terça-feira, 3 de março de 2015

Dói.


O barco inunda. A água vem dos grandes blocos de gelo.
É possível sentir por um instante, mas logo as pernas se deixam anestesiar.
O senhor de todos os bens e males que sempre esteve ali, decide se fazer enxergar ao passo que as árvores começam a ganhar cores e, as pernas, movimentos.
A realidade nem sempre se apresenta com toda a sua força bruta. Às vezes, ela é sensível aos nossos apelos, ou mesmo às nossas condições. Por isso, as estações.
As águas que nos congelam e aos poucos nos deixam o sangue, quente e enfurecido, passar por entre as veias, essas senhoras não nos escondem a natureza nem, portanto, a nossa.
Despedir-se é feito um barco inundado das mais diversas temperaturas, ainda pior quando é possível enxergar o pavor da folha pendurada, na qual não é mais possível o equilíbrio tampouco cair no momento que mais lhe doer os ossos, os olhos, o coração.
 Amemos profundamente. Prestemos atenção. É o que nos resta.
 Essa reflexão, dedico ao meu avô Renê, meu grande e eterno companheiro. 

Música lindíssima sobre a velhice. Uma verdadeira poesia.
"Si je perds la mémoire, faudrait pas s´inquiéter. C´est que ma vie est au soir d´une triste journée."

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