segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Vamos falar de família?


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  Recentemente tive a honra de assistir o IV Seminário Internacional  sobre a Qualidade dos Serviços de Acolhimento: o direito à convivência familiar e comunitária. 

  O primeiro dia de seminário oferecia um workshop. Lá fui eu fazer. 
Chamava-se "Desafios e caminhos para o trabalho com crianças e adolescentes acolhidos: a experiência internacional." 

  Não sei para o leitor, mas para mim, tudo um tanto abstrato até então.
Logo ao chegar na turma, o professor Hermann Radler (Presidente do FICE Internacional) fez com que a turma se dividisse ao propor o seguinte: quem considera que já sofreu um trauma vá para o lado esquerdo da sala. 
Por óbvio, o contrário, lado direito.

  Lá fui eu integrar a nuvem carregada prestes a desmoronar. 
Eis que o professor passou à segunda orientação: formem duplas. 
Pois bem, o meu trabalho foi apenas o de olhar para a esquerda. O trabalho da minha colega apenas o de virar os olhos para a direita e tcharam: dupla feita.

  O professor pediu que falássemos há quanto tempo a situação traumática havia ocorrido e o que nos levou a superar.

  No que tange à segunda questão, bingo! Família foi carro chefe das formas de superação dos traumas. Mas, vamos lá: O que seria família?

  Para mim, família significa uma pessoa (ou mais) que sinto de forma profunda que me ama a um ponto indescritível. 
Melhorando, alguém que só de pensar em contar um problema, já torna o problema por si só um tanto menor, não o problema em si, porque por vezes a família pode ser exagerada e fazer de uma gota, uma tempestade, mas o peso do carregar, seja o problema maior ou menor na visão de quem contamos. 
Família, ao meu sentir, é a pessoa (ou mais) que representa esse alívio mental só em saber da sua existência. 

  Perceberam que poderia escrever uma série de conceituações e mesmo assim ainda faltaria algo? 
E eu só posso escrever sobre o meu significado. Imaginem! 

  Eu estava num seminário sobre crianças em serviços de acolhimento e o primeiro pacote que tive em mãos foi o de memória de traumas e a conclusão de que a minha família era tudo de mais precioso na minha construção/ reconstrução. 

  Por uns instantes, imaginar-me sem a minha família em determinados contextos que fui posta a lembrar era como me ver perdida em pequeno pedaço de terra rodeado por precipícios. 

  Pensei nas crianças/ adolescentes "semfamília. Silêncio sepulcral. Mais do que dor: precipício. Preta e branca foi essa fotografia que me invadiu. Meu Deus! Eu não conseguia imaginar a minha vida sem a minha família e estava lá para aprender sobre as crianças/ adolescentes "semfamília. Vislumbrei que eu era muito pequena, mas que meu papel poderia ir além.

Volto à questão: O que é família?

  A menina que fez dupla comigo é uma das fundadoras de um abrigo. Com ela, estava o seu grupo de trabalho e duas adolescentes acolhidas. Conheci essas meninas. 

  Assisti as palestras que foram das mais diversas. Psicólogos, gestores de abrigos, promotores de justiça e o mais importante: a fala de alguns adolescentes que viviam em situação de acolhimento. 

  Ficou claro aos meus olhos que muitos adolescentes encontraram nos profissionais do serviço de acolhimento, uma família. Isso já é dado o suficiente para abrirmos os olhos um milhão de vezes no momento do assunto da adoção como na temática da reintegração familiar.

  Outra questão que levantaram: a importância da extensão do tratamento aos que até então eram os responsáveis por essas crianças e adolescentes. Afinal, como acolher apenas as crianças e adolescentes e negar apoio à sua família de origem?

  Há casos de pessoas que se recuperam da situação que as levou a serem afastadas de seus filhos/ netos, etc. 
Entretanto, não é da Disney que estamos falando. Não se trata de passo de mágica. 

  Percebo que estou a jogar questões como quem lança tecidos ao ar. É preciso costurar a colcha de retalhos.

  Caros leitores, não há verdade absoluta. Um tanto clichê essa afirmação, mas ainda assim é preciso reiterá-la. Há operadores do Direito que parecem não saber disso. Há integrantes do Legislativo que parecem não saber disso. Quem me pareceu saber disso?
Quem de fato lida com as crianças e adolescentes em serviços de acolhimento. 

  Há situações que a reintegração familiar é válida. Noutras não. Há situações que a adoção é válida. Noutras não. 
  Seja qual for a situação, uma verdade se mostrou muito clara: o serviço de acolhimento deve se prestar a formar um vínculo que possa representar o sentido de família ao acolhido. Ainda que esse vínculo seja restabelecido com a sua família de origem, ainda que venha a ser estabelecido com uma futura família caso ocorra a adoção, ou ainda quando não haja adoção, mas a prestação do serviço da família acolhedora.

