Os grãos de bico haviam ficado as doze horas de molho,
conforme orientação majestosa. Suas mãos doces se puseram a tocá-los como se
asas de tenros passarinhos fossem. Qualquer movimento brusco poderia
arruiná-los para sempre, em suas respectivas vidas ligeiras.
Cuidado pontual. A moça, delicada, não deixava que um grão
sequer se sentisse como apenas mais um componente entre partículas
indiferenciáveis. A cada um que tocava, mostrava conhecer suas
particularidades e, eles, gratos, não se desmanchavam. Mostravam-se fortes a
quaisquer temperos que pudessem vir a contaminar seus corpos esponjosos.
Pimentas, afinal, seriam só pimentas, ainda que invencíveis.
As panelas permaneciam meticulosamente arrumadas esperando o
escarpado ofício de se porem a trabalhar em contato direto com as chamas diárias.
Quanto mais velhas, mais cicatrizes traziam, e mais calos também, o que fazia
com que todos preferissem cozinhar nelas, mesmo que não compreendessem
exatamente o porquê. Há em nós, inevitavelmente, muitas preferências
misteriosas.
Os grãos de arroz, calmos e lavados, permaneciam com o
frescor das gotículas espalhadas em suas superfícies brilhosas, sentindo a
tranquilidade de um banho anterior ao sono eterno. Esses não sofriam. Havia
neles a perene capacidade de repousar após contato com cachoeiras, inclusive artificiais.
A mulher de sorriso leve sentia cada instante como a
descoberta ritualística do corpo. Era a ele que buscava oferecer prazer. À sua
morada e a dos demais, que distraídos, permaneciam realizando tarefas diversas.
Passos de dança entre aromas e conquistas. Acertar o ponto
era poder nadar até uma profundidade em que ainda fosse possível enxergar os
detalhes de uma concha.
Em mãos suaves, a presença impositiva do alho, que
autoritário, deliciava-se ao toque adocicado de dedos tão jovens. Era o último
prazer desse. Gozava a força de uma paixão alastrada por toda a cozinha. Não
morreria sem deixar a fragrância de uma existência escondida entre cascas
envelhecidas. Ele se faria lembrado, ainda que brevemente. Era igualmente breve
a liberdade de poder olhar o mundo, terreno limitado de uma cozinha de janela
pequenina.
Bela circulava intimamente em seu espaço reduzido, fazendo-se
dançarina de um palco no qual bastava o espaço de uma pirueta. A possibilidade
não se alterava em decorrência de sua real existência. Multiplicava-se em si
mesma, de forma que o movimento se tornava mais forte. Palavras sussurradas
também tocam mais profundamente. Costuma ser assim.
Sem haver mais o que cortar e separar, podia, enfim, começar
a pôr os ingredientes nas panelas. Primeiramente, seria feito o arroz. A ela
agradava muito o cheiro do alho dourando. Mal podia esperar.
Nisso, ela punha a culpa por sua ansiedade desenfreada.
Deixava que simples ruídos se tornassem música determinante em suas notas tão
arrumadas. A moça empurrava as peças do dominó, antes que alguém o fizesse. Imperceptivelmente.
Podia-se ouvir o alho estourando no óleo e isso a fazia
inspirar cada vez mais fundo. Algumas gotículas fervilhantes acabavam parando
em seus braços, mas isso a preenchia de um susto revigorante. Era desafiadora a
necessidade de dosar a aproximação. O controle não era totalmente seu, por mais
que estivesse lidando com óleo e alho, ambos comprovadamente acéfalos da
natureza.
Bela, ainda de coração palpitante por conta dos espantos
fugazes, direcionou-se à sua tigela cuidadosamente plena de grãos de bico e,
sem deixar espaço a qualquer reflexão, mesmo à menor possível, pôs-se a
depositá-los por cima do alho fervente como se grãos de arroz fossem. Seu
coração estava agitado demais para enxergar as notórias distinções entre ambos.
Copiosamente e de olhos fixos, remexia os grãos, sem,
entretanto, vê-los.
Sem, entretanto, distingui-los.
Por fim, ou por recomeço de uma nova era, a moça deu-se
conta do que se passava à sua frente. Doze horas de molho à toa. Três horas em
pé sem razão de ser. Quinze horas desperdiçadas. O alho havia penetrado nos
grãos de bico como a loucura alheia se incrusta nos corações dos fracos ou dos
tímidos demais para poder evitá-la.
Uma lágrima se pôs a cair em chuva fina e insistente. Seus
olhos não podiam crer. Seus pés não podiam suportar. As próprias panelas se
entristeceram. Os grãos de arroz, esses, sortudos que eram, já se encontravam
em sono profundo, onde, lúdicos o bastante, pressentiam suas doces quimeras.
João, seu menino, embevecido de saudade da mãe, adentrou a
zona de tristeza profetizada e, repleto de compaixão em seus olhos infantis,
exclamou: Mamãe! Foi a cebola que te fez chorar? Aquela cebola má que te fez
chorar no outro dia?
Bela, sem palavras, mas repleta de todas elas, abraçou seu
menino inteligente e pôde sentir de novo
um coração batendo em seu ventre. Pôde sentir os seus pezinhos se movimentando,
tamanha era a vida que corria por entre as veias da cozinheira.
João, de olhos atentos, embora cerrados, devido ao medo
daquela que havia se tornado a vilã dos seus pratos, a senhora cebola,
perguntou à sua mãe se ela já podia servir o risoto.
- Risoto, João?
Onde aprendeu isso?
- Na escola, mamãe. E você nunca fez.
- Na escola, mamãe. E você nunca fez.
Bela, invadida pela vertigem do momento tão simples e
esplêndido que vivia, partiu ao fogão a fim de, com maestria, não só salvar
seus grãos, como multiplicá-los.
Naquele dia, Bela fez pela primeira vez o risoto de grãos. Tão simples, tão enriquecedor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário