quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Milagre na Cela


 Acabei de ler uma grande peça!
 Não se trata de uma peça crítica apenas. Sendo a tortura um ato terrível e assim considerado por todos é fácil se opor a ela, difícil se opor a ela de forma que vá além do óbvio, como o fez Jorge Andrade.
  A peça se diferencia das críticas clichês, pois nos apresenta pensamentos inteligentes que se tornam ainda mais instigantes visto não somente a condição em que são apresentados, mas sobretudo as figuras que os apresentam. Não há somente crítica à tortura como ato isolado. Há crítica ao radicalismo em qualquer esfera. Há crítica às peneiras que cumprem a função de dissimular a visão. Há crítica ao preconceito que estereotipa e que espera de cada um em sua tarja nominal uma atitude pré-determinada. Há crítica à hipocrisia.
 Milagre na Cela de Jorge Andrade foi censurada na época da ditadura por tratar do tema de tortura.
 Na prisão que a Irmã Joana de Jesus Crucificado é jogada, há também a prostituta Jupira.
 Jupira é uma mulher que foi presa aos quinze anos por ter castrado um homem e que permanece há anos na cadeia com a função de amansar os presos. Segundo o delegado Daniel, Jupira foi feita sob medida para o que ele quer.
 Joana é colocada na mesma cela de Jupira, que por mais que esteja há anos na cadeia servindo de objeto e que tenha aprendido as mazelas da necessidade de sobreviver a qualquer custo ainda carrega em si a ingenuidade, como é de se perceber na fala que diz: "(...) Mas um dia ele pode me soltar. Quer preço melhor? E de vez em quando me traz uns macho. Não sei viver sem um macho entre as perna."
  Joana é uma freira diferente das outras que convivia. Ela queria fazer algo de diferente e foi por isso que decidiu ser professora e freira no mundo real e não entre as quatro paredes de um convento.
 Estou fascinada por Joana, pois ela é a figura que desmistifica o que é considerado sujo e escarra com raciocínios inteligentíssimos o que é podre de fato.
 Jupira, por ter acreditado no que é estereotipado como figura casta no que diz respeito às freiras, surpreende-se com a revelação que Joana demonstra sua alegria por tê-la encontrado.
  Jupira a questiona: "Gosta de mim? Como freira?"
  Joana, acariciando o rosto de Jupira, responde: "Você é uma das melhores pessoas que conheci em minha vida."
  Jupira: "Eu? Uma puta de boca suja?"
  Joana: "As palavras não sujam nada. Elas não têm mais nenhum significado no mundo de hoje. O que suja é o que fazem aqui. Vagina, bunda, seio... são mais limpas do que a opressão, violência, preconceito e desamor. Entende a diferença?"
  O delegado Daniel, a fim de fazer Joana confessar o que não cometeu submete a freira a diversas torturas, não obtendo êxito.
  Daniel é um carrasco e é interessante observar a contradição que a peça denuncia ao colocá-lo no ambiente de trabalho e no doce lar.
  No doce lar, um doce homem, que ao ser questionado por sua mulher acerca do seu trabalho diz a frase que para mim foi a frase de maior frieza de toda a obra.
  Marina, preocupada o questiona: "Algum trabalho perigoso? Você vive envolvido com criminosos.
  Daniel: "Não. Serviço de rotina."
  Daniel, ao ver a resistência de Joana dá ordem ao carcereiro Cícero que a deixe sozinha na cela.
 Esse, entretanto, não faz simplesmente isso. Cícero leva Miguel, um temido criminoso a sela de Joana e o estimula a violentá-la.
 Joana diz a Miguel que sente que ele não é muito ruim como dizem e se sensibiliza com as feridas no seu rosto, o que leva Miguel a sentir um refúgio acolhedor naquele ambiente tão hostil. Joana não é violentada por ele.
 A cela que se encontram é repleta de poesias nas paredes, feitas por um poeta que ali esteve e que se suicidou. Joana também ama o poeta que só conheceu por meio das palavras. Suas feições são os frutos da imaginação que nasceram da semente de suas palavras.
 Daniel é estimulado a autorizar que levem Joana nua a sua sala e autoriza.
 Joana surge apenas de calcinha. "Ela não procura esconder o corpo com os braços, como se a nudez não significasse nada."
  Daniel inicia seu discurso perverso para fazê-la confessar o que não fez.
Ele diz que Deus não pode fazer nada com o corpo de Joana, mas que ele pode e ela diz uma das frases que mais me fascinaram: "Eu sei. Você pode descer até o fundo da sua indignidade. Mas só assim eu posso conseguir o que é preciso."
 Daniel faz a ameça de enfiar um cabo de vassoura em seu corpo.
 Ela pede o instrumento natural.
 A mulher engravida. O homem se apaixona por ela, fazendo com que ela conseguisse o que queria. Joana consegue que o homem ao "descer até o fundo da sua indignidade" se apaixonasse pelo que considerava um elemento subversivo e passasse a sentir incômodo pelo que faz.
 O bispo a visita.
 O momento da visita é um dos mais marcantes, pois é o momento que paradigmas se confrontam.
 O paradigma da pureza versus o paradigma da pureza como resultado do contexto.
 Joana diz ao bispo que não a compreende: "Aqui, sobretudo aqui, existem homens que precisam ser salvos. Agora vejo que viver lá fora é muito fácil, principalmente vivendo como vivia. O difícil é viver aqui e não se transformar em agente do demônio."

 O que ocorre no desfecho?
 O que ocorre no desenrolar do que escrevi?
 Que o livro leve cada um às descobertas! Leiam!

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