segunda-feira, 21 de março de 2011

Cópia Fiel


Penso que valha a pena indicar o filme em cartaz "Cópia Fiel" dirigido pelo iraniano Abbas Kiarostami, mesmo que também tenha algumas críticas não tão positivas a fazer.
O filme se baseia na questão da originalidade versus cópia e no que isso implica, não somente no que diz respeito às obras de arte, mas também e sobretudo, no que tange às relações humanas.
James, o escritor de um livro que defende as cópias baseado no argumento de que as cópias só confirmam o valor do que é original e em outros argumentos conhece Elle, que busca conhecê-lo melhor em razão do seu interesse pelo lido em seu livro.
Eles têm um encontro que acaba por tomar um rumo original, seguido a partir do momento que eles estão em um café e que ele a deixa sozinha por um momento em razão de uma ligação telefônica. Sozinha, Elle trava uma conversa com a senhora do estabelecimento e não só deixa que essa senhora pense que ela é casada com James como acaba por criar uma história falsa, cópia da realidade de muitos casais.
James não hesita e assume o papel de marido de Elle, o que acaba por gerar discussões entre os dois como se eles realmente fossem companheiros e sofressem dos mesmos problemas que a maioria dos casais juntos há anos, como é o caso da história criada, reclamam sofrer.
A idéia de mostrar ao público que a obra original já é uma cópia da realidade e que a cópia da cópia, por essa razão, não era tão inferior a obra original em si é interessante, pois assim como James diz que a pintura original da Mona Lisa não é senão uma cópia da pessoa pintada e que inclusive seu sorriso pode ter sido dado em razão de um pedido de Leonardo da Vinci, o filme não deixa de trazer reflexões e indagações mesmo que seja uma encenação dentro de outra.
A "realidade" é a de que James e Elle não são casados. Porém, se essa fosse a "realidade" o filme não deixaria de ser uma cópia da realidade de tantos casais. Abordagem criativa de Abbas Kiarostami.
Entretanto, considero que uma vez posta em prática a idéia interessante, essa deveria ter sim se desenrolado em algumas questões que envolvem grande parte dos casais, mas não deveria ter tido a duração que teve, pois penso que o tempo dedicado às discussões do casal acabou por tornar o filme um pouco monótono, pois a película em questão tinha diante de si um grande desafio por conta dessa idéia original ter sido posta em prática: o desafio de não tornar o filme monótono para o espectador, uma vez que esse já sabia que James e Elle estavam encenando, razão pela qual torna-se difícil sentir emoção.
É por esse motivo, que acaba por tornar difícil a emoção, que considero que a "farsa" deveria ter durado menos tempo e que ao contrário do ocorrido, o desfecho dado deveria ser em relação a uma história de James e Elle, após pararem de "fingir" para que pudessem, enfim, construir uma história não tão real assim, mas capaz de assegurar maior catarse ao espectador.
O filme também acaba por transmitir uma boa idéia: aquele que entra em uma farsa acaba por acreditar nela. Considerando que o conceito da realidade é extremamente difuso, é importante que vivamos de acordo com o que realmente, originalmente acreditamos, pois caso venhamos a nos confundir ou mesmo a sofrer, que seja por algo que fosse real para nós, espectadores e viventes.
O que me fez considerar que a partir de um certo momento a monotonia começava a se instalar na película não foi somente a extensão da "farsa", mas também a atuação de William Shimell, que ao contrário da atuação de Juliette Binoche, pareceu-me caricata.
Embora toda cópia seja um pouco caricata, só se pode crer no valor da cópia quando essa, que se propõe a ser fiel a realidade chega o mais próximo dela possível.
Há duas frases, clichês ou não, que instigaram o meu interesse pelo filme desde o início:
"Não é simples ser simples." "Esse é o ideal, mas o ideal não existe."
Considerando que o ideal não existe, posso dizer que vale a pena assistir "Cópia Fiel", pois apesar dos pesares, idéias interessantes acerca do que é estudado pela psicologia, filosofia e pelos estudantes de arte são oferecidas a nós como pipoquinhas tentadoras a qualquer cérebro faminto.

Direção: Abbas Kiarostami
Roteiro: Abbas Kiarostami
Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Angelo Barbagallo
País de Produção: França/Itália/Irã (2010)


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