domingo, 15 de abril de 2012

Sendo.



Um mês. Dois enterros.
Diante de mim, o corpo sem vida.
Olhar o corpo e saber que a alma não está ali.
Diante do óbvio, o espanto.
O silêncio entre mim e o ser.
O silêncio entre mim e eu.

Dentre todas as perguntas sem respostas:
Por que me referir no tempo passado aos que faleceram?
Se me refiro a um autor falecido, posso fazer referência no presente. 
A explicação é de que a referência é ao autor em função da obra.
A obra imortaliza.

E as obras feitas pelos nossos anônimos que se vão?
E se essas obras foram transcritas em atos que tanto nos acrescentam?

Não se trata de apelo religioso.
Acreditando ou não na alma...
Na vida após a morte...
Aquele que se foi se mantém vivo dentro de cada um que conviveu.
Nossos falecidos irmãos não eram belos, mas o são.
Vivem nas reticências de nossas memórias...

Se não puder me referir a eles no presente,não poderei fazer referência à pessoa alguma no tempo verbal do agora, pois o agora nada mais é do que o segundo transformador e todos aqueles que conheço, gosto ou desgosto nada mais são do que imagens da memória.

A cada segundo, um pensamento.
A cada segundo, uma emoção reveladora.
A cada segundo, uma célula que morre; outra que se multiplica.

Como nos referirmos no presente aos que estão vivos se eles se modificam a cada breve e vasto segundo consumado pelo tempo?

Ainda assim, damos a eles a honra de serem presenteados com o presente!
Eles, os pronomes que permitem que os verbos confirmadores de sua existência sejam conjugados no presente...
Permitem em razão de estarem vivos.
Mas o que é estar vivo?

Vivas ou mortas, o que guardamos das pessoas são lembranças, sendo o desejo de estar com elas, simples fruto da crença de que os momentos futuros se transformarão em lembranças tão valiosas quanto as consolidadas.

Percebo que valorizamos as pessoas dado o peso das lembranças, havendo, portanto, uma ponte leve e tênue entre "o ser" e "o que o ser faz alguém sentir".
O que sentimos em relação a alguém diz mais sobre nós do que sobre esse alguém.

Se vivos ou mortos, somos a cada instante produtos das concepções alheias firmadas em lembranças recentes ou longínquas...
(Há por dentro os próprios alheios. A falta de contradição é por si só contraditória.)

Se vivos ou mortos somos muitos, dada a multiplicidade daqueles que nos conhecem ou nos imaginam...

Se vivos ou mortos, somos por tantas vezes o que fomos...

Se vivos ou mortos, seremos sempre um só rótulo na mente de tantos, seja esse rótulo positivo ou não, independentemente do que sentirmos, pensarmos ou fizermos...

Se vivos ou mortos, somos o resultado do que somos aos olhos dos que são... dos que não são e gostariam de ser... dos que não são e não se sabem... dos que são e se desconhecem...

Nossas ações são reações. Sempre reações...
Imagina-se que mortos não ajam, por mortos estarem.
Por isso, o emprego do passado.

E a tudo que reagimos em função do que são esses mortos para nós?

E todos os conceitos que descobrimos em função desses que não mais respiram por pulmões?

E tudo o que pregamos? 
Toda e qualquer ação é fruto de.
O fruto da semente.

A semente não morre. Transforma-se.

Os mortos permanecem vivos, portanto.
Na vaga e doce terra do que chamamos memória.
Nós nos transformamos dado o peso da caixinha.
Não há um ser que possa dizer que ações não são reações.
Não há ser que escape.
Não somos sozinhos.


2 comentários:

  1. Nathy

    Se considerarmos as pessoas pela memória podemos sentir também a presença daquelas pessoas que estão longe porém em nossos pensamentos e refletindo no nosso jeito de ser, isto é sintonia,é o que une dois seres que muito se amam, portanto acredito em coisas que não vejo e não acredito em coisas que vejo.

    te adoro mtão
    bjinhosss
    Isabela

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  2. Não sei se você sabe, mas os japoneses respeitam muito seus falecidos. Eles acreditam que as pessoas simplesmente não morrem e nos deixam, acreditam que ao partirmos deixamos nossa essência ou um pouco dela nesse mundo. O que você chamou de caixinha para eles pode ser um simples papel com o nome da pessoa que se fora. Por acreditarem que a pessoa deixou um pouco de sua energia, não consideram que ela se foi por completo. Sempre nos momentos bons ou ruins, lembram que tem alguém olhando por elas mesmo esse alguém não estando ali do seu lado, aquela energia deixada, ficou do seu lado para não deixar a pessoa se perder nos caminhos malucos que a vida nos coloca. Não vou te falar que acredito nas mesmas coisas que os japoneses, hahah, mas em uma coisa eu acredito. Acredito que deixamos sim sem perceber nossa energia por onde passamos, seja ela positiva ou negativa. Onde quero chegar com tudo isso, Nathalia, a vida anda é verdade, sabes disso tão bem quanto eu, e cada dia que passa o passado aos poucos vai ficando esquecido iqual as pessoas que partem desse mundo, o vento sopra e jogo areia nas lembranças até soterra-las. Queria que você soubesse, quando dei para você aquela pecinha de xadrez, foi porque eu acredito ter deixado um pouquinho de uma energia minha, que a vida tenta arrancar todo dia de mim. Sei que você fez novos amigos, conheceu outras pessoas e talvez o que eu esteja te falando não tenha a menor importância, mas eu deixei com você a parte mais pura que eu tinha. Pois a energia que eu acredito ter na deixado, era a energia da minha infância, do mesmo garotinho que viu a pecinha cair no chão e se quebrar. Não sei se vou voltar a te ver um dia, não me arrependo de ter deixado algo tão importante para mim com você. Acho que deixei com você por saber que ela ficara segura com você e quando te dei, pensei sim nessas coisas, era para realmente uma parte minha nunca deixa-la sozinha. Como bem eu disse, a vida nunca para, temos pouco tempo para viver e muito o que fazer. Quero poder continuar meu caminho tranquilo sabendo que você sabe dessas coisas que acabo de falar. De novo, quero desejar tudo de melhor para você, saiba que qualquer coisa que você faça será grande, não grande em si pelo o que as pessoas consideram, mas grande pelo valor que você atribuirá ao seu feito. Boa sorte com tudo Nathalia. beijos

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