sábado, 14 de fevereiro de 2015

Gestação onipresente.

Algumas imagens cismam em povoar o horizonte das promessas desacreditadas num rio fluido e sem escape.
Algumas lembranças vêm a se sobrepor às razões tão dignas quanto os apelos vorazes do coração, que agitado, sente.
Algumas carícias teimam em restar jamais no terreno confortável do passado, que, ultrapassado, tende à sobreviver numa dimensão já esquecida.
Alguns olhares são tão presentes quanto às suas memórias, de modo que fechar os olhos é poder, de fato, enxergar essas águas límpidas e puras, itinerantes no terreno insone do coração.
Algumas vozes se fazem patentes nas mais aleatórias horas, num pulo de um gato esperançoso, em busca de pés anfitriões.
São tantos os livros nas estantes. Tantas estórias. Quais dignas de viver realmente? O que seria mais real do que o sentimento insistente das horas que não se controlam?
Uma chama é trazida a cada tempestade reinante além dos telhados desses sobrados inocentes, certos de proteção.
Há nessas gotas qualquer magia, qualquer substância reconhecida e indecifrável. Uns pingos tão generosos adentram o lar sem pedir licença aos sapatos que, confortavelmente, deixavam-se secar.
Entram ligeiros, molham tudo o que já estava praticamente seco, coagulado.
Novamente, a ferida recebe a umidade dos banhos diários, tão necessários, num terreno onde o calor se prolifera e, úmida, já não se sabe mais se é loucura crer em sua cicatrização ou se a insensatez estaria em perder a crença por não se saber lidar com o espaço vago e questionável da espera.
Marinheiro pertinaz, o campo das emoções inadestráveis.
Aonde quer chegar, caro senhor dos mares, que tudo suporta sem sustentar a si mesmo?
Aprenderiam as sensações a viver planando na atmosfera ou até além dela, onde nem mesmo a gravidade lhes impusesse qualquer condição ou seriam como certos vírus que, na ausência do hospedeiro, morrem em sua latente inutilidade de ser?
Essas caras senhoras impertinentes, alheias à ordem dos talheres, dizem verdades inconsequentes sem ao menos esperar o morto esfriar a pele.
Tolas, ignoram a existência do tapete em frente à porta, invadem nossas moradas com sapatos imundos de uma terra fresca e irresistível.
Esses marujos que não se suportam presos, surpreendentemente, sabem realizar o feito de cantar por cima das amarras, de enxergar além das vendas. 
São tão fortes. É mais fácil abandonar a casa a expulsá-los dela. 
Entretanto, fugir não basta. Eles perseguem e adivinham, não se sabe como, a nova ventura.
Todo canto se sujeita às suas canções em qualquer tempo e circunstância.
Ah, o homem pena! Questiona, inventa.
Enfim, acaba por gerar canções, partituras, poemas.


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