segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um conto salgado.




A doce menina salgada.


Uma menina foi juntando em um potinho todas as ofensas que realmente a faziam sofrer. Com o tempo o potinho já não era mais suficiente.
A menina arrumou uma mala maior do que si e resolveu colocá-las lá dentro. Ela tentou jogar a mala no mar. O mar estava calmo demais para isso. Era covardia com a natureza que a cercava. Ela tinha que resolver a natureza do seu problema sem deixar que isso influenciasse na dinâmica terrestre. Era espiritual.

Ela via valores deturpados. Esses valores a oprimiam. Eles eram a natureza de tudo que havia dentro do depósito sem fundo que carregava consigo. Qualquer movimento de resistência só fazia com que o peso em suas costas adquirisse uma posição ainda mais desconfortante. Suas costelas não eram fortes o suficiente. Quiçá sua coluna.

Os seus gritos de revolta eram mal interpretados. Pobres de espírito aqueles que não percebem que só gritam aqueles que ainda carregam algum tipo de esperança, independentemente do peso já carregado. Pior é o silêncio e a distância.

De repente uma menina sem voz, costelas quebradas, coluna retorcida. Uma menina que não teve outra opção a não ser o silêncio e a distância. A voz que foi embora levou consigo a salinidade de suas lágrimas inúteis. Ela percebeu que impossível era o sonho de extinguir preconceitos tão arraigados. E não o seu sonho, independentemente de qual fosse.


Essa mesma menina pegou sua mala e a transformou em poesia.

8 comentários:

  1. Nat,

    é mesmo lamentável ver que os gritos daqueles que se indignam com tanta injustiça e desigualdade seja abafado pelo silêncio dos que tentaram em vão. Entretanto, assim como a menina, é necessário arrumar outras formas de manifestação, e o jeito sutil como você demonstra isso é incrível. o texto me fez refleti e eu gostei muito. espero um dia voltar a guardar "as ofensas em um pontinho!" hahah (:

    beijos.

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  2. Vamos continuar Gritando..
    Para quem sabe um dia o preconceito seja extinto.

    beijos nat..

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  3. Tempo difícil esse em que estamos, onde é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito" - Albert Einstein
    Talvez o preconceito mais difícil para vencermos seja aquele trazemos dentro de nós. Desafio constante. È um dos meus desafios.
    A arte é uma das formas que o homem encontrou para denunciar injustiças. intolerâncias e discriminações. O cinema, a literatura, a poesia, o teatro, e demais manifestações artísticas são gritos contra a opressão.
    Cada ser humano pode transformar as suas lágrimas e a sua dor em manifestação contra a intolerância . Cada qual com o seu grito. Uns gritam através das palavras, outros através das imagens, outros através do seu oficio diário.
    E por falar em arte, poesias e imagens, muito tocante o filme do Beto Novaes, “Expedito em Busca de Outros Nortes”. É uma obra sensível sobre poesia e luta que narra a história de vida e morte do poeta e trabalhador Expedito Ribeiro de Souza, um brasileiro de Minas Gerais que, como tantos outros, saiu de sua cidade em busca de terra , trabalho e um mundo melhor.
    O filme /documentário resgata a vida, a luta e a morte desse homem idealista , mas também a sua poesia . É na voz de Chico Buarque que alguns poemas de Expedito são declamados no filme.
    Segue uma poesia de Ferreira Gullart que retrata a vida e os gritos não ouvidos dos muitos Expeditos que nós brasileiros sequer sabemos que existem ou que um dia existiram :

    "Sou um homem comum
    de carne e de memória
    de osso e esquecimento.
    e a vida sopra dentro de mim
    pânica
    feito à chama de um maçarico
    e pode
    subitamente
    cessar.
    Sou como você
    feito de coisas lembradas
    e esquecidas
    rostos e
    mãos, o quarda-sol vermelho ao meio-dia
    em Pastos-Bons
    defuntas alegrias flores passarinhos
    facho de tarde luminosa
    nomes que já nem sei
    bandejas bandeiras bananeiras
    tudo
    misturado
    essa lenha perfumada
    que se acende
    e me faz caminhar
    Sou um homem comum
    brasileiro, maior, casado, reservista,
    e não vejo na vida, amigo,
    nenhum sentido, senão
    lutarmos juntos por um mundo melhor.
    Poeta fui de rápido destino.
    Mas a poesia é rara e não comove
    nem move o pau-de-arara.
    Quero, por isso, falar com você,
    de homem para homem,
    apoiar-me em você
    oferecer-lhe o meu braço
    que o tempo é pouco
    e o latifúndio está aí, matando.

    Que o tempo é pouco
    e aí estão o Chase Bank,
    a IT & T, a Bond and Share,
    a Wilson, a Hanna, a Anderson Clayton,
    e sabe-se lá quantos outros
    braços do polvo a nos sugar a vida
    e a bolsa
    Homem comum, igual
    a você,
    cruzo a Avenida sob a pressão do imperialismo.
    A sombra do latifúndio
    mancha a paisagem
    turva as águas do mar
    e a infância nos volta
    à boca, amarga,
    suja de lama e de fome.

    Mas somos muitos milhões de homens
    comuns
    e podemos formar uma muralha
    com nossos corpos de sonhos e margaridas".
    (Brasília, 1963 - Ferreira Gullar)
    bjs
    Cláudia

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  4. Nathália,
    Complemento,para dizer que o seu texto é lindo, sensível, profundo e triste. Muito triste. A dor e a beleza em comunhão. Talvez , por isso,eu tenha me lembrado da vida de tantos Expeditos, Josés e Marias. Eles também fazem parte da minha vida e do meu cotidiano. Beijo, Cláudia

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  5. Acho que nós precisamos atualmente mais do que inteligência, de humanidade como diz charles chaplin
    carregamos um peso enorme em nossas costas sem tamanho, o egoísmo e o orgulho das pessoas nos tempos atuais nos faz refletir o quanto sofremos em silêncio, adorei o conto Nat

    bjinhoss
    Isabela

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  6. Adorei o texto...e não deixei de me identificar, como todo mundo, acho eu. Como faz mal guardar as coisas, como é ruim não conseguir gritar qnd se quer e sentir algo pesando! Mas acho que a vida meio que nos leva a escolher isso, muitas vezes temos que nos calar por incompreensao do mundo! Beijo nat!!!

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  7. Gritemos então juntas para acordar o mundo de tanta injustiça, desigualdade, preconceito e comodismo.
    Guardar a indignação só promove uma bomba maior no final, e assim sendo, pode acarretar um desastre maior.
    Parabéns por demonstrá-la de forma tão meiga e sutil! se todos agissem como você, talvez, a ofensa seria descartada e não acumulada.

    beeeeijos

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