domingo, 27 de maio de 2012

Espelho, espelho nosso.





                                                        O Ovo ou Urutu. Tarsila do Amaral

O respeito não teria a ver com entender que a condição natural do outro é igual  a nossa e que esse tem o direito de decidir o que fazer com isso sem intervenções preconceituosas de quem, por se reprimir, entende que os outros também o devem fazer?

A cobrança social: seja normal, não seja natural.

Um grande torturador. Possivelmente um ser reprimido.
É como um ser que se descobre com Aids e passa a fazer sexo desprotegido com o máximo de pessoas possível por sede de vingança!
O ser reprimido não se limita a limitar-se. Ele quer acreditar que limitar-se vale a pena. Ele quer acreditar que não está jogando seus anos pela janela. Ele quer acreditar que os sacrifícios são por um bem maior. 
Por um bem extremo e lindo. Por um bem cândido, divino, virtuoso. 
Ele quer se ver anjo. Limpo. 
Ele quer acreditar, pois uma sombra de dúvida poria tudo em jogo, atiraria-o aos anti-depressivos e consultórios cada vez mais abarrotados de gente com problemas de gente. 
E ele não quer os problemas de gente. Ele quer se ver curado. 
Ele quer olhar seus enganos e teorizá-los como as melhores escolhas. 
Ele quer escrever um tratado do correto. 
Ele quer ter moral. Ele quer pendurar seu nome numa parede branca e dizer: eu estou aí.
Não sofre pelas molduras ressecadas que o cercam. Ele passa verniz. Verniz. Verniz. E acredita.

Entretanto, para o ser acreditar, é necessário que passe seu estilo de vida àqueles que o cercam. 
Ele quer afirmar para si próprio que está certo e para isso necessita da aprovação dos outros, da aprovação e dos aplausos, pois não fosse os outros e sua preocupação exacerbada, não teria sequer escolhido reprimir-se, ou melhor, escolhido continuar o que fora realizado.
Ele desenha sua vida nas telas que a sociedade o oferece sem se questionar se suas tintas estão ou não de acordo.
Sem se questionar, se uma vez secas, irão se retalhar como retalha a pintura a óleo deixada para secar ao sol.
Ele recebe as telas. É cômodo pintar ali. 
Onde existiriam outras diferentes?
Como dizer que nega o que recebe?
Como o fazer quando aqueles que as oferecem o sufocam?
Uma vez aceitas, ele passa a pintar ali. Todos os seus anos. 
E ele, sem querer ver quaisquer possíveis danos, enverniza-os.
Diante de suas frustrações, a certeza maestra: ele possui a certeza de que é um homem correto. Uma mulher correta. Uma pessoa de família. 
Que vive do lar para o trabalho, do trabalho para o lar.
Ele tem um nome que pode ser colocado na parede. Ele tem um nome que brilha, e ressecada ou não a moldura que o cerca, ele não se importa. 
Ele tem um nome. E passa verniz.

A descoberta de que seu método de pintura em nada expressa a verdade de si próprio passa a ser questão indiscutível, possibilidade inexistente, poeira por baixo do tapete.

Como lidar com as telas e mais telas que carrega dentro de si?
É menos difícil continuar reproduzindo o que já fez. 
A técnica confortável das pinceladas aprovadas! Imagina mudar agora! Nem mesmo a vaidade se manteria de pé! Quem o apoiaria? 
Quem o compreenderia ao menos? Talvez o terapeuta. 
Mas o terapeuta é coisa de gente que tem problema de gente. 
E ele não pode ter problema de gente. Ele é ser santificado. Divino. 
Que luta contra as tendências naturais. Ah e ele se orgulha!
Não fosse o doce da vaidade descendo-lhe a garganta, de que valeria o esforço? O que sobraria?


Ele quer ao menos que reconheçam! 
É o grito estridente em cada gesto:

Sociedade! Reconheça como sou correto! Sociedade! Reconheça! 
Eu fiz isso porque você me orientou! Você me deu essas telas! 
Você me disse que era a única possibilidade! 
Você me disse para eu ser normal! Você me convenceu de que ver meus desejos era como ver o inimigo dentro de mim. Mas eu também era meus desejos. Talvez ainda seja, o que não admito nem para mim mesmo. Sociedade! Você me fez ver que sou meu inimigo e que devo lutar contra ele. Meu tesão é repudiável. É sujo. É horrível. 
Mas o que seria eu sem meu tesão? Sem minhas perguntas? Sem meus oceanos?

