“Uau! Fulano passou a festa casado com ciclano. Perdeu metade dos contatinhos.”
Me parece que as pessoas estão tentando evitar os olhos.As tais janelas da alma abrem portas demais, aprofundam demais.Tudo indica que as profundezas apavoram.A lógica do mercado é acumular demanda, deixar todas disponíveis para algum momento e...
E o que? Sabe-se lá.
Há na porta do mercado um manual de instruções:
Não se perca no olhar, não use as mãos para fazer carinho.
De forma alguma se apaixone.Você, amigo (a), como todos os seres humanos, tem uma ferida exposta, um calo, um ponto fraco, o nome que você quiser dar. Isso. Você tem.Esconda. Uma hora vai ficar anestesiado. O ciclo servirá como colírio para os seus olhos, que fracos, sucumbirão.A sua história mais emocionante fica na lembrança. Não conte para essa pessoa. Ela pode vir a contar a dela e vocês podem se sentir conectados.Aquele abraço que você adora dar e receber fica na lembrança, nessa que você deve sufocar. Deixe qualquer abraço pra lá. Vocês podem se sentir conectados.As suas dores, qualquer dificuldade, esconda. O contatinho pode se mostrar um forte ombro amigo. Vocês podem se redescobrir humanos.
De forma alguma passe tempo demais com essa pessoa, o tempo constrói pontes e histórias fascinantes. O fascínio é perigoso. Abra seus olhos! Pingue colírio.
Se essa pessoa demonstrar que se sentiu conectada com a sua presença, pense imediatamente: que pessoa maluca! Afinal, é isso que são os não pingadores de colírio de plantão.Siga o baile.
Esse manual de instruções pode causar efeitos nocivos à saúde, como depressão, transtorno de ansiedade e outras doenças psiquiátricas.
Seu uso à risca não garante a inexistência de alguns lapsos de consciência e solidão. O colírio resiste, mas não mata a sua natureza.
Seu uso à risca torna o seu usuário apenas mais um integrante da rede, um descartador e consequentemente um descartado, um substituidor e consequentemente um substituído.Há reclamações de usuários no sentido de se sentirem vítimas.
O mercado é claro. O colírio que vai, volta.Não tema efeitos diversos do pretendido se você tiver bastante dinheiro.
Primeiro, para todas as festas.Depois, para as terapias.
Excelente feriado a todos! Vamos programar o carnaval. Depois o próximo e o próximo e o próximo...
No infinito, no oceano, em uma simples colônia de bactérias a existência das tribos facilita a existência. Facilita? Sempre nos piores momentos estamos sós. Aparentemente sós.
ResponderExcluirHá sempre o gosto de uma futura torta de banana a adoçar um travo amargo na boca.
Anjos deveriam viver em bandos.
Adorei!! Me lembrou as tais "relações de bolso" que o Bauman falou no livro "Amor líquido":
ResponderExcluir"Uma relação de bolso bem sucedida (...) é doce e de curta duração. Podemos supor que seja doce porque tem curta duração, e que sua doçura se abrigue precisamente naquela reconfortante consciência de que você não precisa sair do seu caminho nem se desdobrar para mantê-la intacta por um tempo maior. De fato, você não precisa fazer nada para aproveitá-la. Uma 'relação de bolso' é a encarnação da instantaneidade e da disponibilidade. (...)
Primeira condição: deve-se entrar no relacionamento plenamente consciente e totalmente sóbrio. Lembre-se: nada de 'amor à primeira vista' aqui. Nada de apaixonar-se... Nada daquela súbita torrente de emoções que nos deixa sem fôlego e com o coração aos pulos. Nem as emoções que chamamos de 'amor' nem aquelas que sobriamente descrevemos como 'desejo'. Não se deixe dominar nem arrebatar, e acima de tudo não deixe que lhe arranquem das mãos a calculadora. E não se permita tomar o motivo da relação em que você está para entrar por aquilo que ele não é nem deve ser. A conveniência é a única coisa que conta, e isso é algo para uma cabeça fria, não para um coração quente (muito menos superaquecido). Quanto menor a hipoteca, menos inseguro você vai se sentir quando for exposto às flutuações do mercado imobiliário futuro; quanto menos investir no relacionamento, menos inseguro vai se sentir quando for exposto às flutuações de suas emoções futuras.
Segunda condição: mantenha-o do jeito que é. Lembre-se de que não é preciso muito tempo para que a conveniência se converta no seu oposto. Assim, não deixe o relacionamento escapar à supervisão do chefe, não lhe permita desenvolver sua lógica própria e, especialmente, adquirir direitos de propriedade — não deixe que caia do bolso, que é seu lugar. Fique alerta. Não durma no ponto. (...) Se notar alguma coisa que você não negociou e para a qual não liga, saiba que 'é hora de seguir adiante'. É o tráfego que sustenta todo o prazer."
Em tempo, muito bom seu blog, gostei mesmo amiga! Bjs
Uma das maravilhas do Café Filosófico:
ResponderExcluirhttps://vimeo.com/27702137