quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Da sua terra vermelha, dono ou integrante?


Foi preciso que um italiano viesse aqui e mostrasse ao mundo a questão dos índios Guarani-Kaiowá. Porém, que bom que o fez e que ótimo que o fez da melhor maneira que poderia ter sido feita. Terra Vermelha vale simplesmente pela cena em que o índio pega a terra e a come fitando o fazendeiro em resposta ao que tinha sido dito por ele, sem precisar dizer uma só palavra. Dentre várias cenas emocionantes, essa foi sem dúvidas a que mais me emocionou.
É inexplicável quando sentimentos tão profundos são demonstrados sem que nenhuma palavra necessite ser mencionada. Talvez essa seja realmente a única maneira de demonstrá-los, já que estão além de qualquer horizonte já alcançado pelas palavras. Talvez seja por isso que me emocionei tanto nessa cena em especial.
A principal questão que me fez refletir foi a de que existe uma grande distância entre ser proprietário de algo e fazer parte de algo. A questão de que os índios se sentem como parte da terra, mesmo que não sejam donos dela me fez pensar um pouco além disso, pois vi que essa questão relaciona-se com vários contextos da vida.
Ser dono de algo é ter o poder de decidir o que fazer com isso. Entretanto, quando se É algo, muitas vezes o sentimento é o de impotência e não o de poder. Podemos ser donos das nossas palavras, mas não de nossos pensamentos. Ter algo sob controle não é sinônimo de autênticidade alguma, muitas vezes pelo contrário, tendo em vista que aquilo de mais incontrolável dentro de nós representa o grito que traz o que somos à tona, sem mais nem porque. Ou melhor, com seus porquês indecifráveis.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A venda da alma vegetativa.


São tantos os livros que tenho vontade de ler, alguns na estante, outros somente títulos na memória. Faço a escolha de acordo com o momento da minha vida, não necessariamente com o que sinto afinidade. Há de se ter momentos quase egoístas, de lermos somente aquilo que fala por nós. Há de se ter momentos mais cândidos, em que procuramos os outros olhares que ainda não tínhamos descoberto. Os outros caminhos que ainda não tínhamos pisado, seja por medo de emboscadas, seja por pura ignorância.
Deparei-me com um trecho do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa cujo heterônimo é Bernardo Soares, que me convocou a ler o livro. Não foi um convite qualquer. Foi uma solicitação da minha própria alma. Foi da alma que veio o apelo.


"Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. A sua vida humana é cheia de tudo quanto constituiria uma série de angústias para uma sensibilidade verdadeira. Mas, como a sua verdadeira vida é vegetativa, o que sofrem passa por eles sem lhes tocar na alma, e vivem uma vida que se pode comparar somente à de um homem com dor de dentes que houvesse recebido uma fortuna - a fortuna autêntica de estar vivendo sem dar por isso, o maior dom que os deuses concedem, porque é o dom de lhes ser semelhante, superior como eles (ainda que de outro modo) à alegria e à dor.Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais!"



segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Propriamente dito.


Pardalzinho
O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos!
Manuel Bandeira



Essa poesia, para mim, traz um grito de liberdade. Não aborda somente a questão da covardia humana em aprisionar passarinhos, vai além disso.
Os seres humanos gostam de admirar o que é belo em sua concepção, por isso prendem o passarinho? Discordo.
Os seres humanos que são capazes de prendê-los não admiram o belo, pois não há beleza maior do que um passarinho voando em liberdade. Prender um ser que poderia estar voando é o que se faz todos os dias, com as maiorias oprimidas. O mundo foi transformado em uma gaiola, em que aqueles que têm o poder, se sentem exatamente como os que prendem os passarinhos, inocentes.
A falta do sentimento de culpa está intimimamente ligada com o fato do ser humano , em sua  maioria, aceitar o que é proposto pela sociedade, sem questionamentos. Esse aceitar sem questionar, virou força do hábito.
Com isso, virou força do hábito quebrar as asas dos mais vulneráveis todos os dias. Virou força do hábito ver que isso está ocorrendo e permanecer inerte. Virou força do hábito fazer parte da engrenagem que prefere o conforto de viver na superficialidade. As "Sachas" inocentes e perversas de nossa sociedade, não estão somente naqueles e naquelas que fazem "o mal propriamente dito".
A omissão é um mal propriamente dito.

domingo, 2 de novembro de 2008

Ainda há quem pense que o lobo da estepe é de todo o mal?