  Família acolhedora é uma família que cuida da criança sem o intuito de adotá-la. Na primeira infância, os estudiosos afirmam ser de grande importância para o desenvolvimento do indivíduo, devido à maior possibilidade de vínculo criado ao comparar com o que ocorre, à grosso modo, nos abrigos na primeira infância.

  Foi nos ensinado que a primeira infância é a fase mais importante do nosso desenvolvimento e que os vínculos nessa fase, principalmente, são fundamentais. Também aprendemos que os vínculos não precisam ser eternos para o saudável desenvolvimento da psiquê e que o afastamento da família acolhedora deve ser feito de forma delicada a fim de não causar traumas.

  Ainda assim parece assustadora essa ideia: uma criança é posta em abrigo, logo depois é acolhida por uma família que em algum momento não poderá adotá-la, representando mais um afastamento familiar para essa criança. 

  Sim. Parece. Entretanto, se o serviço de acolhimento familiar não existisse, o desenvolvimento de muitas crianças ficaria prejudicado. Não sou eu que estou dizendo (são os estudiosos do desenvolvimento).

  Alguns pensam que o ideal é colocar essas crianças de forma mais rápida possível em uma família adotiva, mas questiono: e quanto ao trabalho de possível reintegração familiar?  Mais ainda, e quanto ao trabalho de estudo dessa possível família adotiva? 
Enquanto esses trabalhos são feitos, a família acolhedora é necessária.
É a mais perfeita das situações? Não me parece. 
Entretanto, em terreno de riscos, os estudiosos dizem ser o melhor a se fazer.

  Devemos confiar no trabalho de quem estuda o desenvolvimento infantil e juvenil. Devemos confiar na visão de quem trabalha nos abrigos. Devemos ouvir as crianças e adolescentes.

  Não há uma verdade absoluta. Não há um padrão a ser reproduzido. 
Essas crianças e adolescentes, como seres humanos que são precisam de AMOR. Vínculo. Confiança de que não estão num pequeno pedaço de terra rodeado por precipícios, mas de que mesmo que estejam, vejam nesses precipícios, pontes construídas por seres que se prestam a ir além das estatísticas, que se comprometem a trabalhar além das suas iniciais reduzidas visões de mundo.

  Todos temos iniciais reduzidas visões de mundo porque para todos nós o "mundo", inicialmente, é o que nos é apresentado.

  Entretanto, ao estarmos em sociedade e sabermos que mundos diversos são apresentados aos nossos conterrâneos, torna-se justo que conheçamos o melhor possível a terra em que pisam antes de tomarmos atitudes radicais quanto às vidas que não são nossas.

Como lutarmos para afastarmos famílias? 
Como lutarmos para unirmos famílias?
Qual a base dessas nossas lutas?

Não podemos nos prender ao que a nós parece ser melhor pelo que vivemos em nossa inicial reduzida visão de mundo
A base da vida alheia não pode ser mais uma vez afetada pela frágil e egoística base das nossas convicções. 

Se almejamos para o próximo o seu melhor é crucial a consciência de que se o próximo é outro, o seu melhor também pode ser outro. 

Estudemos. Pisemos nas mais diversas terras. Assim, começa a luta. 
Bem depois, opinemos sobre Lei da Adoção, etc.

Afinal, quem somos nós?




O seminário foi realizado pelo NECA (Associação de Pesquisadores sobre a Criança e o Adolescente/SP)  e pelo FICE BRASIL em parceria com o FICE Internacional (Internacional Federation os Educative Communities)  e o Movimento Nacional Pro Convivência Familiar e Comunitária (MNPCFC).

Um comentário:

  1. Tenho visto durante toda a minha vida crianças adotadas querendo encontrar sua família biológica, crianças acolhidas se sentindo abandonadas duas vezes que sinto dentro de mim que qualquer atitude tomada será sempre um paliativo, uma tentativa onde poderão ocorrer erros e acertos. Quando você abriu mão do seu tempo, expulsou seu egoísmo, ofertou o seu afeto e cuidados e mesmo assim nem tudo deu certo penso que o pior seria não ter feito nada.
    Nem sempre o seu melhor é na realidade o que há de melhor mas é o que pode ser feito. Sem ele não podemos imaginar quais os caminhos aos quais a solidão poderia levar.
    Antigamente todas as famílias tinham suas cotas para auxiliar instituições que cuidavam dos idosos, dos deficientes e das crianças. Não participar era muito difícil. Muitas crianças criadas nessas instituições jamais esqueceram seus vínculos com os mestres, que tinham o compromisso de conseguir o primeiro emprego na sua maioridade, e continuavam visitando o colégio. Muitos se transformavam em novos provedores.
    Lembro com carinho da Escola Santa Teresa, em Botafogo, de um lindo Educandário em São Cristóvão e do trabalho positivo da Obra do Berço, entre outros.
    Muito bom ler Palavrinha!

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