quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Risotear.

   Os grãos de bico haviam ficado as doze horas de molho, conforme orientação majestosa. Suas mãos doces se puseram a tocá-los como se asas de tenros passarinhos fossem. Qualquer movimento brusco poderia arruiná-los para sempre, em suas respectivas vidas ligeiras.
Cuidado pontual. A moça, delicada, não deixava que um grão sequer se sentisse como apenas mais um componente entre partículas indiferenciáveis. A cada um que tocava, mostrava conhecer suas particularidades e, eles, gratos, não se desmanchavam. Mostravam-se fortes a quaisquer temperos que pudessem vir a contaminar seus corpos esponjosos. Pimentas, afinal, seriam só pimentas, ainda que invencíveis.

   As panelas permaneciam meticulosamente arrumadas esperando o escarpado ofício de se porem a trabalhar em contato direto com as chamas diárias. Quanto mais velhas, mais cicatrizes traziam, e mais calos também, o que fazia com que todos preferissem cozinhar nelas, mesmo que não compreendessem exatamente o porquê. Há em nós, inevitavelmente, muitas preferências misteriosas.

   Os grãos de arroz, calmos e lavados, permaneciam com o frescor das gotículas espalhadas em suas superfícies brilhosas, sentindo a tranquilidade de um banho anterior ao sono eterno. Esses não sofriam. Havia neles a perene capacidade de repousar após contato com cachoeiras, inclusive artificiais.

   A mulher de sorriso leve sentia cada instante como a descoberta ritualística do corpo. Era a ele que buscava oferecer prazer. À sua morada e a dos demais, que distraídos, permaneciam realizando tarefas diversas.
Passos de dança entre aromas e conquistas. Acertar o ponto era poder nadar até uma profundidade em que ainda fosse possível enxergar os detalhes de uma concha.

   Em mãos suaves, a presença impositiva do alho, que autoritário, deliciava-se ao toque adocicado de dedos tão jovens. Era o último prazer desse. Gozava a força de uma paixão alastrada por toda a cozinha. Não morreria sem deixar a fragrância de uma existência escondida entre cascas envelhecidas. Ele se faria lembrado, ainda que brevemente. Era igualmente breve a liberdade de poder olhar o mundo, terreno limitado de uma cozinha de janela pequenina.

   Bela circulava intimamente em seu espaço reduzido, fazendo-se dançarina de um palco no qual bastava o espaço de uma pirueta. A possibilidade não se alterava em decorrência de sua real existência. Multiplicava-se em si mesma, de forma que o movimento se tornava mais forte. Palavras sussurradas também tocam mais profundamente. Costuma ser assim.

   Sem haver mais o que cortar e separar, podia, enfim, começar a pôr os ingredientes nas panelas. Primeiramente, seria feito o arroz. A ela agradava muito o cheiro do alho dourando. Mal podia esperar.

    Suas mãos, de calmas passaram a ficar ligeiras e apressadas. As crianças gritavam do outro lado da porta, agitadas.
Nisso, ela punha a culpa por sua ansiedade desenfreada. Deixava que simples ruídos se tornassem música determinante em suas notas tão arrumadas. A moça empurrava as peças do dominó, antes que alguém o fizesse. Imperceptivelmente.

   Podia-se ouvir o alho estourando no óleo e isso a fazia inspirar cada vez mais fundo. Algumas gotículas fervilhantes acabavam parando em seus braços, mas isso a preenchia de um susto revigorante. Era desafiadora a necessidade de dosar a aproximação. O controle não era totalmente seu, por mais que estivesse lidando com óleo e alho, ambos comprovadamente acéfalos da natureza.

   Bela, ainda de coração palpitante por conta dos espantos fugazes, direcionou-se à sua tigela cuidadosamente plena de grãos de bico e, sem deixar espaço a qualquer reflexão, mesmo à menor possível, pôs-se a depositá-los por cima do alho fervente como se grãos de arroz fossem. Seu coração estava agitado demais para enxergar as notórias distinções entre ambos.
Copiosamente e de olhos fixos, remexia os grãos, sem, entretanto, vê-los.
Sem, entretanto, distingui-los.

  Por fim, ou por recomeço de uma nova era, a moça deu-se conta do que se passava à sua frente. Doze horas de molho à toa. Três horas em pé sem razão de ser. Quinze horas desperdiçadas. O alho havia penetrado nos grãos de bico como a loucura alheia se incrusta nos corações dos fracos ou dos tímidos demais para poder evitá-la.

  Uma lágrima se pôs a cair em chuva fina e insistente. Seus olhos não podiam crer. Seus pés não podiam suportar. As próprias panelas se entristeceram. Os grãos de arroz, esses, sortudos que eram, já se encontravam em sono profundo, onde, lúdicos o bastante, pressentiam suas doces quimeras.

   João, seu menino, embevecido de saudade da mãe, adentrou a zona de tristeza profetizada e, repleto de compaixão em seus olhos infantis, exclamou: Mamãe! Foi a cebola que te fez chorar? Aquela cebola má que te fez chorar no outro dia?

   Bela, sem palavras, mas repleta de todas elas, abraçou seu menino inteligente e  pôde sentir de novo um coração batendo em seu ventre. Pôde sentir os seus pezinhos se movimentando, tamanha era a vida que corria por entre as veias da cozinheira.

   João, de olhos atentos, embora cerrados, devido ao medo daquela que havia se tornado a vilã dos seus pratos, a senhora cebola, perguntou à sua mãe se ela já podia servir o risoto.

       - Risoto, João? Onde aprendeu isso?

           -  Na escola, mamãe. E você nunca fez.

   Bela, invadida pela vertigem do momento tão simples e esplêndido que vivia, partiu ao fogão a fim de, com maestria, não só salvar seus grãos, como multiplicá-los.
  Naquele dia, Bela fez pela primeira vez o risoto de grãos. Tão simples, tão enriquecedor.

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