domingo, 25 de setembro de 2011

Ladrões de Bicicleta

 Como prometido no post anterior, dedicarei esse post a Ladrões de Bicicleta.



Um filme de Vittorio de Sica que traz a tona não somente as consequências óbvias do desemprego no que diz respeito a  questão do proletariado, mas sobretudo aquelas que exigem um pouco mais de sensibilidade para que sejam notadas com a atenção que merecem.
 Antonio Ricci, um homem desempregado. Não simplesmente isso. Antonio Ricci, um homem ético desempregado.
 O filme se desenrola na questão da necessidade versus ética, o que muito me atrai, uma vez que considero o ato de julgar o comportamento de um homem algo que exige extrema delicadeza, tendo em vista que as circunstâncias têm a possibilidade de atingir um peso que ombros carregadores de ética e ideologias respeitáveis podem não suportar.
 Antonio Ricci se vê na iminência de arranjar um emprego. É necessário, porém, que consiga uma bicicleta, pois sua função é a de colar cartazes pelas ruas.
  Ele troca alguns pertences de valor sentimental, como lençóis do seu enxoval de casamento pela bicicleta. Isso, porém, não o permite sentir pena pelo que se foi.
O homem sente profunda alegria pelo que surge.
  Há um outro porém. A bicicleta é furtada e o homem se vê diante da angústia e desespero da esperança roubada, do pão roubado, da dignidade arrancada por farpas que tendem a ocupar o seu lugar.
  Inicia-se a busca pela bicicleta e por todos os consequentes fatores imputados em relação a ela.
  O homem não está sozinho. Ele é casado com uma mulher que o ama. Ele tem um filho que o admira e que o ama incondicionalmente.
  Entretanto, a questão de ter ao seu lado pessoas que ama e que o amam tanto torna a busca ainda mais acirrada, uma vez que Antonio não se vê responsável apenas por sua sobrevivência.
  Bruno, um menino extremamente sensível se mostra em alguns momentos mais atento ao que o rodeia do que o próprio pai, trazendo a ideia de que não se pode subestimar a inteligência de uma criança.
 Enquanto os adultos muitas vezes se deixam cegar pelas situações de desespero sendo levados a cometer atos ingênuos de certa forma, a criança sensível e com a necessidade latente de ajudar aquele que é para ela um herói é capaz de enxergar separadamente as cores das circunstâncias, que aos olhos dos adultos podem se misturar.
  O filho se mantém ao seu lado o tempo inteiro, inclusive no momento que é tratado de forma injusta, momento esse que foi um dos mais tocantes para mim.
  Bruno diz que gostaria de comer. O pai tem a reação de dar um tapa no menino, que fica triste, mas que o perdoa.
  Perdoar, uma das atitudes mais difíceis de ser realizada. As crianças possuem capacidade incrível de fazê-lo, pois amam profundamente viver o presente, o que torna o ato de remoer o que ocorreu extremamente desnecessário quando se pode usar o mesmo tempo para construir castelos.
  O pai, em desespero maior, resolve furtar uma bicicleta.
Ele, entretanto, pensava que seu filho não estava vendo. Ele é pego.
 Desejam prendê-lo, mas um homem que vê Bruno junto a Antonio não permite que ele seja preso.
 Os olhos de Bruno não mostram a decepção da idealização perdida.
 Os olhos de Bruno mostram o amor incondicional, a compreensão além dos fatos por si só, a grandeza de um menino.
 Antonio sente profunda vergonha do filho. O filho segura a mão do pai. O elo.
 A mãozinha indo em direção a mão do pai que furta não por falta de ética, mas infelizmente por aquilo que a ética nem sempre é capaz de oferecer, tendo em vista o peso e a força das circunstâncias.
 Os dois caminham. Individualizam-se, não como individualistas, mas como indivíduos.
 A cena os mostra no meio dos transeuntes, como sujeitos de uma história especial que se repete.


