Era tempo de calor excessivo. Tempo de calor infernal para os mais pessimistas.
Tempo de pegar ônibus. Tempo de pegar ônibus sem ar condicionado para os menos privilegiados pela sorte.
Tempo de fazer prova. Tempo de fazer prova no quarto andar após enfrentar a luta contra os malvados degraus.
Era ainda tempo de fazer prova sem ar condicionado. Tempo que o governo ainda não julgava isso tão necessário.
Tempo em que ela olhava para o azul do céu e se imaginava mergulhando num mar tão azul o quanto. Longe dali, longe das pessoas com pressa. Longe da poluição. Longe das saunas naturais que as ruas haviam se tornado.
Era dia de prova. Era dia de mochila pesada. Era dia de calor infernal. Era dia sem elevador. Era dia sem ar condicionado. Era dia sem perdão.
Era era era tudo tudo em sua mente, que por pouco não se deixava derreter também.
Ela estava ali, parada na Central. Foi até lá porque era lá que passavam os ônibus com ar condicionado em direção ao seu destino. Não era tão perto, mas ela queria sentir por mais tempo o calor lhe queimando a nuca do que ter que viajar por duas horas em um ônibus sem ar e sem vento, já que o trânsito não permitia que o ônibus ganhasse velocidade.
Andou até a Central. Disseram que para ela ficar na rua que queria teria que pegar um ônibus específico, mas o ônibus não passava. Todos aqueles sem ar condicionado passavam, menos o que ela aguardava tanto. Queria tanto! Desejava tanto!! Implorava tanto!!! Salivava tanto!!!!
Quando ela já não aguentava mais o peso nas costas, um ônibus com ar passou. Não era o específico. Ela ainda não ficaria tão perto de casa, mas ela já não se importava mais. Ocorre que o motorista também não se importava com todas aquelas pessoas no ponto. O motorista passou com muita pressa por ali, sem cogitar parar para um indivíduo que sofria no inferno dos quarenta e dois graus.
Decidida, foi atrás do ônibus, mas já não era possível alcançá-lo, nem mesmo em seus sonhos. Olhou para a frente e tudo que viu foi um ônibus que ia em direção ao seu destino,mas que possuía janelas abertas. Janelas abertas!! Ela não aguentaria!!
Passou por ela uma mulher sem as duas pernas. Uma mulher maquiada sem as duas pernas. Uma mulher maquiada sem as duas pernas sentada em uma cadeira de rodas antiquada. Uma mulher maquiada sem as duas pernas sentada em uma cadeira de rodas antiquada sem se abanar, sem se assoprar, sem expressar qualquer sensação de calor.
Uma mulher que só queria ser posta dentro do ônibus, dentro daquele ônibus que a menina tanto desprezou...dentro daquele ônibus que possuía janelas abertas...
Ambas foram no mesmo ônibus, sentindo o mesmo vento. Ambas na janela. Ambas olhando para o lado de fora.
O seu suor virou vergonha ao lado do suor daquela mulher que não escorria na pele...escorria nos olhos...sentindo a maravilha que eram as janelas abertas...
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Nossa Nath, que texto lindo. E é a mais pura verdade. Não damos valor as coisas que temos na vida. Só deveríamos agradecer, e muito.
ResponderExcluirParabéns pelas palavras. Adorei.