A leveza de não desviar os pés, por não ter ovos no caminho, nos quais, em outras circunstâncias, poderiam se quebrar naquele ponto exato que mais incomoda. Naquele ponto fatídico dos pés, que se machucado, fica por dias a latejar a qualquer passo que se dê.
Porque os ovos, meus caros, estão enfileirados em caminhos que nos dispomos a ser seus transeuntes. Nós nos dispomos aos caminhos dos quais não existe a permissão para ultrapassá-los sem que deixemos, por ora, a própria forma de pisar, e ser.
Nosso ballet do qual nos faz os dançarinos que já éramos logo nos primeiros passos da infância.
Nesses tão genuínos. Tão originais. Tão nossos.
E deixar, por ora, de hora em hora, é deixar para sempre, por mais finito que o sempre seja, ainda que só caiba nessa vida tão fugaz a escorrer pelos pés, que dançam ou sangram ou desviam.
Pisar em ovos lateja o peito, desviar também.
Existe o caminho em que os ovos são ausentes.
Existe o caminho em que se pode adentrar o palco como um touro fumegante, e que se dança nas pontas dos pés por desejo, por arte, por felicidade de se alcançar, quem sabe, os céus. Não por medo, nem receio de pisar com a inteireza de nossos membros mais sofridos, esses ao qual todo e qualquer peso nosso se vêem destinados a suportar.
Existe. E sobrevive. Talvez por um instante. Por algumas horas.
Algumas semanas.
O tempo exato? Impossível medi-lo.
O que não se faz menos importante, somente o contrário.
E se o palco nos dura apenas uns segundos...
Esse palco sem cacos, sem ovos, sem granadas, que nos permitamos, portanto, vivê-lo.Não somente pisar. Mas esfregar os pés. Sentir o seu retorno, quente e vivo e fatal.
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