Um amor. Um terraço. Um aposento.
Uma mesa. Uma cama. Um dicionário.
Palavras, todas elas, ali, no vernáculo empoeirado.
Na canção dos olhos. Na canção do rádio...
Na melodia dos sonoros cantos entoados.
Na melodia dos sonoros cantos entoados.
Tomemos um café para enganar a fome.
Alivia. Desperta. Exaspera.
Ouvimos “desperta”?
Há um som que deixa essas casas da rua de trás.
Vêm, por ali, todos eles tão tímidos.
Mas, que timidez! Ainda assim invadem nossa morada.
Uma mesa. Uma cama. Um dicionário.
Escrevo um poema. Dá-lo a quem? A mim mesma?
E o que ele me traz?
Dá-lo a ti, ao teu semblante?
Abriria um sorriso?
Abriria um sorriso?
Um amor. Um terraço. Um aposento. Um dicionário.
Recebo uma carta. Duas. Algumas. Centenas.
Onde guardá-las?
Haveria tantas gavetas na parte de dentro?
Acendo um cigarro. O vento o leva de mim.
Fumar faz mal, diz a parte reconhecida.
Acendo outro. O vento leva outra vez.
Eis, que decido ficar comigo.
Sem goles, cigarros, ou distrações.
A luz invade a mesinha. E o papel, branco, amarelo fica.
Do sol? Da doce quimera?
Ou de um passado que se queima em ventos que levam cigarros?
E por assim dizer, eis que abro, também, o dicionário.
Espelho de algumas passagens.
Amar é um verbo. E amor?
Palavras não amam ninguém.
Fecho-o. Vou sentir o horizonte. Há, lá, pássaros que
cantam.
Doces notas ao soar de mim.
Uma brisa que bate. Uma história que insiste. Um relógio que
encarde.
E diante, o tal livro de português.
Tia Maria dizia que dois nãos repetidos, era o mesmo que o
sim.
Palavras não amam ninguém.
E agora? Passo a ser o oposto? A afirmação escondida?
Palavras me amam. Em minha pele, centenas delas.
Palavras me acariciam. Em meus olhos, uma porção.
Palavras, alimentos.
Mas que alimentos são esses, que puros, só à fome deixam
espaço?
Fecho o livro, o dicionário.
Mas antes, outra palavra.
Tão seca, tão crua e cruel.
Ato. Leio-a bem alto.
Ato.
E de novo, palavras não amam ninguém.
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