quarta-feira, 18 de maio de 2011
Shirley Valentine
Duas horas. O tempo que eu tinha. Nessa brecha uma conversa com um amigo. Disse a ele que estava indo ao CCBB assistir uma exposição. Ele me falou que havia assistido Shirley Valentine e do quanto gostou e disse que infelizmente a peça já havia saído de cartaz.
Segui meu caminho. Chegando ao CCBB, resolvi pegar o folheto com a programação. Qual a primeira imagem que vi? Exatamente a de Shirley Valentine! Ali dizia que era o último final de semana da peça. Fui até o guichê e havia poucos lugares na platéia. Comprei meu ingresso por R$5,00.
Fui em direção a exposição da Laurie Anderson e quando voltei com a idéia de chamar uma pessoa para assistir a peça comigo, descobri que os ingressos tinham se esgotado num intervalo curto de tempo.
Um pensamento passou voando pela minha mente, algo como: "Deve ser para eu assistir essa peça sozinha." Algo como uma intuição...
...
Não simplesmente uma peça bem humorada. Trata-se de uma peça na qual o texto é significativo inclusive nas partes bem humoradas. Uma peça que nos faz rir e pensar sobre o que nos fez rir.
Grandes questões dentro dos convites feitos ao riso! Questões que se abordadas de forma distinta poderiam levar à tristeza, mas que são introduzidas de forma sutil a convidar à leveza necessária para a mensagem do todo.
Shirley, uma mulher casada, mãe de dois filhos já criados.
Shirley, uma mulher que se sente só.
Shirley, uma mulher que se deixou arraigada no canto encardido da parede da sala para não atrapalhar as partes mais alvas do recinto.
A história de Shirley Valentine interpretada por Betty Faria foi encantadora!
Havia Shirley em Betty em todos os momentos. Havia Shirley em Betty não só no caminhar, não só na forma de trabalhar o texto, não só nos olhos, como inclusive na maneira pela qual cortava as batatas. A maneira que Betty, ou melhor, Shirley as manuseava deixava naquelas batatas a intenção de cada palavra, em seus diferentes tons.
Shirley, uma mulher casada que se dedica integralmente ao marido. Essa ganha de sua amiga a passagem de ida e volta para fazer uma viagem a Grécia de duas semanas, que era um grande desejo seu.
Entretanto, Shirley inicia seu discurso sozinha na cozinha enquanto prepara o jantar de seu marido dizendo que não iria a Grécia por não querer deixá-lo sozinho. Uma viagem de duas semanas apenas!
Uma simbologia que mostra o quanto muitas mulheres deixam seus sonhos irem sozinhos num barco até os oceanos mais distantes renunciando a oportunidade de acompanhá-los.
Os sonhos naufragam sem seus sonhadores, mas as oportunidades não. Como li uma vez em algum lugar do qual não me recordo: "Uma oportunidade nunca é perdida. Há sempre alguém que a encontre."
Houve um momento que Shirley me fez lembrar muito dessa frase lida e de um texto que escrevi sobre o porquê de eu ver a oportunidade como uma peninha. Esse texto é o seguinte:
Um dia li “Uma oportunidade nunca é perdida, alguém sempre vai aproveitar as que você perdeu.”
Alguns esperam a oportunidade para aproveitarem as oportunidades. Não sabem eles nada de peninhas lindas e coloridas.
Eu vejo uma linda pena voando. Posso não fazer nada e (por sorte, acreditam alguns) ser surpreendida com ela na minha mão. De tão surpresa, acabar só olhando e sendo vítima, de repente, de um vento mais forte pronto a levá-la de mim. Não há nada que eu possa fazer, a pena voou e seu destino será nas mãos de um outro, seja daquele que tomar uma atitude quando ela, por acaso, cair como caiu em mim, seja daquele que a vir dançando nas nuvens e a perseguir até alcançá-la, independentemente do esforço necessário.
Para mim a oportunidade é uma peninha. Mas não uma qualquer.
http://nathaliareina.blogspot.com/2009/10/levinha.html
Lembrei-me desse texto que escrevi no momento quando Shirley disse que existia um lugar reservado para ela, mas percebendo que ela não chegava, esse lugar foi dado a outra pessoa...a alguém mais jovem que soubesse falar a língua da vida.
