sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Aqueles Dois pela Cia Luna Lunera.







Prêmios recebidos. Poucos recursos. Sinopse interessante. Ingresso barato. CCBB.
Simplesmente fui. Fui e fiquei arrepiada. Fui assistir Aqueles Dois ,espetáculo que tem como base o conto homônimo de Caio Fernando Abreu, no Centro Cultural do Banco do Brasil. Incrível como peças tão bobas e dotadas de um humor tão precário ilustram os maiores teatros da cidade e custam seis, sete, oito, nove, dez vezes mais!
E dizem por aí que teatro é caro. Sim. Sim. Fazer teatro é caro.
Ir ao teatro é caro. Vivemos em um país que não estimula a arte. Sim. Sim. Sim. Mas fazer arte não custa caro. Ou melhor, quanto maior a capacidade de se fazer arte com menos recursos, maior a arte feita. Pura. Nua. Autêntica como a utopia da arte em sua perfeição.
Aqueles que conseguem os patrocínios mais exorbitantes têm mais verba para promover o espetáculo. Assim, maior é o público recheando as platéias confortáveis. Público influente. Público privilegiado. Público que paga o que for, o quanto for. Entretanto, penso que o público mais valioso seja aquele que reconhece o esforço de atores que cobram tão barato ao passo que oferecem arte da mais pura qualidade, viva, latente, como diamante que tilinta. Público que sai de onde for em busca de uma expressão artística que seja menos influenciada pela indústria que a engole. Público que deseja mais do que entrenimento. Mais do que distração. Público que deseja sentir-se tocado de uma forma que sinta que seu peito é um leito de arte, que baila, que vibra, que goza...seu peito é um ator que aperta bem forte os olhos e grita MERDA antes do espetáculo começar. Seu peito é um ator que sua frio independentemente da experiência que tenha. Seu peito é capaz de agarrar os olhos dos atores e de beber suas palavras, sejam doces, azedas, amargas...sejam salgadinhas...sejam feitas de lágrimas...
Aqueles Dois me arrepiou. Ou melhor, aqueles quatro. Um belo conto. Uma bela história de amizade. Uma bela forma de viver...porque quando se ama, os gritos da janela, as piadinhas maldosas, não só não importam, como não se nota sua existência.
Porque haja o que houver, sempre haverá um táxi. Sempre haverá um gesto que expresse que o amor dignifica, vai além, se sobrepõe. Sempre haverá mãos que abrem a porta do carro. Sempre haverá Raul e Saul. Sempre. Sempre...mesmo que o amor seja comparado à morte. Ou melhor, ainda mais por sê-lo.
E o que dizer da nudez? Somente a personificação da nudez que já doavam pelo olhar, pelas palavras, pela vibração do peito que deixavam que fosse ouvida, sentida, palpada.
Eu amei. Eu me arrepiei. Eu senti meus olhos umidecerem.
Eu indico.

7 comentários:

  1. Nathália,
    Não assisti à peça. Mas possuo o conto - Aqueles Dois - ((História de aparente mediocridade e repressão) de Caio Fernando de Abreu.
    Raul e Saul são personagens que “num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. O sentimento forte de amizade que os nutre se sobrepõe à vulgaridade e acidez que norteiam o escuro e medíocre ambiente de trabalho . A amizade de ambos incomoda os demais funcionários da repartição pública. Passam a ser agredidos com cartas anônimas, piadas maldosas e outras atitudes não menos vulgares. O ambiente hostil aumenta, pois a vulgaridade e a mordacidade possuem uma forte capacidade de atração . A acidez rapidamente contamina o ambiente.
    São despedidos. Arrumam seus pertences. Esvaziam as gavetas. Descem pelo elevador. Mas quando estão na rua, vistos de cima pelos funcionários do escritório , reunidos na janela para assistirem o “derradeiro fim” dos amigos que caminham em busca de um táxi , a camisa branca de um, a camisa azul de outro, eles se tornam ainda mais altos, leves, belos e nobres. E os demais que ficam na janela naquela calorenta tarde de janeiro, sentem nitidamente que seriam infelizes para sempre. Não alcançariam a felicidade, pois ao escolherem o viés mordaz e ácido da vida renunciaram a leveza . Não flutuam. Tornam-se pesados. Estáticos. Não é possível ser feliz assim.
    Valeu, Nathália ! Valeu, Caio Fernando de Abreu! Aproveito para citar uma estrofe de “So Long” de Walt Whitman . Caio de Abreu dedicou a estrofe para Rofran Fernandes :

    Para Rofran Fernandes:

    "I announce adhesiveness,
    I say it shall be limitless,
    unloosen il.
    I say you shall yet find the
    friend youwere looking for."
    (Walt Whitman: So Long!)
    Beijo,

    Cláudia

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  2. Continuação:

    " Demoraram alguns minutos na frente do edifício. Depois apanharam o mesmo táxi, Raul abrindo a porta para que Saul entrasse. Ai-Ai, alguém gritou da janela. Mas eles não ouviram. O táxi já tinha dobrado a esquina.

