Fernando Pessoa criança.
Havia duas horas e meia entre um compromisso e outro.
Havia também o desejo de assistir a exposição de Fernando Pessoa nos Correios.
Pensei que fossem suficientes, mas terei que retornar para terminar de assisti-la, ou melhor tragá-la.
Todos os espaços me agradaram, mas a primeira sala com painéis que mudavam de trecho conforme o movimento pareceu mágica para mim. A sensação era a de que eu era uma fada que em apenas um gesto fazia surgir uma poesia de outra.
Heterônimos de Fernando Pessoa por painéis e mais painéis mágicos.
De repente, quando me vi diante do painel de Bernardo Soares pude me surpreender com o fato de que um dos poucos trechos do Livro do Desassossego escolhido foi o que mais me chamou a atenção na época em que o li.
O trecho estava lá fazendo-me reviver sensações, dentre as tantas que estava tendo.
"Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida."
A mochila estava pesada demais. Os nichos onde ficavam os painéis convidativos demais!
Resolvi sentar. Sentei e fiquei admirando as palavras.
Admirando o som de quando se transformavam em outras.
O som de quando sentia essa transformação dentro de mim, dentro das palavras sem forma que carrego.
Foram tantos os trechos que anotei...alguns de primeiro encontro, outros de reencontro, mas todos especiais.
"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive."
(Ricardo Reis)
Dizem por aí para que sejamos um pouco do que somos em tudo que fizermos.
Ricardo Reis nos diz para que sejamos a completude do nosso ser no mínimo que fizermos.
Não é mais valioso?
Penso que sim, pois sinto que em cada detalhe transpiro a alma por completo, que é completa, embora não haja um limite definidor de forma.
Que não façamos economia de nós próprios! Que cada flor tocada por nossas mãos sinta todo o calor do corpo que começa muito antes dos pés e "termina" muito depois da cabeça.
Ou melhor, as aspas não são suficientes, pois não termina nem "termina".
O calor se dissipa, mas não cessa. Não o calor da alma! Ele pode até se depositar dentro de uma flor, mas continuará em pingos mágicos pela terra que a abriga, pela água que a alimenta.
Ah! O lago pode até ter duas gotas, mas para uma formiguinha que gotas dignas de passeio de barco...!
Ah! E essa formiguinha verá o reflexo da lua bem ali...onde para nós não passa de duas gotículas de orvalho...
Até no orvalho a lua brilha!
Dentro de nós, inclusive.
Ah! Alberto Caeiro também me fez sentir a sensação de quando se come uma sobremesa diferente junto com alguém, que por alguma razão que se desconhece, também não havia provado dela ainda.
A sensação de quando se olha nos olhos da pessoa e se sabe que a sensação sentida a respeito daquele doce é a mesma, embora só se possa sentir com o próprio corpo.
O Meu Olhar
"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar..."
( Alberto Caeiro em "O Guardador de Rebanhos")
Em muito me senti atraída pelo pensamento do Barão de Teive, em "A Educação do Estóico",uma vez que entendo por característica primordial e inerente a todo intelectual o ato contínuo de refletir sobre o que o cerca e de questionar os padrões aos quais a sociedade o submete a obedecer a fim de que seja aceito.
Sendo, portanto, um homem que tem como característica básica o colocar pontos de interrogação onde a maioria do rebanho já atribuiu o ponto final, como condizer com os pontos de fim de questão quando se parece, em diversas vezes, muito mais sensato dar-lhe continuidade?
Barão de Teive ( A Educação do Estoico)
"Não há maior tragédia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. Não sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem à impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela dá-se em mim. Assim, por ter duas virtudes, nunca pude fazer nada de mim. Não foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida."
Foram muitos os trechos que anotei. Poderia citar mais, mas é tão boa a surpresa da surpresa que deixo a dica aos leitores do blog. Não percam!
Não deixem de ler as revistas expostas no segundo espaço!
É lindo o que Pessoa escreveu na Revista Athena pela morte de seu amigo Mário de Sá Carneiro!
Boa Semana a todos!
Exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo." até 22/5/2011
Visitação: de terça a domingo, das 12h às 19h (entrada franca)
Local: CENTRO CULTURAL CORREIOS: Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro, Rio de Janeiro
Vídeos tão emocionantes...!
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