segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Casa de Bonecas






 Casa de Bonecas. Um nome lúdico para quem não sabe do que se trata.
 Quando somos crianças queremos ser as bonecas. Elas estão sempre belas. Elas usam roupas fascinantes e não importa o que aconteça... Sim. Elas serão felizes para sempre.
 No intuito de escrever sobre Nora de Ibsen, eu acabo me lembrando da Bela Adormecida.
 Qual a graça de dormir enquanto o príncipe enfrenta desafios?

 Enfim, dedico este tempo à Casa de Bonecas de Henrik Ibsen (1879).
 Casa de Bonecas foi uma peça um tanto revolucionária para a época.
 Uma mulher abandona marido e filhos, mas não somente isso.
 Uma mulher questiona a função da lei e a forma pela qual essa se emprega no cotidiano.
 Uma mulher questiona a sociedade de forma nada superficial, transparecendo que a reflexão não é fruto único e dependente da influência familiar.
 Penso, inclusive, que diante de um cenário imposto há no mínimo três caminhos que surgem diante dos olhos: o da imitação, o da transgressão radical e o da antropofagia, no que diz respeito a idéia de deglutir o que é influência externa a fim de construir uma transformação. A ideia de Oswald de Andrade em seu Movimento Antropofágico me parece válida não simplesmente na formação cultural de uma sociedade, mas, sobretudo, na própria instituição familiar.
Por meio da antropofagia de valores e conceitos dentro do próprio lar, estaremos aptos a continuar construindo uma sociedade que não simplesmente imita o que o outro cria, mas que se vale do essencial para a própria criação.


 Nora: E eu... de que maneira estaria preparada para educar meus filhos?
 Helmer: Nora!
 Nora: Nãõ é o que você dizia ainda há pouco... que essa tarefa você não ousaria me confiar?
 Helmer: Disse num momento de irritação. Você não deve dar atenção a isso.
 Nora: Ah, mas você estava absolutamente certo. É uma tarefa superior às minhas forças. Primeiro quero cumprir uma outra. Devo tentar educar a mim mesma. E você não é o homem indicado para me ajudar nessa tarefa. É algo que eu devo empreender sozinha. E para isso eu vou deixá-lo.

 Gosto ainda mais dessa parte. Educar a si mesma.
 Como educar um outro ser sem ter educado a si própria?
 Como compreender o outro sem ter conquistado a compreensão dos próprios anseios e buscas?

 Como amar sem amar a si próprio?

 A sensação de compreensão plena de uma ideia tão repetida atualmente, chegando até a ser considerada clichê é fascinante!
 Adoro senti-la.
 De repente! Como quem descobre a pólvora...!
 É a roupa no cabide. Sabe-se a cor, o tamanho e a textura, mas não há nada que substitua a sensação de vesti-la.


 Amando a si próprio, há o amor pelo tempo livre. Há o amor pela própria companhia.
 Logo, há compreensão de que o outro também tem direito à própria companhia.
 Amando a si próprio, há o amor pelo direito de proferir a palavra.
 Logo, há compreensão de que o outro também tem o direito de proferir a palavra.
 Amando a si próprio, há o amor pela paz interior.
 Logo, há compreensão de que o outro também merece sentir essa paz, sem ser cobrado por idealizações desmedidas.


 Como amar o outro sem amar a si próprio?
 Não é óbvia a relação?

 Helmer: Abandonar o seu lar, o seu marido, os seus filhos! Você não pensa no que dirão as pessoas?
 Nora: Não posso pensar nisso. Sei unicamente que para mim isso é indispensável.
 Helmer: Ah! É revoltante! Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
 Nora:  E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
 Helmer: E sou eu quem preciso dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e os seus filhos?
 Nora: Tenho outros tão sagrados como esses.
 Helmer: Não tem... Quais poderiam ser?
 Nora: Meus deveres para comigo mesma.

 Que entendamos a grande e sutil diferença entre o indivíduo e o individualista.
 Nora luta para se consolidar como indivíduo.
 Deixo a dica de leitura!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...