sobre o amor. Não sabem que amar já é o próprio desafio, não por ser difícil, mas simplesmente por ser uma entrega que carece de energia todos os dias.






Não é necessário dizer que recomendo, já que o que recomendo não é que leiam.
Recomendo que se envolvam.
Recomendo que não julguem as queridas personagens, mas que as amem.

Ao se abrir um livro, é necessário que se abra a alma primeiro e antes de tudo.
Se não há, pois, como abri-la e deixar de lado preconceitos e superficialidades, não o façam.

O livro não precisa de leitores. São os leitores que precisam dele.

4 comentários:

  1. Querida Nathália,

    Foi uma surpresa feliz ler seu texto. Amo Tosltói. Adorei a carta que enviou aos personagens principais da peça!
    A peça foi baseada em fatos reais narrados em um processo judicial no qual estava envolvido o casal Grimer . Apesar dos fatos terem sido noticiados à época, o grande literato conhecido pela sua imensa integridade e humanidade, não permitiu que o drama fosse publicado para não dar margem ao sensacionalismo. A peça somente foi encenada após a morte de Tosltói.
    O interesse de Tolstói não era a intriga ou comentários maliciosos das pessoas sobre o caso, pois o escritor estava acima dessas baixezas. Basta ler suas obras, e conhecer um pouco da sua vida.
    Ao pensar na peça, o escritor confessou “como seria bom escrever uma obra em que fosse claramente refletida a fluidez do ser humano, o fato que ele próprio ora é malvado,ora é anjo, ora é sábio, ora é idiota, ora é forte, ora é um ser fraquíssimo” (Obra Completas). O literato quis escrever uma peça sobre incoerências, fraquezas, fracassos, incertezas, maldades, idiotices , e paradoxos que habitam todos os homens. A história é repleta de paradoxos.
    Tchékhov , apaixonadíssimo por Tolstoi , declarou à época “enquanto ele estiver vivo o mau gosto na literatura, todo tipo de vulgaridade descarada e chorosa, todo tipo de narcisismo áspero estarão longe e provavelmente na sombra” (Minha Vida na Arte) .
    Techékhov escreveu a Suvórin “” Os escritores deveriam desconfiar de todas as invencionices e epopéias amorosas. Se Zola escrevia baseado em rumores (...), então ele agia com leviandade e imprudência” (Cartas a Suvórin –Carta 25).

    A literatura não se presta aos rumores, intrigas, ataques aos desafetos, não é remédio cicatrizante ou instrumento de vingança. Literatura é Arte. Não há como deixar de dar razão para Tosltói e Tchéhkov.
    "O Cadáver Vivo" foi escrito quando Tolstoi estava bem idoso. Demonstra um olhar compreensivo e suave para sofrimento humano. Não importa se um dos personagens é um alcoólatra que vive à margem da “alta sociedade” com suas convenções, tratados , etiquetas, máscaras e espetáculos ( A sociedade do espetáculo como diria bem posteriormente Guy Debord?), e mesmo sendo possuidor de um bom coração , é abandonado por todos, o que importa é que ele é um homem , e não merece chacota. Talvez esse seja o divisor entre aqueles que possuem grandeza humana, e os que vivem como se estivessem em um baile de mascarados que nunca termina, e dançam sempre conforme a música, mesmo que ensurdecedora.
    Em "O Cadáver Vivo", as palavras não são tão importantes, mas o que acontece com os personagens. È preciso sentir as variações de tons e nuances, as sutilezas dos contrários, e a chamada lógica dos paradoxos. A peça também trata da hipocrisia, e a busca da autenticidade. A negação da “verdade” estabelecida, imposta e aceita por todos sem questionamentos..
    Parabéns, minha filha. Você é uma jovem que possui asas como os passarinhos e doutorado em formigas com diz o meu amado Manoel de Barros para quem a delicadeza interage com a vida .(O Provedor, Formigas, Árvore, Miró- Livro de poemas “ Ensaios Fotográficos”) .
    Talvez um dia você possa voltar em Iásnaia Poliana. Cito novamente Manoel de Barros: “Nunca morei longe do meu país.Mas padeço de lonjuras. Desde criança minha mãe portava essa doença. Foi ela que me transmitiu”(A DOENÇA _ Ensaios Fotográficos. )
    Com todo meu amor,
    mãe.

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  2. Uma poesia linda para você que não se apega em dogmas! O poema Liberdade de Paul Éluard foi levado clandestinamente da França ocupada pelos nazistas, para a Inglaterra, pelo pintor Cícero Dias.
    Segundo registros, a poesia foi lançada por aviões dos aliados nos céus da Europa, em 1943.