Poderia ser qualquer flor, qualquer uma que pudesse renascer
mas a rosa foi a escolhida, tinha do prudente e do lobo em seu ser
vivia a doce tristeza de fazer sangrar seus espinhos
e a comoção estava em ser a donzela, que respiraria tranquila a vida
por enfeitar concomitantemente a sua despedida por ela

Não havia resposta ao caos
da doce ironia de carregar duas almas inimigas
vivia uma luta constante de querer e não querer
melhor seria ser outra flor qualquer, melhor ainda se girassol pudesse ser

Duas estrofes pequeninas que escrevi inspiradas no instigante Harry Haller, personagem de Hermann Hesse, quem sabe inspiradas em um pedacinho que encontrei de mim mesma, por mais que o pedacinho se encontre na busca por entender minha alma apenas. Há tantas por dentro.

domingo, 19 de outubro de 2008

Algumas interrogações que merecem ser feitas (?)


Quando o assunto é criança, as pessoas se comovem. Não é a toa que a audiência sobe em um instante quando esse tema é abordado. A questão é: As pessoas se comovem até que ponto?
Até se sentirem mal o suficiente e desligarem a televisão ou fecharem as janelas do carro ou começarem a fazer críticas ao governo a fim de quem sabe, "puxar um papo" com o vizinho?
Não, a televisão não é a mocinha da história. É fato que ajuda a banalizar assuntos delicados para que os pontos subam no ibope, mas e quem faz o favor de ficar confortavelmente sentado no seu sofá vendo a água toda transbordar sem tomar uma atitude sequer? ( água?! Grande eufemismo esse!)
As crianças estão nas ruas e as janelas estão fechadas. Não digo as janelas dos carros parados no sinal, essas seriam quem sabe uma metáfora, já que o indivíduo que dá trocados no sinal não faz nenhum bem, propriamente dito, ao caos que se encontra instalado.
O governo está aí com suas "façanhas", não é mesmo?! Entretanto, qual governo no mundo faz o que deve ser feito corretamente se a população não demonstrar que deve ser encarada como uma ameaça ao próprio? Era lição de casa para ontem refletir a culpa do caos. Em contrapartida, o cidadão que faz seu dever de casa tem tanto mérito que deve ser por isso que se esqueceu dessa lição em especial.
Cerca de 1,2 milhão de crianças são traficadas por ano, revela a Unicef e por mais que o número seja assustador, infelizmente o fato é visto simplesmente como mera estatística. Logo depois de ter tido o prazer e o desprazer de ler "O ano em que trafiquei mulheres" de Antonio Salas, fui ao cinema ver “Busca Implacável”, filme que aborda o tráfico de mulheres de uma forma um pouco eufemista, tratando-se do que ocorre no cotidiano, já que figuras como Bryan Mills não são lá muito comuns.
Trata-se da história de uma menina que é raptada e tem a sua virgindade leiloada, assim como está ocorrendo com muitas garotas nesse exato momento que aqui estou escrevendo, infelizmente de maneira muito mais drástica.
As pessoas continuaram comendo pipoca e ao final do filme carregavam uma expressão típica de quem vai assistir um filme de ficção cientifica. Era tanta frieza, tanta falta de noção de que o tema abordado é o terceiro tráfico, depois do de armas e drogas, que dá mais lucro no mundo, que cheguei a ouvir uma mulher fazendo uma piada com a outra assim: " Tá vendo "fulana" quando falo pra você continuar virgem não é a toa." (?)
O que posso dizer de "O ano em que trafiquei mulheres" de Antonio Salas é simplesmente de que todo ser humano deveria lê-lo. Todo e qualquer ser humano que tenha no mínimo um laço afetivo com uma pessoa sequer, nem que seja somente consigo próprio, para que quem sabe possa absorver um pouquinho do amor e dor, que faz com que Antonio Salas não seja só mais uma pessoa que nasce, cresce e morre.

sábado, 18 de outubro de 2008

Uma dose de Moude.