Eu pintei todas essas telas e a vida não é como acreditei. 
Minha vida não é a da família Doriana. Minha vida não se passa nos filmes de comédia romântica. Eu não sou o Super Homem. 
Não encontrei a vida da Cinderela. E olha que eu pintei. Eu pintei. 
Eu pintei telas e mais telas. Todos os dias, as mesmas telas. 
As mesmas imagens em que eu tanto acreditei! Eu pintei. Pintei. 
Pintei mecanicamente. Fui o operário que mandou! 
E agora? O que me dá em troco? 
Agora me dá filhos que me questionam. Me dá filmes que me questionam. Me dá amigos que me questionam só pelo olhar diferente que têm! 
Você me dá gente e mais gente diferente!
Me joga na cara! Me joga na cara as pessoas felizes! 
Me joga na cara o quanto elas agem contra meus preconceitos! 
Me joga na cara o quanto elas riem! O quanto elas riem! 
O quanto elas riem e gozam!
Me joga na cara os orgasmos delas! 
As danças intermináveis até as seis da manhã! Até as sete!
Até as oito! Até quando quiserem! 
Me joga na cara que essas pessoas ainda conseguem passar em provas difíceis! Ainda conseguem ganhar dinheiro! Ainda conseguem ser ouvidas e respeitadas!
Me joga na cara que essas pessoas estão sendo ouvidas agora!
Me joga na cara que preconceito é a tela que baseei minhas pinceladas, enquanto prazer foi a tela que elas usaram!
Me joga na cara que vou ter que me manter agarrado aos meus preconceitos até morrer, porque como poderia mudar meu discurso a esse ponto do campeonato?
Como ficaria a minha imagem? Como acordar e olhar na cara dos outros?
Preciso acreditar que meus preconceitos que dizem que o natural não é normal é o normal!
Preciso acreditar que meus preconceitos são mais do que corretos. 
São a única saída! Preciso! Preciso! 
E por tanto precisar, eu preciso fazer os outros acreditarem também! 
Eu preciso reprovar quem faz diferente! Eu preciso rezar minha cartilha. 
Ser profeta dos meus males. Eu preciso ver a reprodução de mim. 
É questão de orgulho. De vida ou morte. 
Não poderia jogar tudo o que já fiz no lixo. 
Como assumir que estou no zero? Que nada valeu de nada? 
Que a juventude foi queimada? 
Que já cremei minha vida? Que já enterrei meus devaneios e desvarios? Que sou bege e sem graça? Que sou um ser reproduzido? Mera cópia não pensada? É preciso reproduzir. 
É preciso fazer reproduzir. É cult ler autores da revolta. 
É cult ser fã de filosofia. 
É cult o que foge a regra. É cult o questionamento. Então eu digo que leio. E leio. Eu digo que sou fã. E tento ser. Eu admiro. 
Eu admiro esses poetas consagrados. 
Mas e os poetas do dia a dia? Esses convivem ao meu lado. 
Esses são insuportáveis para mim. 
Estão perto demais denunciando minha pequenez. 
Esses, eu condeno.

Na sala de discussões eu endeuso nossos artistas endeusados! 
Nossos revoltados pagãos! 
Eu me sinto gente por saber o que estou falando! 
Mas no final de tudo... eu volto pra casa  e penso: 
ah...mas muitos deles se suicidaram...muitos deles não foram felizes... e volto a pintar minhas telas.


Volto a pintar minhas telas, como se a infelicidade desses muitos revoltados fosse a regra indiscutível para todos os que se revoltam! 
E se fosse?
... é como se eu, agindo diferente, fosse feliz, ou ao menos, leve.


Eu e minha visão retilínea! Não quero ver o outro ângulo. Não posso.
Finjo não perceber que infelicidade é fator óbvio em certos momentos da vida para todos, o que independe do estilo de vida que pintam suas escolhas.
Finjo não perceber que não se trata de uma questão de ser ou não feliz, mas de reconhecer-se ou não ao olhar no espelho.


Minhas pobres telas...
Volto a rasgar as telas dos que condeno! 
Volto a tentar rasgá-las, ao menos.
Eu volto a querer ser reproduzido. Volto a ter a necessidade inebriante!
Volto a beber na fonte da hipocrisia vazia. E acredito.
Acredito que o belo é o ideal. E me sinto todo! E me sinto ideal!
E me sinto alguém.
É questão de honra. Acontece até mesmo nas melhores famílias.


Queridos jovens... 
Esses dias, lendo O Diabo de Tolstói, deparei-me com  a frase:
"As pessoas geralmente pensam que os velhos são mais conservadores e os jovens, inovadores; mas isso não é inteiramente verdade. Os conservadores são comumente os jovens , porque estes querem aproveitar a vida e não têm tempo de pensar em como devem viver, e, assim, tomam como exemplo a seguir o modo de vida antigo."


A escolha de pensar.
Ela não é a poltrona confortável da sala. 
Ela tende, inclusive, a transformar essa poltrona que tanto gosta numa coroa de espinhos. 
Mas eu garanto que sara. Sararia?
E que sarando ou não, a dor é inevitável. Sempre será. 
É condição humana.
Não há como fugir. 
É o ovo e a cobra. Mas sem cobra... 
Que ovos nasceriam?

Lutem para reconhecerem-se no espelho. 
Tudo mata.
Mas há sangue que não se estanca.


3 comentários:

  1. AMEI!!!!!!!!( com todas as exclamações que temos direito)

    Beijos....

    Cláudia

    PS; Adorei o texto no qual Rousseau é citado ( o gato!) . Impressionante...sinto o mesmo quando eu fico a observá-lo.

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  2. Oi Nathalia, sou aluna da FND e achei seu blog por meio de uma "googleada" referente ao CACO, rs; Confesso que ao me deparar com seu blog, em seus primeiros textos, senti certo ar de pedância, por causa das palavras complicadas. Mas esse texto aqui é maravilhoso, mostra intelecto e sensibilidade sem rebuscar demais (coisas que geralmente caminham juntas). Está de parabéns!

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  3. Olá! Fico feliz que tenha lido os meus textos e gostado desse!
    Sobre as palavras complicadas, eu não tenho o que dizer... Escrevo o que sai de mim.
    É uma pena que não tenha escrito o seu nome...
    Tem blog também?
    Beijos!!


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