sexta-feira, 27 de novembro de 2009

liiistradinha




Bandeira. Não sinto o mesmo do que quando leio Clarice. Não é tão arraigado a mim de forma que não consiga parafrasear. Clarice sim. Leio “Eu, reduzida a uma palavra? Mas que palavra me representa? De uma coisa sei: eu não sou meu nome. O meu nome pertence aos que me chamam.” e sinto que é exatamente o que se passa em mim, sem palavras. Não há uma pontuação fora do lugar. E qualquer vírgula que for se faz necessária.

Bandeira invoca outro sorriso. Bandeira me mostra uma criança engraçadinha, curiosa e esperta. Clarice, uma criança em sono profundo.

Se o dia for daqueles que não se é necessário ler Clarice, nem ao menos lembrar de sua existência para ir ao seu encontro, e se a sensação gerada não for a de plenitude, mas a de uma angústia profunda, não há nada que seja mais gracioso do que uma lagarta listradinha( isso se uma criancinha despenteada não vier ao meu encontro e disser que viu uma lagartinha, sem que eu saiba sequer que o seu conhecimento vai além do auau.)



Namorados

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Manuel Bandeira

7 comentários:

  1. Querida,

    Conforme temos conversado por telefone, a beleza daqui é exuberante. A natureza com suas belíssimas e altas montanhas não me permite angustias profundas, mas a sensação de plenitude. Há uma semana que estou no meio das “lagartas listradas” e pretendo passar a próxima semana no meio delas ( rs) Passar duas semanas nesse lugar é como alcançar os ares. Sempre me lembro dos pássaros inquietos de Ibsen .
    Continue com suas lagartas listradas... Elas nos trazem leveza.
    Um grande beijo
    Saudades imensas.
    Cláudia

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  2. Nathália,

    Seguem duas poesias de Bandeira. A primeira também é sobre namorados. É uma poesia leve. A segunda poesia é uma grande crítica . É bastante atual .

    Porquinho-da-Índia

    Quando eu tinha seis anos

    Ganhei um porquinho-da-índia.
    Que dor de coração me dava
    Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

    Levava ele prá sala
    Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
    Ele não gostava:
    Queria era estar debaixo do fogão.
    Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
    O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.

    -----------------------------

    VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

    Vou-me embora pra Pasárgada

    Lá sou amigo do rei

    Lá tenho a mulher que eu quero

    Na cama que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada

    Vou-me embora pra Pasárgada

    Aqui não sou feliz

    Lá a existência é uma aventura

    De tal modo inconseqüente

    Que Joana a Louca de Espanha

    Rainha e falsa demente

    Vem a ser contraparente

    Da nora que eu nunca tive

    E como farei ginástica

    Andarei de bicicleta

    Montarei em burro brabo

    Subirei no pau-de-sebo

    Tomarei banhos de mar!

    E quando estiver cansado

    Deito na beira do rio

    Mando chamar a mãe-d'água.

    Pra me contar histórias

    Que no tempo de eu menino

    Rosa vinha me contar

    Vou-me embora pra Pasárgada

    Em Pasárgada tem tudo

    É outra civilização

    Tem um processo seguro

    De impedir a concepção

    Tem telefone automático

    Tem alcalóide à vontade

    Tem prostitutas bonitas

    Para gente namorar

    E quando eu estiver mais triste

    Mas triste de não ter jeito

    Quando de noite me der

    Vontade de me matar

    Lá sou amigo do rei

    Terei a mulher que eu quero

    Na cama que escolherei

    Vou-me embora pra Pasárgada.

    SAUDADES!
    Beijos,
    Cláudia

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  3. Lembro direitinho de Rafaela lendo isso. A gnt riu, como sempre fazemos com tudo. Adoro.

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  4. Minha Querida

    O dia aqui esta tão lindo...tão lindo...tão lindo...e tão repleto de lagartas listradas e altas montanhas lembra um pouco algumas das verdes paisagens norueguesas . Os pássaros de Ibsen sempre me acompanham...Talvez pq Henrik Ibsen tenha ambientando algumas das suas peças e dramas entre as altas montanhas e fiordes da Noruega o que acaba por nos envolver em certo mistério . A natureza selvagem tem esta caracteristica. Ela nos devolve o mistério. Nos mostra que não temos controle sobre tudo e nem tudo podemos compreender.
    Como dizia, o dia aqui esta tão lindo, que antes de começar minhas atividades diárias, passei por aqui para deixar um abraço maior que o mundo com todas as suas montanhas, penhascos, fiordes, gelereiras, icerbergs e mares .....Sei que esta na aula neste exato momento.
    Concordo com o Gabriel. Há momentos para Clarices. Há momentos para Bandeiras. No entanto, são tão lindas as lagartas listradas e os porguinhos´-da india....
    A Leveza de ser é essencial como tão bem nos coloca Kundera.
    Beijos "corridos" que eu já estou super atrasada ....Nos falamos mais tarde pelo tel.
    Saudades
    Cláudia

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  5. Clarice uma menina que sente so pelo prazer de sentir as sensaçoes da vida, que se encontra aberta para expor essas sensaçoes..
    Que faz questao de parar e admirar uma bela lagarta listradinha despertando com isso curiosidade e o pesamento de que a vida não precisa ser escrita e sim vivenciada.
    Bjsss Nat ..=D

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  6. "ambientado", "porquinhos" e geleiras" (deve ser esta "inquietude" do pássaros que sempre me faz digitar correndo e por "cima " das telas do computador)
    bjs
    PS. Levarei uma mala repleta de lagartas coloridas e listradas ....

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  7. a única pessoa que eu conheço que gosta de Clarice assim como eu!
    XD

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