terça-feira, 14 de maio de 2019

A justificativa plausível pressupõe a aceitação do inaceitável?

Até que ponto saber ou imaginar saber as causas do comportamento violento do outro nos influencia a aceitá-lo?

Vocês já se viram pensando... A pessoa agiu assim comigo porque na infância ela viveu  isso, ela viveu aquilo?
É bem comum que a gente procure justificativas para os atos das pessoas. Não queremos acreditar que atitudes que nos magoaram foram porque a pessoa escolheu tomá-las. Queremos dar um motivo razoável, pois um motivo razoável nos faz aceitar melhor a situação. É bem complexo saber as causas dos comportamentos alheios, pois pessoas nas mesmas situações apresentam diferentes comportamentos. Entretanto, por mais que se parta dessa hipótese de que o comportamento alheio seria causado por uma razão que conseguimos abraçar como compreensível, é preciso que nos atentemos ao risco de passarmos a aceitar ser bode expiatório particular, vulgo saco de pancadas do outro. 
É usual que o desejo de vivenciar uma história unido às justificativas que abraçamos sobre o comportamento violento do outro conosco, coloque-nos em situação de sofrimento passivo. 
“Ele não é assim porque ele quer. Ele é assim porque seu pai não demonstrava carinho.” 
“Ela não é assim porque ela quer, mas porque a sua mãe devassava a sua intimidade.” 
Pensamentos como esses são múltiplos. Aquele que os tem busca acreditar que será o salvador do outro, que sofrer a violência faz parte do processo de ajudar o outro a se curar, faz parte do processo de ajudar o outro a aprender a amar. Ilusão.
Aceitar receber pancadas físicas ou verbais não torna o agressor candidato exímio a aprender a amar. Aceitar esse tipo de comportamento apenas reforça o contexto de violência. Afinal, o que um agressor busca é um sujeito a ser agredido. Se você busca ser amado busque um sujeito que mereça o dispêndio do seu tempo e amor, pois se há uma lei que o mercado nos ensina é de que para cada oferta há uma demanda, para cada demanda, uma oferta. Se a sua demanda é a de amor não oferte sua vida a um agressor. Não será amor que irá receber. 

3 comentários:

  1. Quando ao longo dos anos o comportamento agressivo não se modifica torna-se necessário buscar a causa, não no inconsciente, não as emocionais, mas a verificação do componente doença. O doente não tem escoha. Ele irá repetir, durante anos, o mesmo comportamento. Ele tem escoha? Não.
    Cabe ao profissional, o médico psiquiatra, fazer o diagnóstico correto. E apenas a aceitação da doença e a forma de amenizá-la caberá ao psicólogo. Uma doença progressiva, não diagnosticada, poderá transformar o agressor e a vítima da agressão, aquela que está mais perto, em graves situações de risco.
    A aceitação da doença é o primeiro e o mais importante passo para amenizar a doença ou, quem sabe, conduzir à cura.
    Quando o sintoma se repete durante décadas e o pior, em escala progressiva, o assunto deverá ser tratado dentro da área da medicina.
    Freud não explica. Os médicos, sim.

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  2. É preocupante, no Brasil, o número de feminicídios que poderiam ter sido evitados caso o agressor fosse tratado como doente.
    É revoltante o número de pessoas que morrem vítimas de agressoresque nunca foram tratados como doentes. A maioria é.

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  3. Um ótimo texto, coberto de razão. Não temos que nos tornar reféns daquele que não quer se tratar. Um ser intelgente que consegue trabalhar, estudar pode também se programar para o respeito às pessoas da família.
    Respeito à família também consiste em se submeter a tratamento médico.
    Parabéns pela visão lúcida , sensível e inteligente do assunto.

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