    LIBERDADE
    Paul Èluard

    Nos meus cadernos de escola
    Nesta carteira nas árvores
    Nas areias e na neve
    Escrevo teu nome

    Em toda página lida
    Em toda página branca
    Pedra sangue papel cinza
    Escrevo teu nome

    Nas imagens redouradas
    Na armadura dos guerreiros
    E na coroa dos reis
    Escrevo teu nome

    Nas jungles e no deserto
    Nos ninhos e nas giestas
    No céu da minha infância
    Escrevo teu nome

    Nas maravilhas das noites
    No pão branco da alvorada
    Nas estações enlaçadas
    Escrevo teu nome

    Nos meus farrapos de azul
    No tanque sol que mofou
    No lago lua vivendo
    Escrevo teu nome

    Nas campinas do horizonte
    Nas asas dos passarinhos
    E no moinho das sombras
    Escrevo teu nome

    Em cada sopro de aurora
    Na água do mar nos navios
    Na serrania demente
    Escrevo teu nome

    Até na espuma das nuvens
    No suor das tempestades
    Na chuva insípida e espessa
    Escrevo teu nome

    Nas formas resplandecentes
    Nos sinos das sete cores
    E na física verdade
    Escrevo teu nome

    Nas veredas acordadas
    E nos caminhos abertos
    Nas praças que regurgitam
    Escrevo teu nome

    Na lâmpada que se acende
    Na lâmpada que se apaga
    Em minhas casas reunidas
    Escrevo teu nome

    No fruto partido em dois
    de meu espelho e meu quarto
    Na cama concha vazia
    Escrevo teu nome

    Em meu cão guloso e meigo
    Em suas orelhas fitas
    Em sua pata canhestra
    Escrevo teu nome

    No trampolim desta porta
    Nos objetos familiares
    Na língua do fogo puro
    Escrevo teu nome

    Em toda carne possuída
    Na fronte de meus amigos
    Em cada mão que se estende
    Escrevo teu nome

    Na vidraça das surpresas
    Nos lábios que estão atentos
    Bem acima do silêncio
    Escrevo teu nome

    Em meus refúgios destruídos
    Em meus faróis desabados
    Nas paredes do meu tédio
    Escrevo teu nome

    Na ausência sem mais desejos
    Na solidão despojada
    E nas escadas da morte
    Escrevo teu nome

    Na saúde recobrada
    No perigo dissipado
    Na esperança sem memórias
    Escrevo teu nome

    E ao poder de uma palavra
    Recomeço minha vida
    Nasci pra te conhecer
    E te chamar
    LIBERDADE.

    Tradução: Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira

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  3. Ao comentar seu texto ,eu escrevi sobre o baile dos mascarados . No inicio da carreira, Balzac escreveu um folhetim muito pouco conhecido em que utilizava o baile dos mascarados como metáfora. Uma sátira irônica sobre a hipocrisia e a sociedade francesa. Não importa qual a música, os passos ou a dança . O que importa é que a máscara não pode cair. O baile ( o intricado sistemas de regras, normas, rótulos, etc ) não pode parar. A face permanece tão oculta que perde o frescor, e os homens não mais se reconhecem.
    Balzac foi um gênio que tinha consciência dos seus vícios. Ironizava a si próprio. Ria de si mesmo, não escondia o seu egocentrismo, e o quanto poderia ser ridículo (certa vez comprou 42 pares iguais de luvas amarelas de suedine) . A forma como lidava com os vícios (muitos inseridos em personagens) e fracassos é descrita em duas biografias que eu li. Atraiu muitos admiradores como Victor Hugo, antes mesmo da fama literária. É conhecido o jantar que Victor Hugo fez para os amigos na cela em que Balzac ficou quando foi preso. Morreu aos 50 anos escondido dos credores naquela casa em que estivemos. Conseguiu que a rústica e antiga escrivaninha onde escreveu A Comédia Humana, não fosse penhorada nos diversos confiscos que sofreu. A escrivaninha o acompanhou até na prisão! Deixou uma obra inestimável citada por Engels como uma das melhores para conhecer a economia da França no século XIX. Um homem incorrigível que deixou um imenso legado. A perfeição humana é falsa. Não existe. E se existisse, provavelmente seria tediosa ou depressiva. Ao escrever sobre Balzac , lembrei-me de um poema de Fernando Pessoa .
    POEMA EM LINHA RETA

    Fernando Pessoa
    (Álvaro de Campos)


    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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  4. O seu texto me fez lembrar de como é tentadora a ideia de visar o se envolver com o proibido, o que torna qualquer descoberta muito mais saborosa. Me senti totalmente atraída pela historia do livro e vou colocá-lo na minha lista dos próximos a serem lidos, sem duvidas. Lidos não, devorados e vividos, porque um livro não é apenas para ser lido e sim vivido!

    Te admiro cada vez mais, amiga.
    E esse é só o começo da sua caminhada brilhante!
    Te amo

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