Sentia-se sufocado. Era mesmo de atormentar a escassez de ar
no local puído.
Seus olhos pinicavam, como se areia ali repousasse.
Entretanto, à areia era suficiente o mar que a recebia.
Nem mesmo a areia desejava os sais dos seus olhos.
Eram olhos ressecados, de quem muito já chorou lágrimas de
outrora.
Olhos cansados, descrentes. Talvez dotados de auto-piedade
alimentada.
O homem empenhava tamanho esforço para inspirar o pouco ar
que restava.
E lembrava-se claramente de seu paciente.
Sabia de sua doença, dos sintomas, das consequências.
Mas saber não era suficiente. Não mais.
O homem que ali repousava suas memórias tristes, necessitava se certificar de que sua dor era ou não a mesma daquele que há tantos anos prestava socorro.
O homem que ali repousava suas memórias tristes, necessitava se certificar de que sua dor era ou não a mesma daquele que há tantos anos prestava socorro.
A falta de ar atingia seus órgãos como talvez atingisse a
alma do enfermo, que de câncer na garganta retorcia os olhos.
Ah! Não poderia ser mesma dor...
O Doutor, tão safo, tão bom, tão exato, agora chorava dores
de alma.
Em si, a dor fugia das estatísticas.
Não fosse trágico, cômico seria...
Aquele Doutor imponente, cheio de certezas e probabilidades...
Cheio de números, de quantidades...
Aquele Doutor poderia jurar por todos os dias que ainda restassem: ele poderia jurar que tamanha dor só por ele era sentida.
Não fosse trágico, cômico seria...
Aquele Doutor imponente, cheio de certezas e probabilidades...
Cheio de números, de quantidades...
Aquele Doutor poderia jurar por todos os dias que ainda restassem: ele poderia jurar que tamanha dor só por ele era sentida.
Aos seus pacientes, ainda menos compaixão. Sentia agora a
inveja doentia.
Ah... Porque o homem poderia jurar que dor física era melhor
de se suportar...
O homem já adulto, mas adolescente eterno.
Não pensava que uma dor levava a outra. Não queria pensar.
Era desses egoístas.
E ao não se compadecer da dor do outro, a sua, maior ainda
ia ficando...
Lá fora, o vento dançava nas folhas, nessas folhas das
árvores que ninguém mais vê, que ninguém mais nota...
Lá fora, crianças passavam sorrindo... de sininhos, de abelhinhas, de heroínas...
Lá fora, crianças passavam sorrindo... de sininhos, de abelhinhas, de heroínas...
Lá fora, um velho dormia na rua. Um velho que já teve casa.
Que já soube da dignidade de pagar suas contas.
Lá fora, uma mulher passava...
Aquela mulher que ele jurava só existir em sonhos.
Aquela mulher que ele jurava só existir em sonhos.
Ela passava lá fora. Num passo leve, certeiro e radiante!
Mas o homem insistia em ficar lá dentro.
Mas o homem insistia em ficar lá dentro.
Lá no seu casulo escolhido. Escondido. Esfumaçado.
E a mulher se ia toda...
E as crianças cresciam...
E o velho adoecia...E morria, pois faltava médicos que o
atendessem.
E outros e outros viravam os seguidores do Doutor...
Outros que nem o conheciam. Que nunca o viram.
Outros e outros numa tristeza cuja manutenção nasce e
floresce de um egoísmo doente.
Mas não se tratavam de seguidores que davam as mãos...
Cada um no seu casulo.
Na sua falta de ar.
Cada um na sua poltrona, de costas pro mar...

Nathy, a cada vez que eu leio seu blog, fico mais impressionado com o seu talento, com a sua capacidade pra escrever... Não só escrever, escrever bem! Mais que isso, escrever pensamentos, escrever sensações, emoções... Transmitir isso como poucos!!!
ResponderExcluirE a cada vez que eu leio, sinto mais orgulho também! Orgulho de vc, de te ver tão bem assim! Orgulho, também, de ter vc como amiga, como alguém que eu sei que posso confiar, como... sei lá... vc é mto mais que isso pra mim! Não sei explicar, colocar no papel, precisava de um pouquinho do seu dom pra isso. =P
Nathy, a cada vez que eu leio seu blog, fico mais impressionado com o seu talento, com a sua capacidade pra escrever... Não só escrever, escrever bem! Mais que isso, escrever pensamentos, escrever sensações, emoções... Transmitir isso como poucos!!!
ResponderExcluirE a cada vez que eu leio, sinto mais orgulho também! Orgulho de vc, de te ver tão bem assim! Orgulho, também, de ter vc como amiga, como alguém que eu sei que posso confiar, como... sei lá... vc é mto mais que isso pra mim! Não sei explicar, colocar no papel, precisava de um pouquinho do seu dom pra isso. =P
Se queria criar uma reflexão sobre a forma de enxergar os próprios problemas, conseguiu, pelo menos comigo haha
ResponderExcluirComeçou devagar, deu uma boa intensificada abordando a forma de pensar/sentir do médico e fechou de forma leve e suave...parabéns poetiza da FND =)
Se queria criar uma reflexão sobre a forma de enxergar os próprios problemas, conseguiu, pelo menos comigo haha
ResponderExcluirComeçou devagar, deu uma boa intensificada abordando a forma de pensar/sentir do médico e fechou de forma leve e suave...parabéns poetiza da FND =)