quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Pensar dói?

Hoje uma pessoa me disse que o egoísmo é um instinto animal e sendo nós, animais, esse instinto também nos pertence.
Essa pessoa me deu o exemplo dos animais que matam os outros para comê-los.
A grande questão é: "até que ponto nosso egoísmo é necessário para a nossa sobrevivência assim como é o egoísmo do animal?"
O que vejo é uma sociedade em que os mais desesperados, os mais carentes, os mais necessitados não têm sequer força para matar por sobrevivência. O que vejo é uma sociedade repleta de seres que nutrem o egoísmo em suas vidas por defesa a valores totalmente distintos da urgente necessidade de sobrevivência.
Olhe para o lado. Quais as motivações que você, caro(a) leitor(a) percebe naqueles que estão ao seu redor para as atitudes egoístas que cometem? Instinto de sobrevivência?
Olhe para dentro de si. Quais as motivações que você, caro(a) leitor(a) percebe nas próprias atitudes egoístas que comete? Instinto de sobrevivência?
Observando o mundo, percebo que as maiores causas da defesa do egoísmo são o orgulho e a ganância. Também percebo que é nutrido pela ignorância e pela imaturidade.
Há o egoísmo de duas fontes: daqueles de boa índole e do resto.
Nos que têm boa índole vejo que as atitudes egoístas nascem da "preguiça" para refletir acerca delas. É raro que a disposição para a reflexão nasça espontaneamente. É raro que se mude um time que até então parecia estar ganhando, ou pelo menos que até então não dava sinais de derrota garantida. Refletir demanda energia, vontade e necessidade. Percebo que a maioria das pessoas reflete por se encontrar em uma situação em que a reflexão é crucial, em que não há outra saída, situação análoga às pessoas que deixam para procurar o apoio de alguma religião em situação de desespero.
Ao se encontrar em uma situação de caos, o ser necessita refletir sobre as próprias atitudes e consegue enxergar o quanto foi egoísta. Caso se aprofunde mais em suas reflexões descobre as motivações não só que o fizeram ser egoísta, como também que o mantiveram sendo dessa forma por tempo suficiente até que se chegasse ao caos.
Sabendo das motivações que o fizeram manter atitudes egoístas, é possível que se pense acerca dessas motivações. "Até que ponto essas motivações são necessárias? Por que insistir em mantê-las vendo o caos gerado ao redor? Seriam essas motivações fonte de benefício próprio mesmo quando se gera a infelicidade alheia? O que é o benefício? O que me beneficia DE FATO?"
Após pensar acerca das motivações e de se questionar, o ser é capaz de responder sinceramente aos seus questionamentos. Alguns notam que a resposta que se enquadra é a de que eram muito presos a conceitos da sociedade que racionalmente não trazem nada de bom para ela, mas que continuam sendo postos em prática a todo instante.
O egoismo que tem como origem a defesa árdua de conceitos que não trazem o bem das relações sociais demonstra, no caso dos seres de boa índole, a simples ignorância (no sentido literal da palavra, que é o de ignorar a realidade) a respeito do que os conceitos representam de fato, a causa de terem sido "inventados", a causa de serem mantidos e as consequências para o meio social que esses conceitos geram.
Quando o ser de boa índole repara que passou tempo significativo da vida sendo egoísta por causa de um pensamento baseado em determinados conceitos que só o prejudicam é capaz de mudar de idéia de uma forma madura, adquirindo para a sua vida não só a capacidade de refletir mais, de amadurecer e de respeitar mais a vida daqueles que estão ao seu redor, como consequentemente a capacidade de conquistar maior qualidade de vida para si próprio.
Entretanto, a percepção do erro e de todas as causas para o erro e das consequências do erro não garantem que o erro não ocorrerá novamente.
Vivendo em uma sociedade que ensina que os egoístas são os que possuem as melhores recompensas da vida e de que refletir é algo trabalhoso demais quando é possível conviver com pessoas que aceitam a falta de reflexão do outro, é difícil manter o hábito de reflexão constante, assim como é difícil reencontrar na Igreja aqueles que a procuraram em um momento de desespero quando não estão mais desesperados.
Refletir ao ponto de chegar a conclusão de que os pensamentos que mantinham o egoísmo não trazem benefício não significa que esses pensamentos não voltem a pertubar o egoísta e aqueles que estão ao seu redor, uma vez que ao sair da situação de caos, o egoísta tende a abandonar a reflexão acerca das suas atitudes, tendo em vista que têm o hábito de recorrer a essas reflexões apenas em momentos caóticos.
Manter o hábito de refletir acerca das atitudes cometidas e prestes a serem cometidas, mesmo quando o momento é tão tranquilo quanto balançar-se em uma rede em pleno paraíso caribenho, evita que novas tempestades ocorram. Entretanto, raras são as pessoas que desfrutam das belas paisagens sem abandonar os hábitos que evitam as tempestades.
Refletir, Questionar, ter a solução em mãos de nada adianta se a maior percepção não for alcançada.
Qual a maior percepção?
Penso que seja a de que as mãos tendem a balançar e a deixar a solução cair.
Sendo assim, eterna vigilância às mãos. :)
Refletir não dói. Mudar hábitos destrutivos não destrói. Crescer alivia.

Um comentário:

  1. Inicialmente, eu tinha perguntado se o seu texto foi inspirado em alguns temas discutidos na faculdade , pois os temas relativos ao pensar, individualismo, egoísmo, relacionam-se aos temas de filosofia e outros. O seu texto me fez lembrar um artigo do prof.José R.Godim da UFRG sobre Ètica, Moral e Direito, em que ele trata da bioética. Transcrevo:" Devemos buscar alternativas para a questão da liberdade. A máxima liberal “A minha liberdade termina quando começa a do outro”, deve ser alterada para uma visão mais solidária, pois a minha liberdade também é responsável pela liberdade do outro. Desta forma, a minha liberdade não termina, mas continua com a liberdade do outro. Estas interrelações fazem com que todos se reconheçam como indivíduos de uma mesma comunidade moral, compartilhando e não restringindo a liberdade uns dos outros".
    Vivemos no séc XXI, o retorno ao total individualismo no qual o egoísmo é uma de suas terríveis facetas que reflete em diversos setores sociais (até mesmo nas polítcas públicas). Não reconhecer valores, princípios, limites impostos pelos Direitos Humanos Fundamentais que norteiam os Direitos da Personalidade (intimidade, privacidade,honra, imagem, vida , saúde física e mental, entre outros) do Homem , é a demonstração de que presenciamos a banalização da barbárie que ronda em tempo integral o que entendemos por civilização. O egoísmo é um dos fortes pilares da violência humana. O século XX foi o retrato da extrema violência , mas ao que parece os efeitos estão sendo progressivamente diluídos , pois o que vemos é continua banalização do mal (Harandt), Banalização da Injustiça Social (Dejours), banalização dos Crimes e da Impunidade o que torna crescente a banalização da barbárie e da crueldade. Se pensar dói? Penso que vc nos trouxe algumas colocações de Kant e Boaventura de Souza Santos! Para muitos pensar e refletir são "tarefas" extremamente árduas .... Aliás, vc nos trouxe também um pouco de Sartre quando ele defende que o homem é responsável por todos os seus atos. O egoísmo tanto individual como coletivo retira o senso de responsabilidade.
    Paro por aqui...esse tema é fascinante! bjs

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