Um raio de sol amanheceu triste.
Quase quase se tornou escuro, não fosse sua natureza invencível.
Era um raio que havia nascido há pouco. Não tinha ainda a experiência de milênios.
Ele adorava passear pelas matas fechadas. Adorava passear pelo fundo do mar.
Mas um dia recebeu a missão de visitar a cidade.
Começou pelos parquinhos infantis. Visitou os museus. Tentou as salas de cinema, mas logo percebeu não ser local para ele. Pensou que era por causa da faixa etária.
O tempo foi passando e ele começou a sentir interesse pelas conversas daqueles seres estranhos a ele. Descobriu que poderia se unir a outros raios e iluminar os diálogos, os olhares. Não que já não o fizesse. Apenas não tinha ciência disso.
Não demorou muito, houve a descoberta de que não era um raio qualquer, como seus companheiros. Ele era um raio que sabia quando a verdade estava sendo dita e quando não estava.
Presenciou cenas que o fizeram se sentir impotente. Ele iluminava belos olhos que diziam mentiras. Ele iluminava belos seres que diziam insistentemente: "Eu estou dizendo a verdade. Olhe nos meus olhos."
Ele era testemunha e não fosse ele, os olhos não seriam iluminados. É fato que se não fosse ele, outro raio estaria ali, mas ele sentia o peso da responsabilidade desse testemunho.
A sensação de impotência se tornava cada vez maior. Ele queria gritar ao mundo sua revolta, mas não tinha voz. Ele queria deixar de brilhar, mas não tinha esse poder. Ele queria entrar no local mais escuro de todos e se esconder, mas se o fizesse o local deixaria de ser escuro. Alguns locais que não fossem mais as salas de cinema. Ele se conformou que nunca atingiria a faixa etária. Além disso, não queria mais ter contato com seres humanos, mesmo que fosse em um local de pouco diálogo.
Ele nutria o desejo ardente de contar aos seus companheiros o que se passava com ele, mas não tinha voz. Nenhum raio de sol possui voz. Nenhum possuirá.
Ele sentia que isso só se passava com ele, pois suas reflexões o levaram a conclusão de que fosse o mundo repleto de raios como ele, o mundo já não existiria mais.
Os raios tinham a missão de brilhar em todos os lugares da Terra. Não podiam ter o luxo de permanecer em um local preferido. Era uma missão árdua até que o sol se apagasse.
Ele pensava que se os raios soubessem o que se passava nas mentes e corações humanos iriam ficar cada vez mais fracos, levando a sociedade chamada Sol a acabar mais rápido do que era o proposto pelo Ser Maior.
Seu pensamento só o tornava ainda mais triste, pois se sentia sozinho. Ele não tinha voz. Ele tinha sentimentos e pensamentos.
Seus pensamentos o levaram a crer que todos os outros raios eram diferentes dele. Até que um dia um pensamento o inundou de repente: "Se o sol vai se apagar um dia significa que os outros raios são como eu, ou pelo menos que alguns são como eu ou ainda que a evolução dos raios é de que se tornem como eu."
Foi quando passou a olhar seus companheiros com compaixão. Eram todos pertencentes à sociedade Sol. Eram todos militantes da causa de ajudar a sociedade Terra.
Eram todos cientes e impotentes.
A diferença entre eles é a de que alguns sabiam de sua impotência, enquanto outros a desconheciam. Outros possuiam esperança.
A sua maior tristeza não foi a de presenciar cenas de mentiras.
A sua maior tristeza foi a de presenciar as consequências daquelas cenas.
Mas ele não tinha escolha, até que o sol se apagasse...
...até que o sol se apagou.
A cada manhã "o sol também se levanta".
ResponderExcluirE por isso, "não me perguntes por quem os sinos dobram. Dobram por ti.
Ernest Hemingway.
O sol de um é o sol de todos.
A dor de um é a dor de todos. Quando os sinos dobram, dobram por todos nós.
Custamos a compreender. Mas um dia compreendemos perfeitamente.