Direção: Vittorio de Sica
País: Itália
Ano: 1948
 Elenco: Lamberto Maggiorani, Enzo Staiola, Lianella Carell, Gino Saltamerenda, Vittorio Antonucci, Giulio Chiari, Carlo Jachino, Fausto Guerzoni, Michele Sakara, Elena Altieri 


Um comentário:

  1. O forte elo entre pai e filho. A busca da dignidade roubada. O desespero, a angústia da perda , e o desalento , expostos cruamente. Um pobre trabalhador que se torna colocador de cartazes que vendem a ilusão da indústria Hollywoodiana . O filme coloca a coisa entre o homem e o trabalho de forma decisiva, transformando a bicicleta (objeto) em algo praticamente imprescindível para a sobrevivência da família. De tal forma, que se a “coisa” se perder , o homem poderá se perder com ela!
    Maria e a condição oprimida da mulher daquela época.. A religiosidade, a superstição e a magia como formas de proteção em uma Europa devastada pela guerra. O misticismo como recurso no meio do caos. Os lençóis empenhados possuem um grande valor , e representam a perda dos afetos, dos sentimentos e da memória pessoal quando dado em penhor com juros que poderiam levar à avaria do bem.
    A indiferença social se torna a indiferença pessoal de Ricci, o que podemos sentir nas cenas em que ele não percebe os perigos passados pelo filho, como tão bem lembrados em seus comentários. A possibilidade do perigo somente despertado na cena do rio.
    Outra cena marcante é a do restaurante. Quando chegam, o garçom com ares de superioridade como se também não fosse um proletário, informa que não se trata de uma pizzaria, o que sugere que não é um local popular. A pizza era considerada alimento de pessoas modestas (viva a pizza , principalmente as verdadeiras napolitanas que são deliciosas!) A mesa em que sentam é a única que não tinha toalha. As trocas de olhares entre Ricci , o filho e família da mesa ao lado são carregadas de significados.
    O filme também trata da questão da Ética . Importante no estudo da Ética das Virtudes entender a mediania (Ética a Nicômaco –Aristóteles ) e as ações extremas. Ricci estava em desespero, em total desamparo, sem perspectivas e exaurido após a busca de seu instrumento de trabalho. Estava desolado em um país com a economia assolada pela guerra. Encontrava-se em situação extrema quando em ato não racionalizado, mas impulsivo, guiado pelo instinto de sobrevivência, comete o furto. Tal ato o tornaria antético diante de sua vida até então pautada pela Ética das Virtudes ? ( Aristóteles) . Não estamos tratando de falta de ética verificada em muitas instituições, poderes, criminosos corruptos, etc..etc. Estamos tratando de um caso peculiar, daí a discussão entre particularismo , universalismo e estado de necessidade . Enfim, é uma discussão profunda, continuaremos em outro espaço!
    Umberdo D, Vítimas da Tormenta , A culpa dos Pais e Os Jardins dos Finzi-Contini, são outros filmes imperdíveis dirigidos por De Sica.
    Após filmes tão densos, podemos intercalar com gêneros mais suaves. No tema pais, filhos e infância, apreciei a leveza e suavidade de A glória de meu Pai e O Castelo de minha Mãe do diretor Yves Montand , baseados nas obras autobiográficas do escritor, teatrólogo e cineasta Marcel Pignol. Transmitem frescor, ternura e delicadeza.
    Jean de Florette e a Vingança de Manon, dirigidos por Claudi Berri, e baseados nas obras de Pignol , na minha opinião, são excelentes . A atuação de Yves Montand, Gérard Depardieu ,Daniel Auteuil e Emmanuelle Béart são aulas de interpretação. Tanto que Auteuil e Béart ganharam o César. Fiquei impressionada com a interpretação de Auteuil, um ator que eu sempre gostei , mas que nesse filme me surpreendeu. São filmes que nos levam a refletir sobre a mediocridade, a paixão, a resistência, a ética, a omissão, a fraude, a ingenuidade, o otimismo exacerbado que não permite perceber o que se passa, e outras tantas condições e sentimentos.
    Fico por aqui, pois corro o risco de não parar ! O tema é apaixonante. Amei seu comentário. Obrigada. São estimulantes. Uma “jovem tão jovem” com pensamentos e observações tão profundas e perspicazes.
    Com toda a minha admiração,
    Cláudia

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