Fiquei muito contente por ler o comentário do Arlindo Lopes acerca do que eu comentei sobre "Ensina-me a viver". Nunca imaginei que o que escrevi chegaria aos olhos das pessoas responsáveis pela ocorrência do espetáculo. Entretanto, mais importante que escrever algo que acrescente àqueles que trabalharam duro para que algo de tão belo viesse à tona, é saber que o que escrevi pode ter feito com que algum "Harold", que necessitasse de uma semente de vida na existência, fosse assistir à peça e saisse de lá com a mesma mensagem no peito que foi passada para mim. Há "Harold" por todos os lados, independentemente da idade, sexo ou classe social.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Uma lição aqui, ali e acolá.



Foi muito emocionante assistir "Ensina-me a viver". Sem dúvidas o cenário estava lindo, os efeitos sonoros e visuais muito bem feitos e o elenco todo em plena harmonia, mas não há como negar que destacaram-se Glória Menezes e Arlindo Lopes, não somente por serem os protagonistas, havia algo a mais.

Uma peça arriscada, para uma sociedade que cultiva tantos tabus em torno do tema proposto. Entretanto, foi feita da maneira mais doce que poderia ter sido feita e fez com que a beleza do amor se sobrepusesse a qualquer preconceito social.

Havia suor e corações pulsando naquele palco, havia algo de tão verdadeiro respirando para fora das cochias, que não contive a emoção.

Foram tantas as mensagens passadas, mas há uma que ficou gravada em mim: A "idade da flor" é por demais relativa, sempre há uma chance para buscar ser como um girassol: alto, simples e em busca do sol.

Simplesmente, amei. ;)


sábado, 30 de agosto de 2008

Por não estarem distraídos

Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector

Na distração há o sentido...não materializado, que é o único que vale a pena, especial o bastante. ;)

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

“Cum Mi-am Petrecut Sfarsitul Lumii”


"Como Eu Festejei o Fim do Mundo" foi um filme que tive o prazer de ver há pouco. 
Trata-se de uma história passada durante o último ano da ditadura de Ceausescu (Romênia), em que a jovem Eva Matei é expulsa da escola, por ser acusada injustamente de quebrar o busto do ditador. A partir disso, a história dela e dos que estão a sua volta, começa a ser modificada consideravelmente, em um cenário que foi caminhando para o fim dos dias totalitários. Toda a força versus toda a doçura, de uma menina em fase de amadurecimento, que tinha ideais bem traçados a respeito do seu futuro e que representou mais o papel materno para o seu irmão caçula, do que a sua própria mãe.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

"A rosa radioativa, estúpida e inválida"

O que são 63 anos considerando os milhões de anos que o mundo coleciona?
Menos que um suspiro de vida...
Quantos suspiros dados? Quantos que não chegaram ao menos a desabrochar?
Quantas vidas perdidas?
Perdidas de esperança...do sopro essencial para qualquer jornada...
O mundo adormece sua memória e ainda há quem diga que a raça humana é superior às demais.



A Rosa de Hiroshima (Vinícius de Moraes)

Pensem nas crianças

Mudas telepáticas

Pensem nas meninas

Cegas inexatas

Pensem nas mulheres

Rotas alteradas
Pensem nas feridas

Como rosas cálidas

Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima

A rosa hereditária

A rosa radioativa

Estúpida e inválida

A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica

Sem cor sem perfume

Sem rosa sem nada

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...