
Uma foto minha, desfocada, mas que gosto. :)
O ruído range, ou mesmo canta. Espreguiça-se. Encolhe-se.
Acolhe-me.
O mais ensurdecedor, aquele que se resguarda. É a virgem do silêncio, de uma forma que jamais permite que ele o possua por inteiro, enquanto ele...ah! ele...sempre encontra a ocasião para tentar o convencimento. Mas falha.
Ah! Ruído este tão arraigado, pois mesmo no silêncio, há chiado, seja de uma dor que desatina, seja de uma paz celestial.
Poupo-me do que é de relevância menor e me torno plena ao encontrar o cochicho do que é tranquilo, pleno. Pois para mim não há silêncio total. Há sempre uma brisa que passa por dentro nos momentos mais calmos...brisa essa, tão notável, que chega a atrapalhar as tentativas do silêncio...
E basta estar sozinha sentindo a natureza da qual me constituo para abrir espaço ao silêncio. Esse me encontra. Acaricia-me. E me ama de uma tal forma que me faz cantar nas veias...e nesse momento o canto o encontra, como tinta que se espalha na alvura...
Não é mais eu e o silêncio. Sou eu e eu.
Eu sou meu hóspede. Eu e Eu. O ser não se estilhaça. Eu e Eu.Recolhe-se no silêncio do seu templo. Eu e Eu. O templo não é exposto. Eu e Eu.
ResponderExcluirO teu texto é belo e muito profundo. O encontro com a natureza que abre espaço para o silêncio. O silêncio faz nascer o canto. O canto que emerge das entranhas. Eu e Eu. O Santuário da Alma . O inviolável Templo que a cada ser pertence. Que nos individualiza como ser único.
Talvez seja isso que Tolstói também se refere em Ana karenina. Anna deixou-se apoderar inteiramente pelo Outro na ilusão da “ fusão” das almas. Perdeu a referência do seu Eu. Anna e Vonskri ilusoriamente se fundem até alcançar o fim trágico. No último capítulo Tolstói demonstra belamente que Levine manteve o Santuário de sua Alma, ao contrário de Anna.
No Poema “Te Quero” de Mario Benedetti (um dos meus poetas preferidos) aqueles que se encontram não se fundem em um único ser: “Na rua, lado a lado, somos muito mais que dois”. Alguns dos poemas de Benedetti ( poeta humanista que lutou pela justiça distributiva e social) tratam do amor real vivenciado por pessoas inteiras, individualizadas, unas. Não estão rachadas. Quebradas. Fracionadas. São pessoas que se somam. Tornam-se muito “ mais que dois” , e assim conseguem lutar contra a opressão. O encontro acontece entre pessoas inteiras e totalmente conscientes do seu Eu, e do seu valor como ser humano . Não negociam valores e princípios (“Te Quero”) .Para tanto , é preciso saber o que você tão bem colocou em poucas palavras: “Não é mais eu e o silêncio. Sou “Eu e Eu”. Para ser universal , antes é preciso ser uno (individualizado).
Você que está estudando Direitos Humanos tratará da grande importância do Uno, Individual e Universal. Grandes poetas lutaram e lutam contra a opressão. Levine (Ana Karenina) tinha grande consciência social. O romance está muito.... muito...muito além do tema sobre amor e relações familiares. O romance é a Rússia do século XIX. Levine era Uno (mantinha o Santuário da Alma) e Universal (Social). Bem.... o teu “Eu e Eu” fez o meu “pensamento andante-viajante” voltar ao meu amado Tolstói, ir ao meu querido Benedetti e divagar...divagar....divagar rsrs
A beleza do teu texto e da tua fotografia “desfocada” , lembrou-me, ainda, uma estrofe de Manoel de Barros:
A Lua faz silêncio para os pássaros,
- Eu escuto esse escândalo!
Um perfume vermelho me pensou
(Eu contamino a luz do anoitecer?)
......
Me mantimento de ventos.
.......
Desculpe a Delicadeza.
O Livro das Ignorãças)
Beijo
Cláudia
Corrijo: "O romance é um retrato de parte da Rússia do séc XIX."
ResponderExcluirDelicado, lúdico...fotos reias..gostei de tudo.
ResponderExcluirParabéns
Grande beijo
Nathália,
ResponderExcluirParabéns pelo texto. Muito bonita a fotografia “desfocada”. Às vezes imagens desfocadas ou sobrepostas são utilizadas quando se pretende determinados efeitos.
Um abraço,
B.
Cláudia,
Gostei muito da conexão feita com Tolstói e Benedetti.
Realmente o sexto andar da KaDeWe é uma tentação. Um sorriso não me escapou diante das prateleiras de marzipan. Não mais chamarei esta cidade de gélida. Como você disse " Wenders nos mostrou que Anjos vivem em Berlim. Anjos vivem em qualquer lugar onde crianças transformam poça em mar”.
Abraço.
B.
Naaaat,
ResponderExcluirliiiindo o texto! A-M-E-I... simplesmente, incrível!
Adorei a foto também, ela é linda.
Impressionante, como a foto se encaixa perfeitamente com o seu texto.
Eu e Eu!
PARABÉNS amigaa
beijos