sábado, 5 de março de 2011
O Escafandro e a Borboleta.
Esses dias surgiu, em uma conversa, "O Escafandro e a Borboleta", filme inesquecível que assisti a cerca de dois anos atrás.
O filme conta o que ocorreu com Jean-Dominique Bauby, que era redator chefe da revista Elle, Jean-Dominique Bauby, casado e pai de dois filhos, no momento em que sofreu um acidente no dia 8 de dezembro de 1995, que o acometeu de uma doença rara responsável por toda a sua paralisia corporal, salvo a do olho esquerdo. Não bastasse esse sofrimento, ele continuou lúcido e em nada a sua capacidade de cognição foi afetada.
Jean não só aprendeu a se comunicar por meio da piscada do olho, como escreveu um livro com a ajuda da iluminada fonoaudióloga do hospital, só ditando com o olho as páginas que já havia decorado e feito as devidas correções mentalmente ao longo da noite.
É incrível o método que a fonoaudióloga trabalha, que consiste em começar a dizer as letras do alfabeto por seu maior uso na língua francesa, não por sua ordem correta. Incrível a maneira pela qual ela o trata, com paciência e determinação. Incrível a criatividade para tornar possível a comunicação, cuja falta ferve feito sangue nas veias de quem possui as palavras, os sentimentos, os desejos, mas não consegue expressá-los.
Um filme que não é simplesmente triste.
Basta dizer que é uma história real.
Um filme que não fala simplesmente de determinação e força.
Basta dizer que é uma história real.
Um filme que não nos permite o marasmo, não nos permite as desculpas que criamos para nos abstermos de grandes lutas, do passo a passo, do processo de conquista que implica seus obstáculos, nem sempre tão fáceis de se vencer.
Um filme que nos deixa diante do paradoxo da nossa fragilidade versus a nossa força, pois nas circunstâncias de maior impotência de Jean, nasceu a maior resistência à sua incapacidade repentina, tornando-o capaz escrever um livro como era de seu desejo.
Quantos planejam um livro e nunca o escrevem?
Não é simplesmente uma história de exemplo. É uma história a ser lembrada sempre que o fantasma do medo, das desculpas convincentes pautadas nos mais sólidos argumentos vier sussurar em nossos ouvidos, tocar nossos objetivos, assoprar os nossos sonhos.
Jean faleceu dez dias após a publicação do seu livro "O Escafandro e a Borboleta", no dia 9 de março de 1997.
O que estávamos fazendo no dia 8 de dezembro de 1995? O que cada um adia hoje que não permite publicar o livro de cada qual ou o que o simbolize em menos de dois anos? Não que o tempo seja crucial, mas impressiona-me como Jean conseguiu escrever e publicar um livro nessas condições em menos de dois anos.
Olhar para os filhos e não conseguir movimentar os dedos para fazer um carinho sequer. Olhar para a mulher e não conseguir abraçá-la. Não conseguir abrir a boca para dizer "eu te amo", não conseguir movimentá-la, sabendo que a voz existe. E sobretudo, os sentimentos.
Trecho por Jean-Dominique Bauby:
"Por trás da cortina de pano roída pelas traças, uma claridade leitosa anuncia a aproximação da manhã. Doem-me os calcanhares, sinto a cabeça apertada num torno, e todo o meu corpo está encerrado numa espécie de escafandro. O meu quarto sai lentamente da penumbra. Observo pormenorizadamente as fotografias dos meus queridos, os desenhos das crianças, os cartazes, um pequeno ciclista de folha enviado por um camarada na véspera do Paris-Roubaix, e o cavalete que sustenta a cama onde estou incrustado há seis meses como um bernardo-eremita sobre o seu rochedo.
Não preciso de reflectir durante longo tempo para saber onde me encontro e recordar-me de que a minha vida sofreu uma reviravolta naquela sexta-feira, dia 8 de Dezembro do ano passado. Até essa altura, nunca tinha ouvido falar do tronco cerebral. Naquele dia descobri abruptamente essa peça fundamental do nosso computador de bordo, passagem obrigatória entre o cérebro e os terminais nervosos, quando um acidente cardio-vascular me deixou o dito tronco fora do circuito. Antigamente chamava-se-lhe “ligação ao cérebro” e a sua falta provocava muito simplesmente a morte. O progresso das técnicas de reanimação tornou o castigo mais sofisticado. É possível escapar, mas mergulha-se naquilo que a medicina anglo-saxónica baptizou muito justamente com o nome de locked-in-syndrome: paralisado da cabeça aos pés, o paciente fica encerrado dentro de si próprio, com o espírito intacto e os batimentos da pálpebra esquerda como único meio de comunicação.
Evidentemente, o principal interessado é o último a ser posto ao corrente dessas prerrogativas. Pela minha parte, tive direito a vinte dias de coma e algumas semanas de nevoeiro antes de me aperceber verdadeiramente da extensão dos danos. Só emergi verdadeiramente no fim de Janeiro, neste quarto 119 do Hospital Marítimo de Berck, onde agora penetram os alvores da madrugada.
É uma manhã vulgar. As sete horas, o carrilhão da capela recomeça a pontuar a fuga do tempo, de quarto em quarto de hora. Após a trégua da noite, os meus brônquios obstruídos põem-se a roncar ruidosamente. Crispadas sobre o lençol amarelo, as minhas mãos incomodam-me, sem que consiga determinar se estão a arder ou geladas. Para lutar contra o anquilosamente, desencadeio um movimento reflexo de alongamento que faz mover os braços e as pernas alguns milímetros. Tanto basta, por vezes, para aliviar um membro dorido.
O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.
Basta de dispersão. É sobretudo necessário que eu componha o início deste diário de viagem imóvel, para estar pronto quando o enviado do meu editor vier recolher este ditado feito letra a letra. Na minha cabeça, mastigo dez vezes cada frase, corto uma palavra, acrescento um adjectivo, e decoro o meu texto, parágrafo a parágrafo.
Sete e meia. A enfermeira de serviço interrompe o curso dos meus pensamentos. Segundo um ritual bem ensaiado, corre a cortina, verifica a traqueotomia e o gota-a-gota, e acende a televisão com vista à obtenção de informações. De momento, um desenho animado conta a história do sapo mais rápido do Oeste. E se eu formulasse o voto de ser transformado em sapo?"
Direção: Julian Schnabel
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny e Max von Sydow
Roteiro: Ronald Harwood
Fotografia: Janusz Kaminski
Edição: Julliete Welfling
Música: Paul Cantelon
Gênero: Drama
Duração: 112 min.
Distribuidora: Europa Filmes
Vejam esse trailer e deixem-se mergulhar na última imagem.
Uma música que amo e que amo sobretudo a letra, que me permite associá-la ao filme.
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Nathália, a argumentação que nós utilizamos diariamente para postergar nossas responsabilidades e até nossos desejos, reflete a incapacidade do ser humano de vislumbrar a morte ou a idéia de finitude. Todos os dias acordamos e nos deparamos com desejos que ficam por anos ou até décadas esquecidos, guardados para o momento que nunca chega. Ao nos depararmos com uma doença ou a chegada, sempre prematura, da morte, o sentimento de que deixamos de realizar tantas coisas é recorrente e o arrependimento de ter se quedado a inércia da vida cotidiana é insuportável. Esse filme retrata a urgência da vida e da possibilidade, quase infinita, do ser humano, quando quer, de realizar feitos extraordinários. A grande lição que fica é que essa urgência deve ter efeito sempre e não só quando da eminencia do fim, temos que realizar tudo e perseguir os nossos desejos todos os dias.
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