    Pelas tardes poeirentas daquele resto de janeiro, quando o sol parecia a gema de um enorme ovo frito no azul sem nuvens no céu, ninguém mais conseguiu trabalhar em paz na repartição. Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram."

    (Texto transcrito do conto "Aqueles Dois" de Caio Fernando de Abreu )

    Complemento: " E sequer com os sorrisos, teorias e lições dramaticamente estudadas ou mesmo um ar de falsa alegria,paz ou superioridade pregado na cara, não conseguiam disfarçar o quanto eram pesados e sarcasticamente infelizes. Homens e mulheres de olhos,peles e corações apagados.Presos nas teias da mordacidade. Cinzas-Desbotados. Cinzas-Pálidos. Cinzas-Todos. Completamente cinzas"
    Beijos,
    Cláudia

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  3. voce tem que assistir 'O Despertar da Primavera' , aposto que vai gostar também.

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  4. Nathália,

    Tudo bem? Nem sei se lembra de mim, mas você foi assistir ao nosso espetáculo "Ensina-me a Viver" e achei um texto seu a respeito. Lembrou?...rs

    Então como sou muito desligado de internet, só hoje fui no blog que criaram pra mim e vi que você tinha deixado um comentário lá e aí vim aqui procurar o que você tinha escrito pós o meu comentário.

    Mais uma vez obrigado e desculpa a demora..rs

    Ainda não vi "Aqueles Dois" mas já tentei duas vezes e não consegui...acho que na semana que vem devo ir.

    Parabéns pelo blog!

    Um grande beijo,

    Arlindo Lopes.

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  5. Querida,

    Acabou de acontecer um fato na última pauta que me lembrou a peça. Falei para alguns advogados conhecidos que contaria para vc tão logo terminasse. Pois bem, um funcionário de certa empresa ajuizou uma ação em face de outro por causa de fofocas no setor que trabalha. Como as pessoas adooooram !!! Ainda mais se a fofoca for "picante" .Para resolver o caso, a empresa propôs um acordo, pois o funcionário supostamente agredido continua exercendo o cargo e não quer seu nome em "boca de matilde". No momento do acordo o advogado que representava o funcionário alvo dos comentários maldosos perguntou ao suposto fofoqueiro: O senhor concorda em não fazer mais fofoca do meu cliente? Caso contrário, o meu cliente não aceitará o acordo. E todos na sala de audiência riram...O outro advogado revidou : Mas, o Doutor quer constar no acordo uma cláusula proibindo fofoca no setor?! Mais e mais risadas.... Enfim, foi redigido o acordo com cláusulas jurídicas e técnicas.
    Foi uma fofoca que saiu " cara" aos bolsos da empresa. Um advogado gaiato que estava presente e sempre alegra as audiências começou a falar: Por favor, falem mal de mim!!!!! Afinal , diz o ditao popular: Quem conta um conto, aumenta um ponto! Acho que vou escrever uma peça também (risos)...
    Agora volto ao trabalho. Mas tinha que contar. O fato ocorreu em audiência pública. Então, não é fofoca!!! bjs Cláudia
    PS. Foi publicada no Globo uma crítica muito boa sobre a peça . A crítica menciona as questões dos preconceitos, mediocridades, mordacidades, etc. E viva o dia que está lindo! E viva o meu trabalho que eu amo e assim como a natureza e a vida pulsante, alegram os meus dias com ou sem fofocas!!!!

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  6. para não dar fofocas:
    "E viva o meu trabalho que eu amo e assim como a natureza e a vida pulsante, o meu trabalho alegra os meus dias com ou sem fofocas!!!!
    Pq também tem "cada" fofoca...Deus Pai!
    Marx não deve estar de "cabelos em pé" no "inferno", mas revoltado , careca , arrancando os bigodes,a barba e todos os demais pelos do corpo .A "turma" fica perdendo tempo com fofocas em vez de pensar na "mais -valia" , lucro dos bancos,distribuição de renda, e no proletariado. Além do Slogan "Trabalhadores do Mundo, Uni-vos”, outro já está sendo utilizado : " Fofoqueiros do Mundo, Isolai-vos! risos
    Ai-Ai rs

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  7. Com certeza te arrepiaria sendo uma ótima peça..
    você faz parte desse mundo, você se entrega nesse meio... ele pertence a você!

    parabéns novamente pelo texto linda!!!
    beijinhos

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