segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Que maratona!

Para lá e para cá com o meu caderninho...
Um final de semana e quatro espetáculos vistos.
A intenção não é a de compará-los como se tivessem propostas idênticas, mas de simplesmente colocar por escrito as impressões e sensações oriundas de tais experiências.


O primeiro visto foi Amorzinho, um Conto de Tchekhov que estará em cartaz até o próximo final de semana no Teatro Glauce Rocha no Centro do Rio de Janeiro.
Um conto que por si só não é leve, mas que soube ser passado com leveza ao público.
A história gira em torno de uma mulher que não se sabe mulher quando não está em prol de outrem.
Ela se casa com um homem voltado para o Teatro e a sua vida é repleta de amor não só pelo homem como pelo que ele faz. Ela passa a dizer o que o homem diz.
O homem falece e Olenka de olhos virados para dentro não vê a si própria, mas a solidão.
 Ela questiona: "O que devo fazer?"
O tempo passa e ela se casa com outro homem. O indivíduo da vez trabalha no ramo da venda de madeira. Ela sente sua vida repleta não só de amor pelo homem como pelo que o homem faz. Os seus discursos não falam mais sobre espetáculos. Ela fala sobre madeira. Ela sonha com madeira. Ela se torna essa mulher e em um determinado momento ela chega a dizer que trabalha tanto com o marido que não tem tempo para gastar indo ao teatro.
O homem da madeira falece. Ela questiona: "O que devo fazer?"
Ocorre que Olenka se envolve com o veterinário que era seu amigo.
Entretanto, este não falece.
Ele, ao contrário dos outros, não suporta vê-la reproduzindo os seus discursos, o que o faz ir embora, sem que ela perceba o real motivo da separação.
A vida de Olenka se torna vazia. "Seus pensamentos e coração estavam tão desertos como o seu pátio."
Ela tornou-se uma mulher infeliz, pois sua felicidade sempre era descoberta em outrem, como um tesouro que não é próprio.
"E como é pavoroso não ter opinião."
 Olenka, o amorzinho, não se deixava desenvolver como um ser, mas como uma repetição daquele que se tornava o seu amorzinho.
 O tempo se passou... a mulher envelheceu...
 A história ganha um desfecho inesperado no que diz respeito aos fatos.
 É surpreendente não simplesmente o que ocorre de novo, mas a forma criativa pela qual o passado se repete. Não direi o final...


 O segundo espetáculo visto foi o musical noir Outside, feito com base em um poema escrito pelo músico David Bowie. O musical estará em cartaz até o próximo final de semana no Espaço Tom Jobim no Jardim Botânico.
 Trata-se da história de Norma Jean, uma adolescente que se deixa ser assassinada para que seu corpo depois de morto seja considerado uma obra de arte devido a forma como foi morta. Um inspetor de crimes de arte da galeria Peggy Guggenheim é acordado por um telefonema que o avisa do desaparecimento de Norma.
 A partir desse acontecimento, a galeria em questão se volta ao ocorrido, uma vez que passa a ser questionado se um crime pode ser considerado uma obra de arte.
 O que me encantou nesse espetáculo foram três fatores: as reflexões propostas, a banda ao vivo e a excelente atuação, que me mostrou na prática o que é profetizado nas aulas de Teatro.
 Os momentos em que os personagens interagiram com o público me encantaram, pois senti que não era simplesmente testemunha do que se passava, mas cúmplice em alguns instantes, como no das reflexões propostas a respeito do que é se tornar um plágio de si mesma.
 É importante que não nos tornemos um plágio de nós próprios, aprendendo o que a arte de envelhecer nos ensina e aplicando aos nossos novos atos.
 Trata-se de um espetáculo que critica a sociedade voltada ao culto à imagem, sendo interessante perceber que Norma Jean, o nome da menina da peça que permite sua destruição em  prol da arte é o nome que Marilyn Monroe foi registrada ao nascer.
"Toda arte possui em si um potencial subversivo e criminoso." Será?