Shirley conversava com a parede, sua companheira que não evitava mostrá-la a todo o tempo que sua companhia era simplesmente a tradução da solidão existente.
Enquanto divagava, lembrou-se de quando ainda namorava o seu marido. Ela se lembrou de quando os dois ainda não tinham ido morar naquela casa...do dia que pintaram as paredes a fim de preparar o futuro lar...
Ela se lembrou de como aquelas paredes foram importantes, de como as paredes foram tradução da união de ambos e de como se transformaram na obra morta viva da desunião.
Dentre suas histórias, Shirley nos contou que após o dia inteiro preparando o jantar de seu marido, sujeito colocado acima da viagem que tanto sonhava, esse teve a capacidade de chegar em casa e desdenhar da comida feita.
É importante deixar claro que um dos argumentos que Shirley utilizou para tentar convencer a si própria de não aceitar as passagens foi o argumento pautado na preocupação voltada para a alimentação de Jorge! "Como Jorge comerá? O que Jorge comerá?"
Este, outro dado de extrema simbologia ao meu ver. O motivo da preocupação desdenhado pelo próprio sujeito que era tido como protegido! Ele desdenhou as batatas e desdenhando as batatas desdenhava Shirley. Ela "desdenhou" a viagem à Grécia e "desdenhando" a viagem à Grécia, desdenhava a si mesma.
Por não ter se permitido a cegueira total, Shirley resolve viajar.
Outro dado importante se mostra na maneira pela qual resolve fazê-lo.
A decisão tomada é a de viajar escondida.
Apenas sua filha toma conhecimento.
Ela diz resolver viajar sozinha por saber que se contasse ao marido, esse a convenceria a não ir. Interessante pensar que mesmo sendo portadora de todos os argumentos para tomar uma determinada atitude, essa tem conhecimento de que outra pessoa é capaz de fazê-la deixar de tomar a atitude pretendida por meio do convencimento. Interessante perceber como Shirley conhece a si própria e a sua fraqueza. Não concordo que pudesse ser convencimento.
Shirley poderia ser persuadida.
Interessante observar que mesmo sendo portadora de todos os argumentos que a convenceram, ainda assim era portadora do medo de ser persuadida a fazer o contrário do desejado.
Ela conta para a filha apenas pelo fato de a filha ter ido ao seu apartamento dizer que havia decidido passar um tempo tanto com ela quanto com Jorge.
A filha não só não a deu apoio, como disse que a mãe era ridícula e que viajar naquela idade com outra mulher era "pouca vergonha"! Logo a filha que era lésbica e morava com outra mulher...
Importante alusão à hipocrisia da sociedade, que é na maior parte das vezes reflexo dos núcleos familiares que a forma. Ou seriam os núcleos familiares reflexo da sociedade?
Penso que ambos se influenciam, sendo a família um núcleo social de ensinamento dos valores a serem utilizados na sociedade externa, no mundo que suga se não se souber nadar.
Há um momento que Shirley lembra de sua vizinha Luci, vizinha essa que me fez lembrar de Dona Matilde de Nelson Rodrigues em O Beijo no Asfalto.
Shirley disse: "Se você tem um resfriado, ela tem logo uma pneumonia!"
Percebe-se que o texto também se preocupa em fazer referência ao sentimento de necessidade de superioridade. Quem não conhece alguém assim? Se é dito que se foi a uma praia muito bonita, a pessoa logo diz que a sua praia era mais bonita...e assim por diante... E o que importa?
E o que de fato importa?
O que dizer da cena que Shirley está arrumada e de malas prontas?
Foi lindo especialmente o momento em que ela se virou de costas para o público e ficou de frente para um espelho que distorcia a imagem ao seu favor! Ela ali diante do espelho olhando a si própria e vendo a si própria como maior do que era!
Vendo, ao meu ver, a realidade de si própria, o que era por dentro, além da imagem, além da altura, além de tudo o que se pode chamar de físico!
Ela disse: "Naquele momento eu era eu. O telhado já não parecia alto. Eu poderia pular de um arranha céu! Eu não vou permitir que o medo me impeça de viver!"
Era bonita a forma como ela deixava o nome de casada de lado e passava a se referir a si própria com o seu nome original: Shirley Valentine.
Penso que sejamos alguém independentemente do nosso nome. Já li teorias que defendem que o nome influencia na personalidade. Será? Será que influencia tanto?
