terça-feira, 15 de maio de 2012

Do óbvio silencioso.



Há vezes que cometo o simplório erro de dizer “meu gato”quando me refiro ao bichinho que habita o mesmo lar que eu.
Esse que tudo vê e em tudo mexe. Esse que tudo cheira. Esse com olhos a que nada escapa.
Rousseau simplesmente existe.
Sente em suas dimensões, representando as minhas próprias limitações. 
Metamorfoseando-as numa metamorfose quase sutil, mas que chega a ser brutal.
Ora deita ora caminha. Ora sobe ora desce. Ora cheira. Ora come.
Ora fica a olhar. Enxerga o que vê. Tão fascinante é a maneira que retém os olhos ao que o interessa.
Pensar seria ater-se pura e simplesmente ao universo das palavras?
A esse universo que não é senão uma grande tabela que tenta arduamente cumprir sua função rotineira e errante de conferir ao inexprimível, categorias.
Viver sem catalogar em prosa. Verdade sugerida de um prisma nunca compreensível.
Observar um animal. Tão fascinante a condição humana me transborda nesses instantes!
No auge da reflexão mais profunda, que me adentra aos mais inóspitos terrenos da alma, ele surge. Surge sendo.
Sua mensagem em nada categórica transmite a ilustre verdade de que às reflexões não cabe auge, não cabe ápice nem maestria. 
Cabe a tão bela condição de busca, que não busca um fim senão o fim em si mesma.
O silêncio de quando nos olhamos. A paz de não compreendê-lo. 
O basta às interrogações que rodeiam. 
Ser simplesmente é o silêncio sem propósitos de quando meu olhar fica retido ao seu. 
Sem porquês. Sem beiras de abismos.
Sem insinuações verticais.
Ele é.
Eu, por alguns instantes, cometo a audácia de ser e a isso há quem dê o nome de meditação.


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