O terceiro foi o espetáculo do Grupo Corpo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
O espetáculo de dança contemporânea foi dividido em dois atos (o corpo/ sem mim), sendo o segundo o que mais me emocionou.
 Assisti sentada na galeria, o que me fez pensar antes do espetáculo que não iria conseguir enxergar tão bem.
 O espetáculo foi iniciado e a sensação de ver o palco vermelho por completo e aqueles bailarinos dançando como células de um corpo em sintonia me fez ter a certeza de que o local escolhido não poderia ter sido outro. A dança que mostrava que o corpo ia além de si... O corpo é a extensão da alma, eu senti.
 A coreografia do que segue e logo é seguido é tão fenomenal que num instante já não sabia mais quem seguia e quem era seguido. Todos eram guias. Todos eram células encadeadas.
 A necessidade da individualidade para a composição de um tecido foi a principal mensagem sentida por mim ao contemplar tamanha arte!
 Houve um momento em que duas dançarinas dançavam juntas e que o corpo de uma ficou na frente do corpo da outra em uma posição que me fez lembrar do homem vitruviano de Leonardo da Vinci. Um instante apenas e uma lembrança que perdurará.
 Os sons... Os corpos... Os corpos "tatuados"... Os movimentos... O som dos pés...
 As cabeças erguidas... As mãos que levavam e traziam...
 E o momento que levou lágrimas aos meus olhos... o homem e a mulher dançando embaixo do pano transparente...
 Até então sintonia da existência e da importância de todos no cerne social.
 A partir de então sintonia "literal" do amor... do amor... do que é ingênuo, puro, inevitável e por isso talvez tão sensual.



 O último espetáculo visto foi Contos de Sedução feito pelo Grupo Tapa, inspirado em seis contos de Guy de Maupassant no teatro do Caixa Cultural.
 Devaneios e realidade. Como diferir?
 Questões relevantes que criticam a hipocrisia social.
 A mulher que quer trair o marido com ele próprio. Ela deseja sentir que é a sua amante.
 O fruto proibido.
 "As intoxicações da relação amorosa."
 A dor e a loucura.
 O que tem de real na loucura e de louco na realidade?
 O espaço em que a peça foi passada é intimista e permite que a platéia se sinta mais próxima à realidade apresentada. Não se trata simplesmente da belle époque.
As questões se repetem, o que torna a peça tão interessante!
 Senti na atuação uma aula. Belíssima por sinal!

Boa Semana a todos! =)

Um comentário:

  1. Querida, Continue sempre com as suas maratonas culturais. Fico muito feliz com os seus textos, inclusive os que não constam do blog. São bálsamos. Elevam e suavizam. Obrigada por compartilhá-los. Adorei quando colocou nos textos anteriores a importância do riso, da comédia , do drama , e da vivência dos personagens. Lembrou-me do grande autor russo, Nikolai Gógol, em Teatro Completo, obra que citamos outro dia em uma das nossas conversas. “ O riso é muito mais profundo e significativo do que eles pensam (....) O riso de que falo é o que nasce da profunda natureza humana. Nasce dela, porque é no fundo da natureza humana que está a fonte que faz fluir eternamente os temas mais profundos. Os temas jorram dessa fonte com ímpeto ao invés de deslizarem sem forças. Sem a intensidade de penetração dessa fonte , a mesquinharia e as futilidades do mundo não chegariam a assustar o homem (...) O riso causa indignação porque ele ilumina o que estava na escuridão “ . ( À saída do Teatro depois da representação de uma nova comédia _ Nikolai Gogól.) Com profunda admiração, Te amo, Mãe

    ResponderExcluir

O que Epicuro e a Terapia Cognitiva têm em comum.

            Epicuro nasceu há 341 a. C. Aaron Beck, o criador da TCC nasceu em 1921. Epicuro foi um filósofo. Beck é um médico, cientista e ...