terça-feira, 7 de setembro de 2010

O dia em que Clara raiou.

Clara trazia flechas no peito, ou cordas, ou o que quer que fosse que a machucasse.
Pensava que era uma corda perigosa que a puxava até o enforcamento.
O enforcamento existia, mas sempre restou oxigênio. Sempre restou.(de modo que a fez crer que a corda não era de todo perigosa.)
Aprendeu que a corda não puxa a si própria e que por mais que pareça que está longe das suas mãos pequeninas, está mais próxima do que o pensado.
Ela até ouviu Elis dizer que "sem nós dois o que resta sou eu."
Clara ficou triste. Chegou a pensar que nasceu tarde demais. Chegou a pensar que deveria ter nascido antes de Elis ir embora desse mundo.
Ela queria dizer a Elis que restou o principal.
Foi aí que ela se deu conta de que o pior enforcamento é aquele que se sente falta do principal. Lembrou-se entretanto, que diante de qualquer enforcamento o principal sempre acaba emergindo. Se não fosse assim, não restaria oxigênio.
E ela descobriu que a saudade é um barco que aproxima do passado como forma de impulsionar ao futuro, como quando se quer nadar mais longe e é necessário voltar até a borda já conhecida para se buscar o impulso. Ela descobriu que a corda é elástica. E que sem ela, viver seria simplesmente existir.
O que resta é o principal, pois só o "eu" é capaz de nadar até a borda, de buscar impulso e de seguir adiante, sem medo.
E quando menos se espera descobre-se que uma saudade morreu. Simplesmente quando se pára de tentar descobrir quando ela irá embora de vez.
Há, porém, saudades que nunca se vão. Essas são especiais o bastante e mostram que o tempo nada mais é do que uma invenção humana. Vivem num plano ainda mais especial. Vivem no plano da emoção, onde não há o tempo limitando a vida.

Clara aceitou seus barcos e cordas.
Fez uma oração destinada a Elis.
E adormeceu.

2 comentários:

  1. Esse texto me lembrou muito uma daquelas conversas que tivemos e nunca conseguiremos repetir. Nela falamos das dores que no momento parecem sufocantes, mas que com o tempo tomam outra forma. Passam a ser o impulso e o alerta para que não deixemos de nos dar conta da força que temos.

    Uma vez eu te disse que por mais que alguém seja aparentemente tudo em nossas vidas, não deixaríamos de viver com nenhuma ausência. O ser humano tem uma incrível capacidade de adaptação que chega a me causar certo medo, já que me faz pensar no conceito de auto-suficiência, que sempre tomei como egoísmo.

    Irmã, seus textos me proporcionam uma incrível viagem em ideias que se encontram e se completam. Não deixe de escrever nunca.

    Amo você.

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  2. Simplesmente lindo. Profundo. Continue sempre. Amo suas palavras.Sua leitora. Bjs

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