
Bandeira. Não sinto o mesmo do que quando leio Clarice. Não é tão arraigado a mim de forma que não consiga parafrasear. Clarice sim. Leio “Eu, reduzida a uma palavra? Mas que palavra me representa? De uma coisa sei: eu não sou meu nome. O meu nome pertence aos que me chamam.” e sinto que é exatamente o que se passa em mim, sem palavras. Não há uma pontuação fora do lugar. E qualquer vírgula que for se faz necessária.
Bandeira invoca outro sorriso. Bandeira me mostra uma criança engraçadinha, curiosa e esperta. Clarice, uma criança em sono profundo.
Se o dia for daqueles que não se é necessário ler Clarice, nem ao menos lembrar de sua existência para ir ao seu encontro, e se a sensação gerada não for a de plenitude, mas a de uma angústia profunda, não há nada que seja mais gracioso do que uma lagarta listradinha( isso se uma criancinha despenteada não vier ao meu encontro e disser que viu uma lagartinha, sem que eu saiba sequer que o seu conhecimento vai além do auau.)
Namorados
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
-Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?
A moça se lembrava:
-A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
-Antônia, você parece uma lagarta listrada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
-Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
Manuel Bandeira
Querida,
ResponderExcluirConforme temos conversado por telefone, a beleza daqui é exuberante. A natureza com suas belíssimas e altas montanhas não me permite angustias profundas, mas a sensação de plenitude. Há uma semana que estou no meio das “lagartas listradas” e pretendo passar a próxima semana no meio delas ( rs) Passar duas semanas nesse lugar é como alcançar os ares. Sempre me lembro dos pássaros inquietos de Ibsen .
Continue com suas lagartas listradas... Elas nos trazem leveza.
Um grande beijo
Saudades imensas.
Cláudia
Nathália,
ResponderExcluirSeguem duas poesias de Bandeira. A primeira também é sobre namorados. É uma poesia leve. A segunda poesia é uma grande crítica . É bastante atual .
Porquinho-da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .
O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
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VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água.
Pra me contar histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
SAUDADES!
Beijos,
Cláudia
Lembro direitinho de Rafaela lendo isso. A gnt riu, como sempre fazemos com tudo. Adoro.
ResponderExcluirMinha Querida
ResponderExcluirO dia aqui esta tão lindo...tão lindo...tão lindo...e tão repleto de lagartas listradas e altas montanhas lembra um pouco algumas das verdes paisagens norueguesas . Os pássaros de Ibsen sempre me acompanham...Talvez pq Henrik Ibsen tenha ambientando algumas das suas peças e dramas entre as altas montanhas e fiordes da Noruega o que acaba por nos envolver em certo mistério . A natureza selvagem tem esta caracteristica. Ela nos devolve o mistério. Nos mostra que não temos controle sobre tudo e nem tudo podemos compreender.
Como dizia, o dia aqui esta tão lindo, que antes de começar minhas atividades diárias, passei por aqui para deixar um abraço maior que o mundo com todas as suas montanhas, penhascos, fiordes, gelereiras, icerbergs e mares .....Sei que esta na aula neste exato momento.
Concordo com o Gabriel. Há momentos para Clarices. Há momentos para Bandeiras. No entanto, são tão lindas as lagartas listradas e os porguinhos´-da india....
A Leveza de ser é essencial como tão bem nos coloca Kundera.
Beijos "corridos" que eu já estou super atrasada ....Nos falamos mais tarde pelo tel.
Saudades
Cláudia
Clarice uma menina que sente so pelo prazer de sentir as sensaçoes da vida, que se encontra aberta para expor essas sensaçoes..
ResponderExcluirQue faz questao de parar e admirar uma bela lagarta listradinha despertando com isso curiosidade e o pesamento de que a vida não precisa ser escrita e sim vivenciada.
Bjsss Nat ..=D
"ambientado", "porquinhos" e geleiras" (deve ser esta "inquietude" do pássaros que sempre me faz digitar correndo e por "cima " das telas do computador)
ResponderExcluirbjs
PS. Levarei uma mala repleta de lagartas coloridas e listradas ....
a única pessoa que eu conheço que gosta de Clarice assim como eu!
ResponderExcluirXD