
“O tempo não a faz murchar, nem o hábito azeda sua infinita variedade;
Outras mulheres saciam os apetites que alimentam; mas ela deixa faminto quanto mais satisfaz.” Shakespeare (Antônio e Cleópatra)
Havia algo de magnífico nos olhos. Algo de convidativo.
Simplesmente um mistério que convida ao mergulho, doa as sensações de conforto que só a água traduz, doa belas paisagens e só.
Não há tempo de vida suficiente para que se desvende.
Simples e puramente por não haver maneiras de se desvendar.
Há um mistério intocável repousado profundamente em seus olhos.
E por mais que a boca se esforce a todo tempo para desvendá-los, não atinge sua intenção.
É inexplicável. Não condiz com a língua dos homens.
E o que se conserva da angústia que gera, nasce do fato de os homens não se contentarem com a realidade.
A encantadora realidade de que há olhos desenhados e guiados pelo mistério divino.
Nem a mais nobre e inteligente tentativa seria capaz de desvendar os segredos desses olhos tão próximos e tão distantes. Pura e simplesmente por não ser viável aos homens.
E amar esses olhos sem que se possa possuí-los por inteiro, faz com que os homens desejem o inatingível: conquistar a habilidade divina, embora seja pensado que até mesmo Deus tenha se esquecido do segredo que criou para aqueles olhos.
São olhos que até mesmo Deus não entende; assim como um artista que pára e paira admirado e atormentado diante da obra de arte e sente a certeza que o transborda:
a pura certeza de que não há formas de reproduzir o que fora produzido.
Nas inspirações vivem os mistérios, por isso indecifráveis.
A obra é misteriosa pela impossibilidade de desvendar a inspiração que lhe dá forma.
Há olhos que respiram inspiração, misteriosa e encantadora por si só.
Querida filha,
ResponderExcluirO seu profundo texto fala dos mistérios . Penso que não devemos ter a arrogância de tentar decifrá-los, como se estivéssemos brincando de quebra-cabeças. O seu texto, levou-me até Clarice Lispector para quem o visível é apenas um sinal.Otto Lara Resende escreveu que “Clarice sabia de antemão o que há de patético e frágil em todas as aparências. O que o convencional encobre, o que se esconde por trás do cotidiano e do familiar.È preciso ver além do evidente. O visível é apenas um olhar (...) A incógnita do mundo, Clarice não fez questão de resolvê-la (...) Atrás dos seres. O ser”. (LINGUAS DE FOGO –Claire Varin- Ensaio sobre Clarice Lispector)
È justamente o que o seu texto me diz: O mistério que não pode ser desvendado por ser inviável aos homens. Indecifrável.
A reflexão sobre o seu texto , levou-me, ainda, ao filme/documentário “Ponto de Mutação”, baseado no livro de Frijof Capra, passado na bela ilha em que estivemos em Mont Saint Michel. Filmaram em meio à solidão, para que pudéssemos sentir a passagem da horas, o lindo jogo das máres ,e quando as águas começam a envolver o Monte. As passagem das horas, as fases da lua, e as marés mudam o cenário do Monte Michel, emoldurado por uma fortaleza medieval com seu monastério repleto de arcadas e colunas, e uma abadia que de tão bela é chamada de “La Merville”. O monastério e a abadia ficam situados no alto de um imenso rochedo com suas construções em pedras antigas que formam um labirinto de ruelas estreitas, escadarias, esculturas, passagens ora escuras, ora sombreadas, ora iluminadas por uma fresta de luz que nos fazem voltar no tempo, como se estivéssemos percorrendo uma parte da Europa medieval. No meio desta áurea, uma física nuclear (Liv Ullman) que se afasta voluntariamente de um grande projeto por questões éticas, um senador famoso derrotado em uma eleição para presidente dos EUA(Sam Waterston) e um poeta (John Heard) nova-iorquino que não mais suporta o “way of life”, dialogam sobre a natureza e o homem , Descartes, o caminho da ciência, física quântica , Eisntein, poesia e enigmas. Sim , o poeta ao declamar "Peixe Preso dentro do Vento" de Pablo Neruda surpreende a cientista em suas verdades .
Talvez os nossos conhecimentos tão ostentados, exibidos, difundidos sobre o que significa o real, possam ser apenas representações repetitivas. Modelos que consideramos ideais, e que buscamos para nos socorrer no meio do caos, quando insistimos em desvendar o mistério. Não sei. Apenas divago. È tão bom divagar, principalmente quando se trata dos seus textos, e outros para os quais sou transportada.
Os seus olhos....Os seus possuem tantos mistérios...
bjs
Mãe.
PEIXE PRESO DENTRO DO VENTO
Tu perguntas
o que uma lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados?
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera em sua veste transparente?
Está esperando pelo tempo, como tu.
'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas
'mais firme que uma hora e um mar certos?' Eu sei.
Perguntas sobre a presa branca do narval
e eu respondo contando como o unicórnio do mar,
arpado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei-pescador
que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano sabe isto:
que a vida, em seus estojos de jóias,
é infinita como a areia incontável, pura;
e o tempo, entre uvas cor de sangue
tornou a pedra dura e lisa encheu a água-viva de luz,
desfez o seu nó, soltou seus fios musicais
de uma cornicópia feita de infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão
e de dedos habituados à longitude
do tímido globo de uma laranja.
Caminho como tu, investigando a estrela sem fim
e em minha rede, durante a noite, acordo nu.
A única coisa capturada é um peixe preso dentro do vento.
Pablo Neruda (1904-1973)
O que (mais!) se esconde por detrás desses seus olhos, hein? Lindo texto.
ResponderExcluirDepois de toda a nossa conversa de ontem me senti inspirada ao ponto de conseguir comentar algo a altura do mistério. Mistério que talvez tenha tomado conta do próprio autor e o surpreendido a tal ponto de fazê-lo refletir sobre a real inspiração que o fez criar algo tão magnífico, que nem ele consegue explicar. As pinceladas de uma tela, a composição das palavras de um poema, trazem a tona a essência de um momento único na vida de um homem, momento que mesmo com qualquer tipo de esforço jamais poderá ser retomado ou lembrado com tamanha clareza. O que seria o mistério? Do onde ele teria surgido? Só nos cabe conseguir identificá-lo e com isso podermos saborear o turbilhão de emoções que ele nos proporciona.
ResponderExcluirPS: Talvez a gente não se de conta do quanto nossas reflexões nos acrescentam, o quanto tornam a nossa existência e a nossa busca pelo saber mais intensa e diferenciada. Preciso te agradecer por não deixar o mistério sair da minha vida e por dar a assas.
MISTÉRIO. Importa sabê-lo? Importa decifrar-lhe? O que se sabe, já não surpreende. O que não surpreende, talvez não inspire.
ResponderExcluirSegundo Albert Einstein “A mais bela coisa que podemos vivenciar é o mistério. Ele é fonte de qualquer arte verdadeira e qualquer ciência. Aquele que desconhece esta emoção, aquele que não pára mais para pensar e não se fascina, está como morto: seus olhos estão fechados.”
Como leitores, lendo suas palavras, somos regozijados com mais um mistério, que nos proporciona fascínio, contemplação e, mais uma vez, respeito pelo mistério. Clarice Linspector, que também sempre me fascina, escreveu que “A criação não é uma compreensão, é um novo mistério."
Seu texto, portanto, aliás, seus textos nos mantêm sempre alegremente abertos ao mistério e a tudo que ele pode nos oferecer.
Liane
Grata por mais essa inquietude oferecida.