Penso que se a pessoa tiver horror ao nome pode acabar desenvolvendo um quadro de insegurança.
E se o nome for considerado comum? Há diferença entre um nome comum e outro na formação da personalidade?
Penso, inclusive, que não sejamos todas as nossas atitudes.
Como poderíamos ser resumidos a um grupo de atitudes se somos uma infinidade de atitudes, pensamentos, sentimentos...?
Como poderíamos ser um nome? Soa engraçada a pergunta: "Quem você é?"
Ainda mais engraçada a resposta: "Sou Nathália."
Amo tanto escrever que não saberia viver longe das palavras!
Elas dão forma ao que sinto, mas o que sinto é infinitamente vasto ao ponto de não ter forma.
A palavra limita. Nosso sentimento é ilimitado.
Dentro de cada letra, por cima de cada uma, por baixo e por fora, voando longe ou mesmo pertinho...paira a sombra deixada pela alma em cada voz de sentimento cantado, em cada voz de sentimento calado que se descobre quando se tenta pronunciá-lo ou quando se tenta, inclusive, pronunciar a sua inexistência.
Voltando a Shirley...
Shirley viaja à Grécia com a sua amiga.
Entretanto, fica sozinha nos primeiros dias de viagem, uma vez que sua amiga resolve passar esses dias com um homem que conhece no avião.
Mais uma vez a introdução de um tema importante! Shirley divaga sobre o quanto uma mulher sozinha gera incômodo! Conta a situação dos seus dias de jantar a companhia de si mesma.
Conta como era olhada! Conta, inclusive, que um casal chegou a convidá-la para jantar e que no momento que aceitou o convite, movida pela pressão, o restaurante voltou a ficar calmo, retornando ao fluxo normal das conversas que o abrigavam...
Ela disse: "Todo mundo olha! Como se fosse motivo de pena..."
Mulher sozinha num bar de restaurante de Hotel a noite gera pena e preconceito. Por quê?
Uma mulher pode conquistar uma carreira de sucesso, pode criar filhos com valores éticos mesmo no meio de uma sociedade que deturpa o que é a ética na prática, pode chegar a lugares inimagináveis, mas não pode simplesmente gostar da própria companhia ao ponto de querer ir a um restaurante sozinha? Comer é um prazer tão individual...
Ser é um prazer tão individual.
Nessa viagem Shirley conhece Nico e descobre o que é o prazer sexual com ele.
Ela, porém, descobre que não se apaixonou por ele, mas por si própria.
Ela descobre que a entrega foi realmente feita a si mesma.
Ela decide ficar na Grécia e diz a Nico que não quer nada, somente um emprego em seu restaurante. Ela diz que não se apaixonou por ele, mas por si própria...
O finalzinho? Deixo no ar para que descubram quando a peça ficar novamente em cartaz...
O ensinamento mais marcante de todos para o mim foi o de quando ela disse algo que remetia a seguinte idéia: Um dia se percebe que não se tem 20, 40, 60 anos...Um dia se percebe que se está viva!
Acabo de rever algumas imagens da peça nesse vídeo e perceber que o reflexo do espelho é igual ao tamanho real de Shirley...
A minha memória guardou que o reflexo era maior...
Acabei de sentir uma sensação especial.
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QUERIDA,
ResponderExcluirFAZER OS COMENTÁRIOS DO BLOG PESSOALMENTE É UMA TROCA MUITO EFETIVA, PROFUNDA, OU SEJA, UM VERDADEIRO APRENDIZADO DIÁRIO. FICO PROFUNDAMENTE EMOCIONADA COM TANTAS AFINIDADES QUE TEMOS E ORGULHOSA COM SUA DEDICAÇÃO E AMOR PELA ARTE. NO ENTANTO, HOJE DEIXO MEU REGISTRO TAMBÉM ESCRITO: VOCÊ Ë UM SER HUMANO MARAVILHOSO! TE AMO MAE
Em relacao a perder oportunidades, a cada segundo perdemos varias. Que pena que nao assisti essa peca, fiquei com vontade agora, tomara que entre em cartaz de novo, e em breve. E o fato de voce ter comprado pra voce e ao voltar nao termais convites COM CERTEZA foi um sinal para assistir sozinha. Um desses momentos de reflexao que precisamos, e que bom que foi otimo pra voce, fico feliz!!
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