
Um bule de café e eu conto.
Entediante. Estressante. Os vocábulos mais citados no que diz respeito a ela, a ilustre rotina.
Se há muito o que fazer, estressante. Se há pouco, bom por um momento, já que deixa de ser estressante e logo em seguida, entediante. Não simplesmente entediante, mas entediante de uma maneira que angustia.
Em ambas as adjetivações a angústia ganha espaço. E penso que seja pela razão de a angústia ser um dos sentimentos que nos inundam quando sentimos que a vida está passando rápido demais, ou até mesmo lentamente, mas inutilmente.
Nós, os ambiciosos de plantão, queremos mais tempo para o que vai além dos afazeres e mais afazeres quando temos tempo demais, de uma forma que sempre encontramos razões para nos convencermos de que não somos completamente felizes. A felicidade é projetada em um agora distante que depende de centenas de fatores, que de uma maneira ou de outra sempre dependem do tempo. Coitado do tempo, sempre o vilão! Comecei a ficar com pena dele...
Foi nessa de utilizar o meu tempo para refletir, que ele veio conversar comigo. Não mentiria, ele realmente estava com um semblante longe de ser caracterizado como feliz, mas também não posso dizer que era de todo infeliz.
Talvez em razão de ter muito o que fazer, mesmo tarde da noite, achei conveniente oferecê-lo uma xícara de café para que a minha companhia se tornasse mais agradável, ou melhor, digo, sinceramente, para que ele não sentisse sono. Afinal, se apenas um bocejo de um mortal é capaz de contagiar, quem dirá o bocejo do maior vilão do século...
Na dúvida, uma xícara de café, duas xícaras de café...um bule quem sabe...
Ele é extremamente diferente de qualquer pessoa. Sei que parece óbvio, mas foi inevitável tentar buscar características humanas em um “ser” “coisa” “fenômeno”, enfim no tempo mesmo, já que não há palavra alguma que vista decentemente o seu sentido a não ser ele próprio. O que mais me instigou foi o fato de ele falar coisas aleatórias que pareciam não fazer sentido algum e principalmente, o fato de ele não explicar a razão de falá-las. Senti-me angustiada. Tantas vezes ocorrem situações ao longo do tempo que parecem sem sentido...e eu teria a chance de desvendar diversos mistérios da vida, ou pelo menos, da minha vida!
Quando percebi que teria essa chance e notei que ele não iria me dar o que desejava, comecei a ficar angustiada. Sim, ele percebeu, se irritou um pouco e resolvi calar-me.
Já que o Senhor Tempo parecia ser “do contra”, achei que a melhor solução seria a de ficar quieta e deixá-lo falar o quanto quisesse, do que quisesse, pelo motivo não revelado que quisesse. E ele falou. Ele falou, falou, falou. Sobre o que?
Falou sobre seres que possuem sonhos que não trazem consigo a obrigatoriedade de serem realizados. Seres que não sentem a necessidade de trazê-los para o mundo real, por acreditarem fielmente que o mundo real é o mundo da imaginação. Afinal, passam horas do dia se dedicando ao mundo que inventam e se sentem extremamente perturbados quando algum ser os interrompe para mandá-los fazer algo que nada tenha a ver com o mundo que estão envolvidos. São obrigados a retirar a coroa de príncipe e princesa, sair do mar logo na hora que a sereia cantava, descer do foguete que estava quase chegando em Plutão, aprender a falar a língua dos homens logo na hora que estavam travando um diálogo com o cachorro da vizinha e ainda, para a desgraça momentânea desses seres, serem obrigados a explicar os traços que colocam no papel e terem que escutar que o que dizem ser uma estrela é pura e simplesmente um pingo azul no papel que mais parece um rabisco do que qualquer coisa! Ah! Quanta prepotência dizer que não se trata de uma estrela! Eles respondem no sentido do mundo que vivem, pois não sabem que os outros seres que os importunam não se referem ao mesmo mundo. Não sabem o quanto sofrem esses seres, uma vez que foram expulsos um dia do mundo da imaginação. Ou melhor, ajudaram a construir o trem que os retiraria de lá e os levaria para um mundo cinzento.
Desde então, passam a se sentir frustrados a cada sonho não realizado, e colocam a culpa no tempo. Dizem que o tempo passa rápido demais impedindo que realizem tudo que desejam. Dizem que o tempo quando não está repleto de afazeres os levam a uma paz tão grande que os leva à depressão e de lá sabe-se lá para aonde! Dizem que o tempo foi o trem que os retirou do mundo colorido. Dizem que o tempo é curto e que é preciso aproveitar cada dia como se fosse o último, mas não sabem como conversar com uma criança...
E foi repentinamente, como num passe de mágica, que caí em mim. O Senhor Tempo já estava me dando a chave de todas as minhas perguntas. Ele me “reapresentou” a criança que há em mim. Quais foram as respostas que encontrei? Só sei que existem e que são importantíssimas, mas estão em outra língua, num lugar distante e em que cada letra possui uma cor.
Ótima semana a todos, muito embora saiba que somente aqueles que compreendem os mesmos signos sejam capazes de ter uma ótima semana.
Nathália,
ResponderExcluirADOREI. Somos mesmo muito esquisitos! Bem...como eu fiz um comentário muito "sério" sobre os os filmes em que atuaram Pacino, Streep e Javier, me dou o direito de pegar meu foguete e ir para o mundo da lua! Conversar sozinha é muito bom!beijos
Nos encontramos na lua!
Cláudia
Cláudia e Nathália,
ResponderExcluirAinda possui uma vaga neste foguete para um velho amigo? Prometo não atrapalhar qualquer "conversa" da Cláudia !
Nathália, parabéns pela merecida aprovação no teste.
Adorei o texto sobre o "vilão" do século.
Abraços.
B.
É incrível como o tempo é humano, exatamente como nós. Ele tem a capacidade de ser o pior dos vilões e o mais amado dos mocinhos. O mais incrível disso é a velocidade com a qual ele consegue alterar suas facetas. Na verdade, pensando melhor sobre o assunto, acho que concluo que o tempo e meramente mais uma vitima da incrível mania que temos de estipular culpados para toda e qualquer dificuldade que encontramos. Talvez deveríamos refletir sobre o verdadeiro culpado por não termos tempo para os nossos filhos ou para o nosso ócio, afinal, foram nossas escolhas que nos fizeram pessoas tão atarefadas. Ou reclamar do tédio que nos consome a alma sendo que partiu de nos a busca pelo tão esperado descanso, mesmo tendo mil coisas para se fazer nesse mundo. Diante disso passo a ver o tempo como um mero espectador da peculiaridade humana e vejo que nunca vou conseguir alcançar tamanha complexidade. Estranho né?
ResponderExcluirVocê escreve como uma pequena grande mulher, que cresceu mas conseguiu manter a essência infantil.
Te admiro mais e mais!
Amo você