terça-feira, 22 de março de 2011

Há meia hora. Agora. Amanhã.




Sem Demagogias.

Há um tempo atrás estava andando na rua quando um jovem me pediu para que comprasse balas para ele vender. Ele me falou que era de outro lugar do Brasil do qual não me recordo e que queria juntar dinheiro para voltar para lá. Ele também me disse que furtaram as suas coisas enquanto ele dormia. Fui comprar as balas, mas quando voltei ele não estava mais lá.
Provavelmente ele deve ter pensado que eu era mais uma que falava:"vou ali comprar e já volto..." e não voltava nunca.
Talvez por esse motivo, por essa descrença, por esse cansaço tenha resolvido sair daquele local que o remetia a espera angustiante, por mais rápida que possa soar no bater dos relógios.
Pois, por mais estranho que se possa parecer para alguns, todos nós temos uma área de nossa mente que é responsável por nos remeter a algum lugar e por consequência à sensação gerada, tenhamos casa ou não. Tenhamos ponto de referência ou não, ainda teremos ponto de referência.
Aquele rapaz ficou na minha memória como poucos, porque eu realmente acreditei nele e foi frustrante não poder ajudá-lo, mesmo que essa ajuda não fosse significativa para que ele de fato alçasse vôo para a sua cidade da memória.
Hoje, há cerca de meia hora, estava voltando para o aconchego do lar quando escutei um mendigo tossir de maneira angustiante. Eu olhei para ele, pois era preciso olhar. Sempre é.
Era ele. Eu quase não acreditei nos olhos. Era ele que por decisão resolvi olhar, por mais pesar que aquele olhar fosse me causar e "atrapalhar" o curso da minha programação diária.
Era preciso olhar. Sempre é.
Ele me pediu para que comprasse algo para ele comer e quando me prontifiquei a isso, ele, que viu que teria a minha ajuda disse que preferiria que eu comprasse dois sacos de bala para ele vender. Eu disse que iria comprar e ele insistiu para ir comigo. Eu lembrava dele.
Eu sabia que era o mesmo. E eu não senti medo.
Fui embora, mas quando cheguei em casa resolvi voltar para levar algo para ele comer.
A idéia de ele ter preferido os sacos de bala para vender à comida era impressionante, pois vendendo cada balinha ao preço normal de cada balinha e contando com a benevolência das pessoas, que não olhavam para ele, ele demoraria para juntar dinheiro para comprar algo para comer. Mas mesmo assim, ele o preferiu.
Voltei. Dei a ele algo para comer. E fiquei pensando. Pensando...pensando...pensando...
Lembrei da grande quantidade de pessoas que se nega a ajudar. Lembrei dos argumentos dessas pessoas. Lembrei que essas pessoas dizem que pagam um lanche, mas não dão dinheiro vivo na mão dos pedintes. Como pagam um lanche se não olham sequer para o lado? Se a mesma tosse fosse num banco ou num mercado ou numa sala de espera do dentista, essas pessoas olhariam. Mas não.
Um dos argumentos mais fortes é de que esses pedintes têm tamanho e capacidade para trabalhar e que pedir dinheiro é um comodismo.
Agora eu pergunto a essas pessoas: você costuma empregar ou indicar pedintes para um determinado ofício?
Você conhece alguém que daria essa chance a um deles?
Você perde um minuto do seu tempo a fim de escutar uma história olhando nos olhos de quem pede a você apenas um prato de comida?
Se você estivesse com fome até quando você ainda pediria a comida?
Até quando você aguentaria ouvir "não" quando fosse tentar mudar de vida ou quando só pedisse algo para comer?
A bebida alcoólica atenua a sensação de frio. Até quando resistiria a ela dormindo nas ruas, sentindo o vento dançar como canivete nas suas costas?
Ele me disse: as pessoas não me dão atenção.
Ele me disse: Dormi e roubaram meu chinelo.
Ele é uma vítima do furto, do roubo, da violência, como nós.
Porém, Ele é uma vítima da pior violência.
Ele é vítima da violência dos olhos que não se viram, dos queixos que não se abaixam.
Ele é a vítima de um silêncio que insiste em ser silêncio enquanto ele geme de dor, de fome, de tristeza, de raiva, de SEDE.
Ele é vítima do silêncio que só se transforma em som quando é para ser repreendido. Pelo quê?
Pela simples atitude de existir, resistir, sobreviver.
Ele é uma vítima do suicídio não cometido. Vítima do assassinato de todos os dias.

Nós somos o quê?

Um comentário:

  1. Nossa amiga, me emocionei com suas palavras. Muito bonito o texto e bom pra gente refletir sobre o assunto. Beeijos!

    Paula Costa

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